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Para apoiar mulheres, ela aplica nos negócios o que aprende na maternidade

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Aline Takashima

Colaboração para Universa

24/02/2021 04h00

A empresária e advogada Lícia Souza, 40, sonhava em ser mãe. Mas todos os anos adiava os planos da maternidade com medo de não conseguir conciliar o cargo de executiva e os cuidados com o bebê. Na época, ocupava uma função de chefia em uma indústria têxtil no Rio de Janeiro.

Workaholic assumida, trabalhava horas a mais que os colegas homens para ser reconhecida na empresa. O esforço não foi em vão. A ascensão na carreira era constante. Até decidir engravidar de Júlia aos 38 anos, época em que mudou o rumo profissional. "A maternidade e o mundo corporativo não conversam muito bem. A mulher se transforma quando engravida. Eu me transformei e comecei a empreender."

Diante da sua experiência com a maternidade e sendo mãe de uma menina, Lícia sabia que deveria trabalhar com mulheres. Ela criou, então, a We Impact, uma empresa de investimento e desenvolvimento de startups de tecnologia lideradas por mulheres. É a primeira organização do tipo no Brasil.

A empresa investe entre R$ 50 mil e R$ 500 mil em startups em estágio inicial de desenvolvimento, que tenham mulheres como sócias e na direção. "Quero que essas empreendedoras se inspirem em outras mulheres e que se enxerguem em cargos de liderança", defende.

Existem, sim, mulheres empreendendo na tecnologia

Para a surpresa de Lícia, a We Impact recebeu mais de mil inscrições na sua primeira chamada, em março de 2020. O que mostra que existem, sim, mulheres empreendendo em startups de tecnologia. A maioria das empresas inscritas é da área da educação, beleza, moda e saúde. "Essas empreendedoras estão fazendo uma transformação digital", resume.

Mas ainda há um longo caminho pela frente. Algumas startups não têm uma mulher sequer no time. É o caso de 27% das companhias no Brasil. E somente 15% das startups são lideradas por mulheres. Os dados são da Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Elas também são minoria nas startups unicórnios, aquelas com avaliação de mercado superior a US$ 1 bilhão. Apenas 7% dessas empresas foram fundadas por mulheres, revela o estudo Corrida dos Unicórnios 2020.

Lícia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A empresária Lícia Souza e sua filha, Júlia
Imagem: Arquivo pessoal

Lícia lamenta a baixa representatividade de mulheres no mundo da tecnologia e das startups. "O quanto a gente perde em inovação? Teríamos mais soluções pensadas por diferentes pessoas se as mulheres empreendessem mais", explica. Ela apoia as empreendedoras com um planejamento estratégico e ajuda no desenvolvimento dos produtos tecnológicos.

Até hoje, duas empresas inovadoras foram escolhidas para receber apoio pela empresa dela. Elas irão receber um aporte de R$ 250 mil e R$ 300 mil. A CEO não divulgou as selecionadas, pois os contratos ainda estão sendo analisados pela área jurídica. A meta é investir em 15 startups até o fim de 2021.

Workshop com a ONU contra o machismo

O que não faltam são exemplos de situações machistas no universo corporativo: interrupções enquanto mulheres falam, explicações óbvias de assuntos que elas já dominam e outros atos sutis, quase imperceptíveis. A We Impact joga luz para essas questões. Em parceria com a ONU Mulheres, realiza um workshop com as empreendedoras que participam do processo de seleção.

"Nós estamos no escuro. Quase ninguém fala sobre diferença salarial, por exemplo. É uma diferença de gênero. Não tem a ver com competência e habilidade. Discutimos isso para as pessoas tomarem consciência sobre o problema."

Uma pesquisa da revista de negócios Harvard Business Review nos Estados Unidos revela que as startups lideradas por homens receberam cinco vezes mais financiamento do que as lideradas por mulheres.

Isso porque os investidores tendem a questionar os empreendedores homens e mulheres de forma diferente. As perguntas feitas para os homens são relacionadas aos aspectos positivos como os ganhos, as esperanças, realizações, avanços e ideais da empresa. E para as mulheres são feitas perguntas preventivas sobre segurança, responsabilidade, proteção e vigilância.

"Alguns investidores homens fazem perguntas focadas mais no fracasso do que no crescimento da startup de uma mulher: 'Mas você é casada?', 'Acha que o seu negócio vai dar certo?'. Eles colocam o negócio à prova", explica Lícia.

Maternar é empreender

A empresária optou por sair do mundo corporativo quando engravidou. "Eu ocupava um cargo de liderança altíssimo. Estava muito envolvida na operação dos negócios É muito difícil para uma mulher permanecer no mercado de trabalho depois de ter um filho. As mulheres geralmente empreendem depois que são mães."

Quando a sua filha Júlia nasceu, em 2018, Lícia chegou à conclusão que tinha mais dúvidas do que certezas. "Na maternidade eu vi que não controlo nada", diz. Na época de executiva, ela era munida de números, dados e planejamento na ponta do lápis e da língua. Mas, com uma filha recém-nascida nos braços, se deparou com muitos imprevistos.

"Uma hora a minha filha está dormindo durante a noite e no outro instante não quer mais dormir. O mesmo acontece com quem empreende. Um dia a sua empresa está indo super bem e de repente tudo muda", conta.

Para Lícia, maternar é empreender. "Quando você empreende, descobre que as coisas fogem do controle mais do que o usual. Essa resiliência e adaptabilidade que a maternidade traz têm um grande valor tanto para quem empreende quanto para quem trabalha no mundo corporativo."

O que a empresária aprende na maternidade, aplica nos negócios. "Eu educo a minha filha para que tenha autonomia. Trato com muita consciência as suas atitudes. Não anulo a personalidade e o jeito dela", diz Lícia, uma CEO, empreendedora e mãe, com muito orgulho.

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