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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Envelhecimento e convívio intergeracional: uma solução está na filosofia

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

26/07/2021 04h00

"...a vida é uma corrente eterna que flui através dos homens em gerações sucessivas" (Nsang O'Khan Kabwasa, 1982)

Ali na esquina, a bisavó veio ficar na mesma casa do bisneto que acabou de entrar na faculdade. No apartamento de cima, o genro perdeu o emprego e vai ter que trabalhar na mesma sala onde a sogra e a mãe dela passarão horas vendo TV.

Serão vistos programas televisivos que ele não gosta, mas que delas arrancarão gostosas risadas. A pandemia trouxe a aproximação de diversas gerações que viviam afastadas.

Umas ficavam mais no trabalho, outras nas escolas, outras dentro de casa e outras nas ruas do bairro onde residem. Todas e todos estavam bem, considerando suas perspectivas de vida. Mas, de repente, o conselho, a forte recomendação foi para ficar em casa, evitar de sair.

Os cinemas, parques, clubes esportivos e outros espaços para lazer também estariam fechados. A solução não foi outra: conviver, estar mais próximo do avô, da avó, do pai, da mãe, da sogra, do sogro, da tia ou do tio.

O fato é que a presença do vírus no nosso país acelerou a necessidade de discutirmos a qualidade das relações intergeracionais. E deu para concluir que não vai bem, já que a violência contra a pessoa idosa aumentou de forma muito acentuada.

Há dados apontando que os casos quintuplicaram com a redução da mobilidade externa das pessoas. A violência está dentro de casa, agora mais do que antes. E quem maltrata costuma ser do gênero masculino, ser parente, ou ser a pessoa que manipula melhor os dispositivos para fazer as denúncias, ou seja, esses dados sobre a violência podem ser ainda maiores.

Mas o convívio intergeracional já não ia bem no mercado de trabalho, nas oportunidades de aprendizagem, nos relacionamentos conjugais, no lazer e nas possibilidades de bem viver.

O mundo busca se balizar pelos jovens, aqueles considerados com potencial de produtividade, competitividade e consumo, muito consumo. A moda e o apelo comercial com suas estratégias captam nichos de mercado e tudo parece ser direcionado a esse grupo social não idoso, talvez incluindo os considerados cinquentões e cinquentonas. Velhos e velhas ficam fora dessa lógica do mercado que alicerça o nosso modo de vida.

Pensar que o tempo está passando e que ainda não foi possível ter acumulado dinheiro e bens materiais para a velhice acaba virando uma fonte de ansiedade, de angústia e, infelizmente, de frustrações para muitas pessoas.

E, cada vez mais precocemente, acabamos por nos tornar uma sociedade medicalizada para termos condições de competitividade. Quem chegar primeiro, ganha. Às pessoas idosas que não estão na cena, resta a humilhação ou a invisibilização.

Ignoramos que estamos lidando com as pessoas "mestres em tempo", conhecedoras do tempo real, que acumularam momentos passados e, por isso, estão preparadas para viver o presente e para estar no futuro.

Talvez idosos e idosas de hoje transgrediram a métrica do tempo em minutos, dias e meses e consideraram o tempo das coisas, da natureza, diferente das novas gerações que aceleram os áudios recebidos e cronometram o tempo de leitura de um texto, por mais enriquecedor e afetivo que possa ser. Relógio já foi adorno e hoje é acessório essencial.

Mas tudo isso que nos envolve e ajuda a construir o envelhecimento em dias atuais poderia ser diferente, diria até mais prazeroso, se nós permitíssemos a incorporação de saberes de outros povos, daqueles que chegaram há séculos no nosso país.

Considere que adultos e jovens só possuem as atuais condições tecnológicas porque alguém começou a fazer os primeiros esboços e rabiscos lá atrás.

Não paramos para pensar que uma mulher imaginou um sistema que fosse capaz de facilitar a nossa localização no planeta, ou que algum preparo de ervas ajudaria na preservação, por séculos, dos nossos corpos, ou que do amendoim daria para fazer muitas coisas, e que de uma guitarra pudesse sair diversos estilos musicais. Nossas trajetórias vêm de longe e a gente nem sempre repara.

Para muitos povos africanos, o tempo presente só faz sentido se olharmos para trás. O tempo futuro não tem a mesma importância que o presente e o passado. O passado é base do presente e tudo que se tem ou se é hoje, é porque o passado existiu e, a partir dele, a evolução começou e continua no presente. Eu sou porque meus antepassados foram. E minhas filhas, filhos, sobrinhos e sobrinhas serão porque eu sou.

Família completa posa para foto - iStock - iStock
Imagem: iStock

Não existe condição ou sucesso conquistado por esforço próprio apenas, é por uma construção e plano de gerações. Se hoje você tem um bom emprego, uma família que te traz alegria, uma formação que te agrada é porque seus antepassados construíram possibilidades para isso.

E não envolva nessa sua ancestralidade apenas seus pais biológicos. Inclua tios, tias, vizinhos, vizinhas, professores, alguém mais velho ou mais velha que você e que te deu força, condição, amparo, ensinamento, valores ou afeto para que você pudesse ser o que é hoje. E você precisa ser melhor que essas pessoas, mas não para esnobar, e sim para honrar quem veio antes de você e deixar um exemplo para quem virá depois de você. E veja que não falo de herança material.

Em muitas línguas da parte oriental do continente africano, o passado pode ser compreendido como um passado imediato, um passado de hoje, um passado recente, um passado remoto e um passado inespecífico.

O foco é pensar que o presente é sempre um momento construído e experimentado a partir do que já existiu e de que pensar no futuro muito distante é muito abstrato, muitas vezes sem base e com possibilidades de muito sofrimento e angústias desnecessárias.

Dessa forma, o temor quanto ao fim do mundo ou fim das possibilidades não existe, porque o futuro distante não é tão valorizado. E hoje presenciamos jovens e adultos pensando excessivamente no futuro, na sua idade avançada, sem aprender com que chegou lá e mostra os caminhos do envelhecimento ocorrido com sucesso.

O convívio intergeracional poderia ser compreendido como um momento especial do encontro de pessoas, em um certo tempo e local para que algo possa ser construído a partir daí, e não uma mera causalidade, um acaso.

Certos povos africanos acreditam nessa sincronicidade que, pensando no convívio intergeracional, aponto como a coincidência de acontecimentos, ou seja, desse encontro na casa e em plena pandemia de jovens, adultos e de pessoas idosas.

Algo grandioso ou generoso poderia ser criado ou revivido nesse tempo da vida dessas pessoas. No Zaire, acredita-se que velhos e velhas ajudam na tradução e mediação do conhecimento do mundo visível e invisível, da ligação da nossa ancestralidade invisível com as gerações "visíveis" de hoje.

Nessa perspectiva africana, nossa vida é um ciclo no qual começamos criança, viramos adulto, depois velho e depois antepassado. Mas nunca deixamos de existir.

Ainda que mortos fisicamente, vivemos a condição de morto-vivente, enquanto ainda somos lembrados por alguém, em algum lugar no mundo. Esse é o estado de imortalidade pessoal. E isso pode durar quatro ou cinco gerações, fato cada vez mais possível nos nossos dias atuais.

Quando deixamos de ser lembrados, aí é que passamos para o estado de imortalidade coletiva. Aproveitando as tecnologias e redes sociais, poderíamos aumentar o tempo de imortalidade pessoal de nossas e nossos mais velhos ao receber as lembranças de fotos e vídeos publicados em algum ano anterior a esse.

Com a pandemia e a proibição de muitos rituais de lutos, milhares de pessoas postaram suas homenagens a idosos e idosas que morreram e, sem saber, ampliaram o tempo de existência deles entre nós.

A filosofia africana também nos ensina que a felicidade de alguém do nosso grupo também é uma felicidade de todas e todos. E isso é motivo de comemoração, de estar junto, que seja por pensamento. E essa alegria poderia ser mútua: a casa adquirida pelo filho ou neta, como também a transmissão bem sucedida de uma videochamada realizada por uma idosa usando um aplicativo ou o pagamento da conta de luz efetuado pelo celular. Mas, na maioria das vezes, os mais jovens decidem fazer para não perder o tempo da sua vida ensinando quem, para eles, não nasceu na geração da internet.

Pensando com valores da filosofia africana, o ancião ou a anciã tornam-se uma pessoa de tamanha importância para todas as gerações que convivem e envelhecem juntas. A incorporação da visão gerontológica de certos povos africanos ajudaria na redução da discriminação contra idosas e idosos.

Reverenciar os mais velhos e mais velhas pode nos dar força, foco e conhecimento para onde queremos ir ou para onde não devemos prosseguir. E podemos fazer isso quando lembramos de palavras que comumente pronunciavam ou objetos que manuseavam no cotidiano. São mentoras e mentores por essência e por excelência.

Pessoas não velhas poderiam aprender com as idosas e idosos sobre como envelhecer contemplando conquistas, vitórias, ressignificando relações sociais e afetivas, desculpando-se e aprendendo com os erros cometidos.

O futuro não deve ser mais importante que o presente e o passado. Precisamos da inclusão imediata da diversidade cultural para um envelhecimento ativo, digno e plural. A experiência da gerontocracia de povos africanos pode muito nos ensinar para a mitigação da idadismo e do melhor convívio intergeracional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL