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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aprender sempre, não importa a idade! Isso, sim, é capaz de mudar vidas

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Imagem: iStock
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

24/05/2021 04h00

"A língua distendida magoa mais que o pé que tropeça" (Provérbio africano)

Há um trecho do livro "Quarto de Despejo", da escritora e pensadora Carolina de Jesus, que diz que um bom governante para o Brasil deveria ter tido a experiência de passar fome para melhor entender o seu povo e as suas necessidades.

Atualizando para o ano de 2021: alguns apresentadores e apresentadoras de televisão também deveriam ter tido essa experiência e, se o tiveram, que relembrem para respeitar outros saberes e práticas gastronômicas presentes no mundo.

Ana Maria Braga, uma mulher idosa de 72 anos, juntamente com o jornalista Tiago de Oliveira protagonizaram uma cena difícil de engolir, literalmente. Estavam fazendo um quadro do programa "Mais Você", no qual provavam pratos africanos e não pouparam falas preconceituosas e desrespeitosas tanto aos povos dos 54 países independentes do continente africano, quanto para os brasileiros e brasileiras descendentes de homens e mulheres africanas e, principalmente, ao chef que elaborou a mesa com pratos saborosíssimos na perspectiva de milhares, ou melhor, de milhões de pessoas.

Em uma conversa animada e cheia de risos, Ana Maria e Tiago disseram que a comida é feia e disseram que, caso passassem mal, um deles teria que tocar o programa daquele dia em frente.

Muitos povos foram ofendidos e diversos chefs que moram no Brasil mostraram nas redes sociais suas indignações. E esse fato ocorrido na TV só reforçou os olhares enviesados sobre valores já tão mal interpretados e escritos sobre os povos africanos que, no Brasil, foram os primeiros pais e avós de todas as pessoas pretas e pardas e que, atualmente, constituem mais da metade população brasileira, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Prato de fufu - iStock - iStock
Prato de fufu
Imagem: iStock

Ana Maria e Tiago conduziram muito mal o programa ao falar de um prato de tradição milenar, o fufu, um prato que sempre alimentou milhões de pessoas, e que também usa ingredientes da nossa culinária brasileira.

A apresentadora já havia se envolvido em outra situação que também abordava a cultura e a discriminação contra descendentes de povos africanos. Disse ela sobre um dos episódios do BBB 21: "Não entendi esse negócio de branquitude. A gente tem culpa disso? Está acontecendo aí um (racismo) reverso".

E continuou: "Tem coisa melhor que a mistura, que dá o mulato, que dá o jambo maravilhoso, que é a maioria do brasileiro." Um pedido de desculpas foi dado por ela após as repercussões negativas deste comentário.

Aproveito para informar o leitor e a leitora de que não existe racismo reverso e de que o uso do termo "mulato ou mulata" está carregado de preconceitos e conotações negativas.

A situação de desconhecimento da história da culinária africana é mais uma forma de apagamento da cultura de diversos povos que muito contribuíram e ainda contribuem para a história brasileira, que é muito indígena, muito africana e europeia.

Abordar um envelhecimento heterogêneo, ainda que também desigual, é uma forma também de dar visibilidade para que situações como essa não passem desapercebidas e que pessoas idosas ainda tenham possibilidades de saber um pouco mais da cultura dos povos que estão em terras brasileiras há séculos.

Diante de erros e desconhecimento de boa parte da história dos povos que formaram a nossa sociedade, da necessidade e vontade de pessoas idosas de ainda manterem suas atividades ocupacionais, dos benefícios para a memória e também para a manutenção ou aumento das relações sociais, o que tem sido proposto por especialistas em envelhecimento do mundo todo é a necessidade da aprendizagem ao longo da vida.

E aprender algo novo pensando nas pessoas velhas é um desafio para nossa sociedade que ainda insiste nas antigas e novas formas de discriminação e preconceito contra idosos e idosas.

Observamos diversos programas públicos, de ONGs e também de instituições privadas, buscando a criação de espaços e profissionais nessa área.

E o que vai bem?

E o que vai mal?

Vai bem, ou melhor, vão bem as iniciativas localizadas nas áreas onde o percentual de pessoas idosas com baixa ou nenhuma escolaridade é altíssima, quando alcança mais as mulheres, quando inclui o uso da internet, quando permite novas possibilidades de relações sociais, aumento da empregabilidade e retomada de uma vida que antes era sem propósito e marcada pela falta de oportunidade ou pelo selo da aposentadoria.

O que vai mal? O não respeito às práticas e saberes dos povos indígenas e africanos, o não alcance de regiões paupérrimas do nosso país e excluídas das políticas e programas de promoção ao envelhecimento ativo, a dificuldade da participação dos homens, a nossa cultura em não estimular a educação para todas e todos e problemas de saúde que dificultam que pessoas idosas possam frequentar espaços onde a aprendizagem ocorre.

Retomando a cena do prato servido no programa "Mais Você", outro aprendizado que podemos tirar é o risco de banalizar um pedido de desculpa.

Falhas institucionais demandam ações de reparação e de equidade maiores que uma palavra. A jornalista, bióloga, atriz e apresentadora poderia se comprometer em um movimento de reparação, criando espaços para o conhecimento do que se come pela manhã, no meio do dia e à noite em todos os países do continente africano. Assim, seriam seis meses de programas, aproximadamente, para falar sobre esse assunto.

Aí sim podemos aceitar seu pedido de desculpas e até um possível posicionamento antirracista, que é tão falado, mas pouco praticado por grande parte da população não só brasileira.

Mas veja que ainda trato da aprendizagem ao longo da vida, uma aprendizagem que tem propósito e que seria capaz de mudar a vida de tantas pessoas, seja pela abertura ao conhecimento a outras culturas, como também oportunidades para tantas e tantos chefs residentes no Brasil e que são especialistas desta culinária.

As trocas que as pessoas idosas permitem são infinitas, desde que sejam protagonistas desse processo de aprendizagem ao longo da vida e de que as metodologias utilizadas sejam adequadas.

Não podemos esquecer de que somos vários povos em uma única sociedade brasileira. O tema aprendizagem ainda merecerá outros textos por aqui, tamanha sua importância e necessidade de discussão com os atores sociais envolvidos. Nunca será tarde para aprender e para ensinar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL