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Paulo Chaccur

Entenda a relação entre os sentimentos e as batidas do nosso coração

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

16/08/2020 04h00

Você já parou para pensar como seria se nós tivéssemos consciência e ficássemos prestando atenção no batimento do nosso coração o tempo todo? Se qualquer mudança nos fosse evidenciada pelo corpo e tivéssemos uma reação imediata para cada alteração da frequência cardíaca? Creio que seria perturbador e extremamente cansativo. Imagine: um adulto registra em média 100 mil batimentos a cada 24 horas!

Pois é por esta razão que nosso organismo faz com que todo este esforço aconteça de forma quase imperceptível. Seguimos nossa rotina diária, descansamos, dormimos, mas não ficamos ligados em como o coração está funcionando, apesar de ele seguir lá, desempenhando um trabalho intenso, ininterrupto e fundamental para nos manter vivos.

Truques do corpo

Você está, por exemplo, aqui lendo este texto agora e, com certeza, só vai perceber as batidas do seu coração porque estou te induzindo a fazer isso neste exato instante. Normalmente, só damos atenção a elas em situações específicas, momentos de excitação intensa, esforço ou no caso de arritmias.

Estudos recentes sobre a interação coração-cérebro apontam que possivelmente nosso organismo fez essa adaptação justamente para impedir que nossos batimentos cardíacos nos levem a loucura!

As variações na frequência do pulsar do coração passaram assim a ser tratadas como eventos previsíveis e, portanto, são atenuadas pelo cérebro, que minimiza a probabilidade desses sinais serem confundidos com estímulos externos.

E quais seriam essas interferências vindas de fora? Os nossos sentimentos e emoções, por exemplo. No entanto, ao suprimir a percepção dos batimentos cardíacos, nossa percepção de qualquer um desses estímulos sensoriais também pode ser afetada.

Assim, os cientistas consideraram então que a frequência com que os batimentos ocorre tem relação com a nossa percepção do mundo e com o que sentimos no dia a dia. A percepção de uma pessoa a interferências externas, portanto, não está apenas ligada ao sistema nervoso (ou seja, ao cérebro), mas tem influência também, tanto direta como indiretamente, de outros sistemas, como o cardíaco.

Ciclos do coração

Além disso, esses resultados são interessantes porque mostram que nossa percepção consciente do mundo externo pode mudar inclusive dentro de cada ciclo de batimentos cardíacos, evento rítmico ao qual, como ressaltamos aqui, geralmente não prestamos atenção.

Resumidamente, cada ciclo tem em duas fases: de sístole e diástole. Na sístole, o músculo cardíaco se contrai, bombeando sangue para as artérias. Quando ele relaxa e suas câmaras se enchem de sangue mais uma vez, acontece o que chamamos de diástole.

Entre os estudos, foi constatado que uma pessoa é mais suscetível a estímulos durante a diástole e menos sensível durante a sístole. Os pesquisadores acreditam assim que o cérebro consiga prever quando a próxima contração do coração ocorrerá e suprime a percepção de estímulos nessa fase do ciclo para que a pessoa não se distraia com o ritmo cardíaco ou confunda o batimento do coração com um estímulo externo.

E o que ganhamos com isso?

Com essas descobertas, que sugerem que não apenas o cérebro, mas também o organismo como um todo, desempenha um papel importante na formação da nossa consciência, é possível fornecer informações e novas fontes de pesquisa que contribuam para o entendimento do processo neuronal e até no tratamento de algumas doenças, como a ansiedade.

Levantamentos revelam que portadores de transtornos psiquiátricos apresentam mortalidade de duas a três vezes maior em relação à população geral, especialmente por conta de problemas no coração.

O fato é que mesmo que as crises de ansiedade não representem, necessariamente, um evento cardíaco, sabemos que elas são atualmente reconhecidas como fatores de risco para o coração, uma vez que, quando acontecem de forma recorrente, podem levar a uma resposta inflamatória no corpo que predispõem problemas cardíacos.

Ou seja, ainda mais importante do que entender a interação dinâmica do coração e do cérebro, essas descobertas contribuem para que novas formas de tratamento e prevenção sejam desenvolvidas a ponto de minimizar e reduzir o alto índice de incidência na morbidade cardiovascular induzida pelo estresse, crises de ansiedade e outros transtornos mentais.

Base das informações mencionadas: estudos realizados na Universidade Nacional de Pesquisa da Rússia e artigo editado por Peter L. Strick, da Universidade de Pittsburgh/EUA, publicado no PNAS/Proceedings of the National Academy of Sciences.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL