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Nuno Cobra Jr

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Qual a atividade física ideal para cada tipo de personalidade?

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Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista Ítalo Ferreira. Preparador físico e mental, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro O Músculo da Alma – a Chave para a Sabedoria Corporal, Nuno defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

01/07/2021 04h00

O primeiro registro histórico do treinamento remonta a 3.000 a.C., quando o imperador e general chinês Hong Ti percebeu que treinar fisicamente seu exército seria uma vantagem estratégica.

Quase tudo o que o grande público conhece como treinamento físico é uma forma muito específica de se conceber a saúde corporal. Essa visão é contaminada pela herança militar do treinamento e pelo lobby do bodybuilding (o culto ao fortalecimento muscular). Os conceitos criados pelos bodybuilders ou "marombeiros", como são popularmente conhecidos, dominam o ambiente de treinamento. Eles já estavam lá quando a indústria do fitness começou a florescer.

Qual o principal problema de um modelo de treinamento dominante e massificado?

Ele exclui todos os tipos físicos e psicológicos que não se adaptam a esse modelo. Analisando apenas o perfil físico, de cara, algumas modas do treinamento excluem mais de 90% da população, somando os sedentários, obesos, idosos, alunos com sobrepeso, alunos sem regularidade e alunos sem adaptação a esse modelo radical.

Aqui, surge a novidade: escolher uma forma de atividade física deveria ser algo feito sob medida, incluindo o perfil psicológico de cada aluno. Esse insight me veio recentemente, unindo meus estudos de psicologia com as reflexões sobre a minha profissão.

Alguns alunos irão se adaptar ao modelo do treinamento com sofrimento, aprendendo a sentir prazer na dor. Outros usam a atividade física como uma forma de autopunição, vivendo uma relação conflituosa com essa atividade. Alguns irão em busca de atividades lúdicas e desafiadoras. Os ansiosos crônicos buscam, intuitivamente, atividade de longa duração, como a corrida, um ansiolítico mais potente, tarja preta. (Risos)

Os obsessivos e perfeccionistas irão ter facilidade em seguir à risca, com absoluta disciplina, qualquer forma de treinamento, e assim por diante.

Tem ainda aqueles que buscam a atividade física como uma forma de transcendência, meditação e expansão da consciência.

Circo, natação, street dance, skate, surfe, slackline, judô, as opções são infinitas, e cada um pode encontrar uma atividade física para chamar de sua, uma atividade que desperte o seu desejo e a sua paixão, algo que combine com o seu perfil psicológico e as suas características biológicas.

Qual modelo de treinamento se adapta a você?

Na verdade, não é você que tem que se adaptar ao modelo de treinamento, é a atividade física que tem que se adaptar a você, levando em conta questões como excesso de peso, morfologia, herança genética, individualidade biológica, perfil psicológico e tudo o mais

No modelo mais popular de treinamento, a atividade física é vista como um inimigo, algo a ser vencido, algo que depende de muita luta, afinal, como todos os animais, nós fugimos da dor e do sofrimento.

Outros se relacionam com essa atividade a partir do prazer, buscando formas mais equilibradas, lúdicas e prazerosas de treinamento.

Posso dar o meu exemplo. A atividade física é o melhor momento do meu dia, dessa forma, a preguiça é algo que nem passa pela minha cabeça. Na verdade, eu mal posso esperar para repetir essa experiência tão rica e gratificante, enchendo o meu dia de energia, equilíbrio e vitalidade.

Porém, é bom avisar, atingir essa consciência é algo que depende de uma exposição de longa duração a atividades convidativas, gratificantes e estimulantes. Afinal, gostar de atividade física é um aprendizado que demanda tempo. Ou seja, pouco importa aquilo que você escolhe, o salto mais essencial é aderir ao treinamento, sem isso não será possível desenvolver uma relação produtiva com a atividade corporal.

Na atividade física, não existe certo ou errado, seja por meio da dor ou do prazer, o importante é estar em movimento

As características da personalidade de cada indivíduo são fruto de diversos fatores, como a genética, as experiências na infância, o grupo social e tudo aquilo que vivemos durante a nossa vida.

Cada indivíduo é um universo único e extremamente complexo, por isso seria ridículo dizer que o perfil psicológico de alguém mais introspectivo, deva, necessariamente, combinar com atividades mais meditativas. Muitas vezes, o que ocorre é exatamente o contrário, o introspectivo precisa de estímulos mais intensos para compensar a sua passividade ou canalizar a sua agressividade. Já os mais agitados iriam se favorecer caso aderissem a atividades mais introspectivas e meditativas, como a ioga.

O mito da disciplina e da força de vontade

Outro dia, vi um vídeo no qual um praticante de triatlo se vangloriava da sua enorme força de vontade, afinal, ele tinha disciplina suficiente para treinar regularmente, apesar do tremendo esforço e mal-estar causado por essa atividade, segundo seu relato.

Bom, da próxima vez que escutar algo assim, saiba que isso pode ser um mito. Na realidade, ele pode ter tanta força de vontade quanto você, como vou explicar mais à frente, a diferença é que ele achou uma atividade que se encaixa ao seu perfil e isso se tornou um hábito. Qual o esforço necessário para se fazer algo que é habitual? Quase nenhum, já que essa tarefa já foi automatizada.

É o contrário, agora, ele teria que fazer um esforço enorme para tirar esse hábito da sua vida, o que, no caso, não seria desejável ou positivo.

O que está embutido na palavra disciplina? Esse conceito está profundamente associado ao universo militar, por isso a sua enorme aderência ao treinamento físico. Para um soldado, disciplina quer dizer que você foi ensinado e condicionado a seguir ordens superiores, ou seja, a realizar de forma habitual e regular, coisas que não são necessariamente agradáveis e desejáveis a você. Para um aluno de fitness, este princípio é o mesmo. Portanto, disciplina se afirma como a capacidade, renovada diariamente, de seguir regras rígidas e de suportar a dor e o sofrimento, almejando um bem maior.

Por que um adulto precisa de disciplina para treinar? Porque a relação com essa atividade é utilitarista, o exercício é visto como uma obrigação, uma pílula ruim que deve ser tomada para alcançar resultados estéticos. Esse é um dos principais fatores a dificultar o processo.

Uma criança não precisa de disciplina para brincar e se movimentar intensamente. Aqui, encontra-se a grande solução: o mercado precisa "virar a chave", investindo em modelos de treinamento que sejam equilibrados, convidativos e extremamente gratificantes ao aluno.

Qualquer pessoa pode adquirir disciplina em apenas dois meses. É só trocar a palavra disciplina por hábito e você entenderá como e por quê.

Eu já fiz esta experiência com alguns alunos que chegaram ao nosso método, jurando, de pés juntos, que não tinham disciplina. Para isso, basta que esse treinamento seja equilibrado, lúdico e prazeroso, fator que será essencial na construção de um novo hábito e de uma nova identidade corporal.

Poucos conceitos são tão nocivos à saúde pública como o conceito de disciplina

Por que eu digo isso? Quando você pergunta à maioria das pessoas o porquê do seu sedentarismo, uma das desculpas mais recorrentes é a tal "falta de disciplina". Dessa maneira, a impressão que se dá é de que a disciplina é algo que se adquire ao nascer, ou seja, um talento nato. Ou você tem ou não tem.

Com a força de vontade acontece a mesma coisa, é como se apenas uma pequena elite do treinamento tivesse adquirido esse bem tão raro e tão desejado. Será que isso é verdade? Um aluno obsessivo ou perfeccionista tem essas qualidades de sobra, mas eles representam apenas uma pequena parcela da população, o que fazemos com o resto?

Me responda, por que você encontra disciplina e força de vontade para fazer algumas coisas e outras não? A questão é um pouco mais complexa: o que antecede e dispara essa vontade?

Não seria porque você se sente estimulado e recompensado em aderir a essas atividades?

E se você soubesse que isso também pode acontecer na atividade corporal? Basta mudar a mentalidade...

Será que carecemos de força de vontade ou o impulso de vida já tem força o suficiente para nos colocar em movimento? Será que, no fundo, o modelo dominante só serve a um tipo muito específico de aluno?

Segundo meus estudos, essa teoria faz muito sentido. Infelizmente, começamos com o pé esquerdo. O modelo do fitness é uma das formas mais radicais e estressantes de treinamento físico, atraindo um aluno de perfil psicológico extremamente raro e peculiar. As estatísticas expõem essa dificuldade: depois de apenas três meses, 64% dos alunos desistiram da academia e, ao fim de um ano, apenas 3,7% dos alunos conseguiram aderir a esse modelo.

Me parece que chegou a hora de rever esses conceitos arcaicos, uma herança do modelo militar de treinamento. Faça as contas, o treinamento focado na dor e no sofrimento já completou mais de 5 mil anos.

Analisar o perfil psicológico abre a possibilidade de adequar o treinamento à realidade de cada aluno, revelando um campo enorme de novas possibilidades. Nada mais importante, nesse momento, do que ampliar a nossa consciência sobre os fatores que colaboram com o sedentarismo, a mais grave questão de saúde pública do nosso tempo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL