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Tratamento para sarcopenia deve aliar nutrição e exercício físico

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

07/10/2020 04h00

A sarcopenia foi descrita inicialmente por Rosemberg (1989) como uma redução da massa muscular global, que ocorre ao longo do envelhecimento. Atualmente, a definição de sarcopenia engloba, além da redução de massa muscular, a redução de força e a piora do desempenho físico, como relatado no consenso publicado no ano de 2010 pelo Grupo Europeu de Trabalho com Pessoas Idosas.

Este documento definiu que a redução apenas de massa muscular é considerado como pré-sarcopenia. Quando existe, além da redução de massa muscular, redução de força ou desempenho físico, considera-se como sarcopenia moderada, sendo que a sarcopenia severa ocorre quando há alteração nas três variáveis.

Os principais mecanismos que caracterizam o processo de perda de massa, força e desempenho físico é o estresse oxidativo, desencadeado por fatores endógenos e exógenos, culminando com redução da síntese proteica, aumento da degradação proteica, alteração da integridade neuromuscular e conteúdo de gordura no músculo.

A população idosa é a mais suscetível a essas alterações de forma primária, ao longo dos anos, e está associada a consequências negativas, como fragilidade, aumento do número de quedas e fraturas, limitação para atividades de vida diária, maior risco de morte e até influenciar em desfechos negativos durante a hospitalização.

Existe também uma associação entre a inatividade física e doenças cardiovasculares, diabetes, problemas psiquiátricos, depressão e câncer, que tem como mecanismo o desequilíbrio entre as substâncias pró-inflamatórias.

Quando surge?

A sarcopenia pode ter origem primária, quando associada somente ao processo de envelhecimento, e secundária, quando está relacionada a outros fatores. Dentre estes, é possível citar a inatividade física que incluem situações de repouso prolongado, estilo de vida sedentário, descondicionamento ou condições de gravidade zero.

Outro importante fator está ligado a nutrição, como ingestão inadequada de energia e proteína, presente em desordens gastrointestinais (má absorção) ou uso de medicações que podem influenciar no apetite. Além disso, diversas doenças, distúrbios inflamatórios e endócrinos também podem promover um efeito catabólico, com consequente degradação proteica.

Dentre algumas doenças que podem estar associadas a sarcopenia encontram-se a maioria das doenças crônicas, incluindo insuficiência renal crônica, DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), câncer, infecções e insuficiência cardíaca congestiva.

Força muscular

Sabe-se que pessoas de todas as idades se beneficiam de atividade física regular, o que reduz o risco de doença cardíaca coronária, hipertensão, certos tipos de câncer, diabetes tipo 2 e muitas outras doenças crônicas.

A força muscular é um componente importante da aptidão física com papel independente na prevenção de muitas doenças crônicas. Vários estudos epidemiológicos mostram que a fraqueza muscular em indivíduos de meia-idade e terceira idade está fortemente relacionada a limitações funcionais e incapacidade física, e indicam um potencial efeito benéfico do aumento da ingestão de proteínas em idosos.

A força muscular é inversamente e independentemente associada à incidência de muitas doenças crônicas, como doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral, hipertensão, síndrome metabólica ou hiperinsulinemia, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas.

Um estudo do KORA-Age, com uma base populacional de 1.079 idosos, demonstrou que a baixa força de preensão está inversa e independentemente associada à multimorbidade entre mulheres mais velhas após o controle de marcadores inflamatórios e níveis de atividade física.

Além disso, estudos entre idosos sugeriram ainda que existe uma forte associação entre baixa força muscular e comprometimentos cognitivos e o risco de doenças neurodegenerativas, como demência, Alzheimer e Parkinson. Estudos também demonstraram que a força de preensão esta inversamente associada à mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular, mortalidade não-cardiovascular, infarto do miocárdio e AVC (acidente vascular cerebral).

A perda de massa muscular contribuirá significativamente para a fragilidade, imobilidade e perda de independência. No entanto, a extensão do desperdício muscular difere bastante entre os indivíduos devido às diferenças no processo de envelhecimento em si, bem como nos níveis de atividade física.

Alterações na arquitetura muscular e na composição do tipo de fibra, resultado da inatividade e processo de envelhecimento, nas propriedades mecânicas dos tendões e no controle vascular do músculo em contração são as características mais importantes associadas ao declínio da musculatura e do funcionamento no envelhecimento do músculo esquelético.

Como tratar?

As intervenções para a sarcopenia incluem exercício e nutrição, porque ambas têm um impacto positivo no anabolismo proteico, mas também aumentam outros aspectos que contribuem para o bem-estar em idosos sarcopênicos, como função física, qualidade de vida e estado anti-inflamatório.

Os idosos sedentários podem alcançar até mais de 50% de ganho de força, mesmo após 6 semanas de treinamento resistido, ao realizar duas ou três sessões por semana, aplicando uma intensidade suficientemente alta (cerca de 70 a 80% da força máxima).

O treinamento físico de resistência é o método de escolha para manter ou melhorar a aptidão cardiovascular. A capacidade aeróbica (VO2máx) demonstrou melhorar muito em indivíduos jovens e idosos (cerca de 70 anos) em resposta a 12 semanas de treinamento de resistência.

Com relação à alimentação, a nutrição proteica é um componente importante da dieta de indivíduos mais velhos. A proteína é um nutriente essencial; assim, pelo menos uma quantidade mínima de ingestão de proteínas é necessária para sustentar uma vida saudável.

No entanto, idosos correm alto risco de ingestão insuficiente de proteínas, provavelmente como consequência da desnutrição, do envelhecimento e da resistência anabólica no músculo envelhecido. Além disso, a inflamação concomitante observada em doenças crônicas leva à degradação das proteínas e a síntese proteica do músculo esquelético (SPM) e, consequentemente, a maiores necessidades proteicas.

Portanto, o atual subsídio dietético recomendado (RDA) para proteínas, de 0,8 grama de proteína por quilograma de massa corporal por dia, pode não ser adequado para manter a saúde dos músculos e ossos na terceira idade. A Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN), em 2018, lançou um guia recomendando um valor proteico mínimo de 1 g/kg/dia para idosos. Esses valores devem ser ajustados de acordo com fatores como as necessidades individuais, estado nutricional, nível de atividade física, presença de comorbidades etc.

A força muscular representa um papel independente na prevenção de doenças crônicas, enquanto a fraqueza muscular está fortemente relacionada a limitações funcionais e a incapacidade física. Além disso, a baixa força muscular tem sido reconhecida como um fator de risco emergente para mortalidade prematura além dos fatores de risco tradicionais, como hipercolesterolemia, obesidade, hipertensão e tabagismo.

Por esse motivo, e pelo fato de que a força muscular diminui com a idade, atualmente são prescritos exercícios de resistência e aeróbios por várias organizações de saúde, a fim de melhorar o condicionamento físico e combater os efeitos adversos do envelhecimento em parâmetros relacionados à saúde, incluindo o risco de mortalidade.

Dessa forma, é essencial na terceira idade o acompanhamento de uma equipe profissional para ajustar alimentação, treinamento, além de fatores fisiológicos de acordo com as necessidades do indivíduo.

Referências

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL