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Cristiane Segatto

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que anestesistas querem cuidar de doentes de covid no centro cirúrgico

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Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

31/03/2021 04h01

Nem tudo é imobilidade e conformismo diante da devastação provocada pela covid-19. Em um cenário de desgoverno, falta de leitos de terapia intensiva e desabastecimento de produtos estratégicos para o enfrentamento da pandemia, o que seria dos brasileiros sem profissionais de saúde que, de um jeito ou de outro, tentam fazer alguma coisa para mitigar o caos?

Alguns desses profissionais decidiram levar ao Ministério da Saúde uma proposta de criação de unidades de cuidados intermediários, dentro dos centros cirúrgicos, para receber pacientes graves de covid-19 que não encontram vagas de UTI.

A ideia é criar até dois leitos por sala cirúrgica para acomodar esses doentes. Carrinhos de anestesia seriam usados no lugar dos ventiladores mecânicos das unidades de terapia intensiva. Os doentes estariam sob cuidados de médicos anestesistas - e não dos intensivistas, sobrecarregados e disputados em todo o Brasil.

Outros profissionais (time de enfermagem do próprio centro cirúrgico, fisioterapeutas e equipe de nutrição hospitalar) fariam parte da equipe. Os anestesistas estariam à beira do leito, mas os casos seriam supervisionados por infectologistas, clínicos gerais e, também, por intensivistas.

Enir donizetti - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Enir Donizetti Silva, presidente do Conselho da Fundação para Segurança do Paciente
Imagem: Arquivo pessoal

A proposta foi apresentada na semana passada pelo anestesista Enis Donizetti Silva, presidente do Conselho da Fundação para Segurança do Paciente e ex-presidente da Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo, em reuniões com os três escalões do Ministério da Saúde. Em entrevista à coluna, Silva explica detalhes do plano:

No ano passado, discutimos aqui na coluna sua proposta de treinar os anestesistas para cuidar de pacientes graves de covid-19. Essa ideia vingou?

Sim. No começo da pandemia, organizamos um curso para os anestesistas atuarem na pandemia. Naquela época, havia falta de ventiladores de UTI. Os aparelhos eram comprados e sequestrados pelos países. Mais de 2,6 mil pessoas assistiram ao curso inteiro. Centenas de anestesistas no país foram trabalhar na terapia intensiva porque não havia mais movimento no centro cirúrgico.

E na falta de vagas de UTI?

Nessa situação, os pacientes ficariam acoplados a um ventilador de anestesia (aparelho usado habitualmente em cirurgias) no centro cirúrgico, sob cuidados dos anestesistas. Fizemos algumas adaptações e vimos que isso funcionaria perfeitamente. No entanto, houve resistência de algumas sociedades.

Por quê?

As pessoas desconhecem que os anestésicos halogenados (usados em cerca das 70% das cirurgias no Brasil e disponíveis nos estoques dos hospitais) podem ser utilizados na sedação dos pacientes de covid-19. Esse uso é muito mais comum na Europa. É algo relativamente recente. A grande maioria não está atualizada em relação ao tema.

O que são os anestésicos halogenados?

São drogas encontradas sob forma líquida que, quando colocadas em um sistema de anestesia ou de administração de gases, elas adquirem a forma gasosa. O anestésico entra pelos pulmões e chega ao sistema nervoso central. A mesma droga tem três funções. É hipnótica, analgésica e age como bloqueador neuromuscular. Oferece uma potência equivalente a cerca de 40% do bloqueio neuromuscular, mas isso já é suficiente para manter o paciente bem acoplado ao ventilador. É uma forma de mitigar a excassez de bloqueadores neuromusculares para intubação dos pacientes.

Qual é o risco de usar os anestésicos halogenados para esse fim?

Em baixas concentrações, não há risco. A monitorização é feita de forma laboratorial. Checamos as enzimas do fígado, do rim etc. Não vamos usar uma dose anestésica. Vamos usar uma dose sedativa. Conseguimos modular isso no aparelho porque ele tem um sistema chamado analisador de gases. Ele mede a quantidade de gases que envio para o paciente e a quantidade de gases que o paciente exala. Dessa forma, é possível saber qual é o efeito aquela concentração. Além disso, esses anestésicos halogenados são bem mais baratos que as drogas em falta nos hospitais.

O que vocês estão se propondo a fazer neste momento?

Se a proposta for aprovada pelo Ministério da Saúde, os anestesistas vão trabalhar no ambiente deles. É diferente de deslocá-los para a UTI. Na terapia intensiva, os anestesistas não conhecem a rotina, esbarram nas coisas, nem sabem onde é o armário deles. No centro cirúrgico, eles têm tudo organizado. Sabem onde está a gaveta e os medicamentos. O pessoal da enfermagem também. O centro cirúrgico é o nosso habitat. Ali temos condições de trabalhar muito melhor.

Qual é a ideia exatamente?

A proposta é criar uma unidade de cuidado dentro do centro cirúrgico, colocando dois ou três pacientes por sala. Para isso, podemos utilizar os aparelhos de anestesia, sistemas de ventilação não invasivos. Existe um sistema de exaustão de gases e de renovação do ar nos centros cirúrgicos que permite a realização de cirurgias limpas nas salas 1 e 2 e o cuidado de pacientes de covid nas salas 3 e 4, por exemplo. Não há risco de contaminação do ar.

Há mão de obra suficiente no centro cirúrgico para cuidar desses pacientes?

A estrutura de pessoal (médicos, técnicos e enfermeiros) que já existe nos centros cirúrgicos está ociosa neste momento porque as cirurgias eletivas voltaram a ser suspensas. Por falta de medicamentos, é possível que elas sejam suspensas também nos hospitais onde ainda não foram.

E os outros profissionais que são essenciais na UTI? Eles teriam que ir até o centro cirúrgico para cuidar desses pacientes de covid?

Em muitos lugares, é questão de se deslocar um andar. O pessoal da nutrição não fica na UTI. Eles visitam a UTI porque cuidam dos pacientes ali e em outros lugares. Os fisioterapeutas ficam na UTI, mas alguns rodam pelo hospital. Basicamente são esses dois profissionais que precisariam se deslocar até o centro cirúrgico porque o restante já trabalha no centro cirúrgico (técnico de enfermagem, enfermeiro, médico).

O que falta para a adoção dessa proposta?

Deixamos no Ministério da Saúde um plano de ocupação das salas de cirurgias para esse fim. Estamos terminando de redigir um documento que demonstra a viabilidade e a segurança de deixar um aparelho de anestesia funcionando, de forma ininterrupta, durante 10 ou 12 dias. Em geral, esse é o tempo de intubação ou ventilação mecânica desses pacientes. Vamos entregar esse documento ao governo federal e ao Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) até o final da semana.

Qual seria o impacto da adoção desse plano?

Cerca de 60 ou 70% dos hospitais brasileiros prestam serviço ao SUS, de forma parcial ou total. Muitos desses locais são centros que fazem cirurgias de médio e grande porte. Eles têm vários recursos (bomba de infusão, monitor cardíaco, oximetria etc). Não é preciso comprar monitor. O investimento necessário para adotar essa proposta é apenas mobilizar essa estrutura. Se a gente usar 15% dessa capacidade instalada nos hospitais do Brasil, poderemos atender mais de 10 mil pacientes de covid-19 que hoje morreriam por falta de vaga em UTI. Seria uma grande vantagem estratégica.

Existe alguma outra vantagem?

Sim, há um ponto importantíssimo. Os aparelhos de anestesia reaproveitam os gases que o paciente exala. Como funciona na UTI? Aquilo que vai ventilar o doente (o que chamamos de inspiração) vai para o doente. Quando volta a expiração, tudo é jogado fora, no meio ambiente, depois de filtrado. Quando o doente inspira, eu preciso fazer todo o processo de novo. Rodar a máquina e mandar o volume dele. Rodar a máquina tem um determinado consumo de oxigênio e ar comprimido. Oxigenar e ventilar o paciente tem outro consumo de oxigênio e ar comprimido. Como funciona no aparelho de anestesia? O ramo expiratório dele retorna para dentro do aparelho. Aquilo é constantemente renovado. Diante da falta de oxigênio no mercado, os aparelhos de anestesia podem ajudar a salvar muitos pacientes de covid-19.

Para um doente grave de covid-19, o cuidado recebido por um anestesista no centro cirúrgico ou por um intensivista na UTI seria equivalente?

Os anestesistas capacitados para participar de procedimentos de alta complexidade (cirurgia cardíaca, neurocirurgia, cirurgia oncológica extensa, transplante de fígado, de coração, de pulmão etc) são responsáveis por lidar com uma série de situações (distúrbios de coagulação, sangramento, manipulação de drogas hemodinâmicas etc) que são exatamente o que o intensivista faz. Ele é o mesmo profissional, sem dúvida, mas há coisas que os intensivistas fazem melhor. Nós, anestesistas, não entendemos de nutrição e de antibióticos como eles. Para isso, teremos o apoio dos infectologistas e dos grupos de nutrição que dão suporte tanto para a UTI quanto fora dela.

E os equipamentos? Há recursos na UTI que os anestesistas não terão no centro cirúrgico, certo?

Vamos pensar em hemodiálise, por exemplo. O método dialítico de substituição renal é móvel. Não é fixo no leito. Quando é preciso dialisar um paciente na UTI, o departamento de nefrologia envia o equipamento, o material e o time de lá. Eles instalam e fazem o acompanhamento do doente. Terminou a diálise, desmontam tudo, pegam o equipamento e voltam para a unidade de diálise. Há também a chamada circulação extracorpórea (ECMO) que pode ser usada nesses pacientes. Fazemos isso no centro cirúrgico, em cirurgia cardíaca, há muito mais tempo que o pessoal da UTI. É exatamente a mesma fisiopatologia, os mesmos equipamentos e materiais. Há muitas similaridades entre o que fazemos no centro cirúrgico e o que é feito na UTI. Às vezes tem um nome e uma roupa diferentes, mas é a mesma coisa.

Quem pode resistir à proposta e dizer que isso não funciona?

Os próprios anestesistas. Muitos podem pensar que cuidar de doente de covid-19 é responsabilidade da UTI. É preciso mobilizar essas pessoas. Fazer com que elas percebam que, se são capazes de fazer transplante de fígado, de pulmão, de coração, elas já estão cuidando de doente grave. Vamos precisar convencer esse grupo. Mostrar que ele é capaz e tem todas as ferramentas para essa missão. É um trabalho de resgate da autoestima. É preciso dizer: "Meu amigo, você já faz terapia intensiva no centro cirúrgico. As pessoas apenas não tinham dado esse nome". Diante do descontrole da pandemia e da situação dantesca que estamos vivendo, penso que essa demanda virá da própria sociedade brasileira.

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