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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

E se falta o dinheiro para envelhecer bem? Memórias afetadas pela pobreza

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

07/03/2022 04h00

Dona Teresa, 77 anos, acorda bem cedo e, antes mesmo de preparar o seu próprio café da manhã, realiza a sua meditação associada com exercícios corporais que garantem a excelente flexibilidade que até hoje a permite fazer movimentos que só suas netas mais novas são capazes de fazer igual.

Toma o café da manhã que inclui sempre frutas, sucos naturais, granola, castanha e damasco. A seguir, com sua bicicleta, vai para a aula de japonês, o quarto idioma que já fala fluentemente. Almoça com amigas naquele restaurante repleto de delícias de um cardápio vegetariano único na cidade onde residem. Volta para casa e consegue fazer uma breve pausa, algo em torno de 30 minutos, na sua rede de descanso.

A casa fica sempre limpa já que as duas faxineiras conhecem bem o gosto da patroa. Mais tarde, aula de natação ou de musculação. À noite, vinho e uma boa pizza com o namorado 15 anos mais novo que ela. Mais à noite, bem, ela só confidencia o que acontece para duas amigas de 75 e 82 anos. Todos da família se orgulham em dizer que a mais velha da família nem parece ser uma senhora quase octogenária.

Para Aparecida, 67 anos, o dia começa no momento em que ela acorda às 4 horas da manhã para arrumar a roupa e as marmitas do esposo e filho que saem às 5 horas para o trabalho. Não consegue dormir cedo, pois fica aflita e preocupada com qualquer atraso da filha que volta bem à noite do curso técnico. Aparecida saiu do seu trabalho de faxineira para cuidar dos seus dois netos e assim possibilitar o retorno da filha aos estudos.

Depois que esposo e filho saem, já é hora de receber os netos na sua casa com o pão fresquinho que comprou, na padaria que fica em um dos extremos da ladeira da rua onde ela mora, após aquela viela bem estreita e esburacada.

O suco, daquele em pó, é o que consomem quando dá vontade ou quando não há leite integral. O almoço costuma ser o que já preparou para o filho e marido antes do café e, com isso, dá tempo de ela mesma levar os netos para creche e a escola de ensino fundamental.

À tarde, quando não há costura para fazer para alguma cliente, tenta dormir mais um pouco. Mais para o final da tarde e começo da noite, é hora de buscar os netos e pensar no que preparar para o jantar. O café da tarde é sempre pão com margarina ou mortadela. Se o sono permitir, à noite acompanha as novelas e o jornal da TV aberta.

Tudo isso poderiam ser relatos normais sobre a vida de duas pessoas idosas. No entanto, essas condições de vida, profundamente marcadas pelas condições socioeconômicas desiguais, podem também definir possibilidades maiores ou menores para problemas de memória no futuro, principalmente quando as pessoas idosas alcançam idades mais avançadas.

Recentemente, um estudo holandês investigou pessoas idosas centenárias que possuíam muito bem preservadas as suas funções cognitivas cujo desempenho se assemelhava ao de pessoas mais jovens. Com esse estudo e com os achados de outros já publicados, conclui-se que há diversas formas para a preservação da memória ou retardo da chegada de uma doença demencial para boa parte da população mundial.

E essas conclusões envolvem o estilo de vida que essa pessoa escolhe ou que é permitido que tenha. E, muitas vezes, é mais determinante para o adoecimento se comparado aos fatores genéticos. Os "supercérebros" das pessoas centenárias desse estudo têm uma resiliência cognitiva que supera a fisiopatologia de algumas manifestações clínicas que culminam com o declínio cognitivo.

Atividade física, ou melhor, exercício físico realizado para potencializar as capacidades do corpo humano, estudo de idiomas para melhorar as sinapses e ativando diversas áreas cerebrais, alimentos saudáveis ricos em nutrientes e pobres em agrotóxicos fornecendo energia, práticas para o controle emocional e manejo adequado do estresse e doenças controladas com perspectivas para a "desprescrição" de medicamentos são algumas das recomendações dos estudos para a preservação de uma boa memória.

Mas é importante que essas boas práticas ocorram ao longo da nossa trajetória de vida, desde quando ainda éramos gerados nos ventres de nossas mães até a velhice, preferencialmente.

Porém, como garantir um estilo de vida para se envelhecer bem e ativamente em um país empobrecido e desigual como o Brasil? O nosso momento econômico é crítico, alarmante, assustador e aumenta o abismo que divide as pessoas entre ricas e não ricas.

Há um grupo de pessoas velhas que possuem um bom estilo de vida e desfrutam a velhice da melhor forma possível. Ainda viajam, iniciam novos projetos pessoais, trabalham, vivem a sua sexualidade com a qualidade que desejam, brincam com seus netos e não deixam de ter ações e meios para alcançar o seu propósito de vida.

Na contramão da dignidade humana, do bom envelhecimento e da alta expectativa de vida, há outro grupo que sobrevive, que adquire uma doença a cada retorno para uma consulta médica, que está frustrado com a ausência da comida que tanto gosta na sua geladeira, que sofre com o adoecimento decorrente dos vícios do marido e da filha nas drogas vendidas na rua onde moram, que já perdeu netos para a violência urbana e que se contenta com o lazer de ficar sentada em frente à TV, assistindo sempre os mesmos programas e sonhando com aquela viagem dos sonhos que agora já é para qualquer lugar que caiba no orçamento familiar.

É urgente que passemos a pensar nas iniquidades presentes no envelhecimento da população brasileira e que se agravaram durante a pandemia. Houve o aumento da vulnerabilidade de pessoas idosas em situação de rua, LGTBQIA+, privadas de liberdade, quilombolas, indígenas e negras. Muitas dessas pessoas não alcançarão os 60 anos de idade!

No Brasil, a pobreza de pessoas idosas costuma ter pele mais escura, baixa escolaridade (porque não foram ofertadas possibilidades ao longo de uma vida), residir em locais ora com a presença da violência urbana ora a precariedade de serviços essenciais e que exerce funções ocupacionais de baixa remuneração sem a digna segurança previdenciária, quando necessária.

Será este mesmo grupo de pessoas idosas não ricas que não deixará a expectativa de vida ser ainda maior no próximo censo, pois seus riscos de morrer serão maiores quando comparados a outros grupos socioeconomicamente mais favoráveis. Esses últimos grupos terão a chance de serem mais nonagenários e centenários, com doenças controladas e memórias preservadas.

E para quem já pensou em dizer ou refletiu que "basta querer" escolher a melhor forma de envelhecer, que quem hoje não envelheceu bem financeiramente foi porque não soube aproveitar as oportunidades que a vida deu, lamento dizer que a vida não é justa nas oportunidades que oferece!

E as políticas públicas, em geral, parecem mudar de forma mais marcante a vida de alguns segmentos de pessoas idosas no Brasil, principalmente aquelas mais endinheiradas ou que, com muito trabalho, estudo e estabilidades econômica e política, puderam ter a aposentadoria, pensão, um emprego cuja idade não importa e até um investimento. Quero aqui destacar mais a falta de oportunidades para todos os grupos sociais de pessoas idosas.

Assim, vivemos uma situação paradoxal no país: uma luta pela dignidade para envelhecer e, do outro lado, os prazeres e alegrias de grupos que envelhecem muitíssimo bem.

Mas, e quem não conseguiu enriquecer? Quem não foi ensinado a pensar dessa forma, que fez quase que um voto de pobreza, muitas vezes, alicerçados em alguns dogmas religiosos?

A falta do dinheiro deve constranger um avô que não troca as peças do seu vestuário há anos e só recebe doações. Também deve constranger aquela senhora que não consegue preparar o prato predileto para toda a sua família. E o que dirá das boas condições para o autocuidado?

Saúde mental parece castigar mais quem é pobre e velho no nosso país! Já temos uma dificuldade institucional em lembrar as contribuições e as homenagens às pessoas pobres que construíram parte do nosso país. Nosso país ainda tem um sério problema de memória que já se transmite para parte da sua sociedade!