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Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

"Academias são polos promotores de saúde", diz conselheiro do CREF

Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

03/06/2021 04h00

Já expus aqui minha opinião com base em argumentos que a ciência traz sobre a abertura das academias em dois textos "Contradição da pandemia: fast-foods são essenciais e exercícios restritos" e "Academia é, sim, essencial para quem precisa de supervisão e motivação", ambos valem a leitura.

Hoje trago para vocês uma entrevista com Ailton Mendes, presidente da Acad Brasil (Associação das Academias do Brasil) e conselheiro do CREF (Conselho Regional de Educação Física) sobre a abertura das academias, a essencialidade do espaço e os benefícios para a população.

Paola Machado (PM): Estamos em um momento em que muitos temas são contraditórios e, para nós da área da saúde, ficamos no meio de um fogo cruzado. Desde sempre as academias, atividades físicas e exercícios foram indicados por órgãos competentes (OMS e ACSM), como condição primordial para promoção da saúde. Gostaria de entender o porquê do tema ser tão polêmico, já que as academias são ambientes preventivos e que promovem a saúde?

Ailton Mendes (AM): O fato desse tema ser tão polêmico se dá por uma única razão, o entendimento equivocado que a saúde só deve ser tratada quando se perde e deixam de lado a prevenção, promoção e até mesmo a manutenção, que é onde as academias atuam de fato.

E quando evidenciamos a saúde, estamos levando em conta não só a saúde física, mas também a mental e social, pois quando atuamos nas aulas mais lúdicas —jump, zumba, step ou qualquer atividade que gere prazer para o praticante—, por exemplo, melhoramos o estresse, ansiedade e deixamos nossa cabeça longe dos problemas corriqueiros. As academias nada mais são que polos promotores de saúde, gerando saúde física, social e emocional.

Outro ponto importante para esclarecermos é que, quando se fala em academia, vem à cabeça aquele formato que nós conhecíamos antes da pandemia, isto é, com sua produção máxima (salas cheias de gente pela procura), buscando sempre trazer conforto àqueles praticantes. Essa estrutura mudou, a operação mudou e toda a dinâmica também foi adaptada para promover a saúde em um momento que precisamos, e muito, dela.

PM: Quais as condutas adotadas pelas academias para a abertura?

AM: São mais de 42 protocolos de biossegurança que as academias devem seguir. Dentre os protocolos estão a limitação no número de alunos, sanitização, distanciamento, conduta de profissionais, aferição de temperatura, entre outros. Hoje as academias são um dos locais mais seguros para estar, seguindo todos os protocolos de biossegurança solicitados e orientados pelos CREFs (Conselho Regional de Educação Física), assim como pela Acad Brasil, que pede para que tudo seja feito e cobra para que tudo seja mantido.

Esses protocolos garantem que o ambiente seja saudável e seguro. Vale lembrar que as academias não são um ambiente em que diversas pessoas contaminadas transitam ao mesmo tempo. Inclusive, dentro dos protocolos existem várias barreiras para que pessoas contaminadas não acessem o local.

Dentro do ambiente da academia, seguindo os protocolos formatados por infectologistas da USP, eles reforçam e garantem a segurança. Tanto é que não tivemos nem no Brasil, nem no mundo, nenhum polo de infecção em academias, reforçando que é um ambiente seguro e basta seguir os protocolos de biossegurança.

PM: Por que, no seu ponto de vista, a academia é, sim, essencial?

AM: A academia é essencial por ser um polo gerador de saúde, melhorando também comorbidades associadas ao alto risco de covid-19 (como hipercolesterolemia, diabetes, obesidade, hipertensão). Isso não significa que pessoas saudáveis não pegarão covid-19 de forma alguma, porém, de acordo com estudos citados e expostos no documento da Acad, terão um risco reduzido de evoluir a óbito.

Um exemplo bem simples: quando tiramos a pessoa do estilo de vida ativo, a colocamos no sedentarismo; que foi exatamente o que foi feito quando mandaram fechar as academias de forma indiscriminada, colocando cerca de 12 milhões de pessoas no nosso país no sedentarismo.

Essas pessoas ganharam peso, aumentando o risco de ter alterações no colesterol, hipertensão arterial, diabetes, problemas cardíacos, enfim, colocando todas no grupo de risco. E isso é muito sério. Quando se pensa em fechar uma academia ou colocá-la como não essencial, você está tirando o direito da população de manter-se ativa e saudável e colocando-a em um grupo de risco.

PM: Qual o percentual de transmissão nas academias?

AM: De acordo com a CDC (órgão de saúde dos EUA), o percentual de transmissão nas academias é muito baixo, ocupando a 15ª posição. E o vírus não se espalha tão facilmente por superfícies e objetos como se imaginava no começo da pandemia. A sanitização e higienização de todos os ambientes acontece pelo menos 2 vezes ao dia, associada ao distanciamento, uso da máscara, quantidade limitada de alunos, tudo isso leva a um percentual menor.

De acordo com o International Health Racquet & Sportsclub Association, após a reabertura, as academias foram responsáveis por apenas 0,5% das transmissões ocorridas em San Diego, na Califórnia (EUA); na Inglaterra, as academias receberam 8 milhões de visitantes nas primeiras três semanas de agosto e relataram apenas 17 casos de covid-19; já na Austrália, 6 milhões de pessoas frequentaram mais de 400 academias durante dois meses (junho a agosto) e não houve caso de transmissão dentro dos estabelecimentos.

PM: As piscinas transmitem o coronavírus?

AM: A taxa de transmissão na piscina é quase nula, pois o coronavírus conta com uma camada de gordura bem fina que o protege e um teor muito baixo de cloro já é capaz de matar o vírus. Todas as piscinas são cloradas, tendo que ter, segundo a ABNT, de 1 a 3 ppms (partículas por milhão) de cloro, sendo que menos de 0,5 ppm já é capaz de matar o coronavírus.

Além disso, a regra de distanciamento continua da mesma forma e o professor fora da piscina utiliza a máscara e dentro o face shield, mantendo o distanciamento dos alunos. Dessa forma, se os ambientes de academia que contam com piscina fizerem toda a manutenção já estabelecida anteriormente como norma da Vigilância Sanitária e ABNT, a piscina é um lugar seguro para praticar qualquer atividade, além de todos os benefícios à saúde que ela traz, principalmente respiratórios.

PM: Qual é o maior risco: não cuidar da saúde ou ir para a academia?

AM: Com certeza não cuidar da saúde. Para você ter uma ideia, estou nesse mercado há 27 anos, e o que eu vejo é que pessoas que se mantiveram ativas e saudáveis, durante muitos anos, com esses fechamentos de meses, com a ansiedade, com a facilidade dos fast-food em casa, o home-office e tantos outros fatores que contribuíram para a inatividade; ganharem 5, 8, 10 quilos. E essas pessoas, antes saudáveis, voltaram a academia com sobrepeso, hipertensão, diabetes, colesterol alterado, relação cintura-quadril alta, composição de gordura corporal alterada e nós, profissionais, temos tido que trabalhar na recuperação da saúde dessas pessoas.

É uma situação fisiológica que coloca pessoas, antes saudáveis, em risco; pelo fechamento das academias, dos parques e de tudo que poderia trazer um pouco de bem-estar e conforto àquelas pessoas que tinham antes hábitos saudáveis.

Um estabelecimento como as academias, seguindo protocolos de biossegurança com profissionais de educação física supervisionando, orientando, auxiliando o aluno —que são profissionais da área da saúde que foram chamados pelo Ministério da Saúde para realizar o curso de enfrentamento a covid-19—, é o que você encontrará atualmente em um ambiente de academia.

É claro que, infelizmente, existem exceções que não seguem os protocolos de biossegurança e não estão preocupadas com seus alunos e com o momento. Por isso, os alunos devem estar atentos a todas essas recomendações e condutas e denunciar à Vigilância Sanitária e ao Conselho Regional de Educação Física, quando necessário, pois essas academias devem ser fiscalizadas e fechadas.

Reforço que essa é uma minoria e são raras exceções. A grande maioria segue todos os protocolos de biossegurança estabelecidos e a população merece esse espaço para cuidar da sua saúde e manter-se saudável. Cuide da sua saúde e da saúde de quem você ama!

Para saber mais:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL