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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Casos de violência marcam retorno às aulas e colocam saúde mental em xeque

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

25/03/2022 04h00

Nas últimas semanas, uma série de incidentes envolvendo jovens em escolas e universidades acendeu uma luz sobre a importância de discutir limites, respeito, ética e saúde mental nesse momento de volta às aulas e de intensificação das interações sociais, dois anos depois do início da pandemia.

Boa parte da população mais jovem passou quase todo esse período dentro de casa, com contatos restritos às redes sociais e à vida online. Muito se discute o quanto esse distanciamento físico impactou o aprendizado, as habilidades sociais e a saúde mental deles.

Piora da saúde emocional

Crianças e adolescentes tiveram uma piora do seu estado emocional com maior irritabilidade, tristeza, ansiedade e estresse. Como consequência, menor tolerância à frustração e mais impaciência, hostilidade e agressividade. O risco de conflitos e desentendimentos pode ter aumentado.

O que a gente já tinha enfatizado aqui no VivaBem é que esse retorno exigiria maior paciência, empatia e flexibilidade por parte dos pais e educadores. A maior parte das redes públicas e escolas particulares vem se preparando desde meados do ano passado para receber esse aluno de forma 100% presencial.

Mesmo preparadas, muitas vezes, elas se deparam com dificuldades em lidar com temas que já eram sensíveis antes da pandemia. Dois anos de afastamento dos alunos do espaço físico da escola e um momento de particular polarização de qualquer tema (até mesmo do uso da máscara facial) podem ter elevado essa sensibilidade a patamares inéditos.

Roupas proibidas?

Em São Paulo, por exemplo, 15 alunas do nono ano de uma escola estadual da zona norte da cidade afirmaram que foram retiradas da sala de aula por estarem usando regatas, cropped e calças rasgadas, roupas consideradas "inapropriadas" pela direção.

Foram informadas que o estabelecimento de ensino não poderia se responsabilizar por queixas de assédio por parte dos alunos homens caso elas não se vestissem da forma esperada. As alunas postaram mensagens citando desrespeito e constrangimento. Elas se defenderam nas redes afirmando que "mulheres têm que ser respeitadas independentemente da roupa que escolhem usar para que se possa construir uma sociedade menos machista". A Secretaria de Educação (Seduc-SP) afirma que a abordagem da escola não condiz com suas orientações e que a Diretoria de Ensino irá averiguar o ocorrido.

O que parece ser uma tentativa de imposição de limites pela escola vai na contramão do que se espera em termos do respeito à autonomia dos jovens e da desconstrução de argumentos machistas e anacrônicos. Parece ter faltado tato, preparação e diálogo para evitar que esse tipo de situação acontecesse. Criar esse tipo de constrangimento no cenário atual, além de absolutamente desnecessário, só piora um momento que já está sendo difícil para todos estudantes.

Trotes violentos

Já parte dos alunos veteranos do curso de medicina da Unisa, em São Paulo, insistiram em uma tradição de humilhação no trote dos calouros, incluindo agressões verbais e físicas (tapas, socos e cuspe no rosto) e situações vexatórias como a exposição de genitais. O UOL investigou por dois meses relatos que envolveram essas práticas.

A cultura de abuso na recepção de calouros é proibida por lei em São Paulo desde 1999. De lá para cá muitas instituições organizaram trotes solidários e culturais e baniram ações violentas. Mas nem todas conseguiriam controlar o comportamento de seus veteranos. Outras podem ter feito "vista grossa" ao que acontece dentro e fora do campus.

É um momento bastante delicado também esse retorno nas universidades. Os atuais alunos do segundo e terceiro anos passaram quase dois anos assistindo a aulas só da sua casa, distantes uns dos outros, sem incorporarem a responsabilidade do que é, de fato, estar no ensino superior. Para muitos deles a noção de estar em um curso de graduação é ainda bastante precária, o que abre espaço para que uma cultura violenta se imponha, aumentando o risco de coação e agressões nos trotes.

Por isso não bastam recomendações, manuais e campanhas de alcance limitado. É importante reunir todos os atores envolvidos (professores, direção, veteranos e calouros) para que as normas possam valer e para que todos ingressantes se sintam acolhidos (e não ameaçados e coagidos), ainda mais nesse momento histórico particular de volta às aulas pós pandemia.

Facadas na sala de aula

Outra situação difícil aconteceu nesta semana em um colégio particular na zona leste de São Paulo. Um aluno esfaqueou uma colega de sala e feriu outro garoto que tentou defendê-la. Todos têm 13 anos e estavam no horário de troca de aula, sem a supervisão de um professor.

Segundo a Polícia Militar, o jovem usou uma faca de cozinha e disse que era vítima de bullying da colega, fato negado pela direção da escola. A escola diz oferecer apoio psicológico e orientação aos alunos sobre o tema. Ter um profissional de saúde mental a postos e trabalhar essas questões é essencial mas pode não ser suficiente. Outras ações coordenadas e sistêmicas de prevenção e mitigação podem ser necessárias.

Não é possível afirmar que o bullying foi a causa da violência. E mesmo que tenha sido, ele não justifica a intensidade da resposta e a violência praticada. Só é importante lembrar que, em muitas ocasiões, o bullying ainda é um assunto velado. A vítima, mesmo quando estimulada a falar, pode preferir o silêncio por receio de se expor ainda mais e piorar a situação.

Saúde mental em xeque

A gravidade da ação do garoto (que obviamente demanda uma avaliação e acompanhamento especializados) coloca em pauta também a questão da saúde mental dos adolescentes, que já vinha complicada antes da pandemia e que pode ter sido escalada a níveis ainda mais preocupantes com a mudança da rotina e a distância social.

Jovens mais deprimidos, irritados e ansiosos podem se tornar mais impulsivos e tomar atitudes impensadas e desproporcionais. Quadros mais graves também podem levar a surtos psicóticos que, eventualmente, levam a uma explosão de agressividade. Não é a regra, mas pode acontecer.

Ainda na última terça-feira, uma jovem tirou uma arma da sua bolsa e apontou para a cabeça de uma aluna na saída de uma escola no Distrito Federal. E essa foi apenas uma de três ocorrências registradas em escolas do DF apenas nessa semana.

Tudo isso reforça a importância nesse retorno de dar espaço à escuta e ao diálogo, de reforçar limites e respeito aos colegas e educadores e de se executar um trabalho sistemático e preventivo de apoio ao jovem, com foco no seu bem-estar e na saúde mental.