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Ela deixou mundo da moda para morar no paraíso e hoje cria boneco de crochê

A empreendedora Paula Bertone - Arquivo pessoal
A empreendedora Paula Bertone Imagem: Arquivo pessoal

Marcelle Souza

Colaboração para Universa

22/02/2021 04h00

A vizinhança de Paula Bertone, 44, é hoje bem diferente da que ela estava acostumada até alguns anos atrás. Logo depois do nascimento da filha Nina, em 2008, ela decidiu trocar os prédios e o engarrafamento de São Paulo pelo mar cristalino e as ruas de pedras de Paraty (RJ). Ao fugir da cidade grande, Paula teve que se reinventar e trocou o mundo da moda por uma loja de produtos infantis.

Formada em design de moda pela Faculdade Santa Marcelina de São Paulo, Paula fez carreira desenvolvendo coleções para várias marcas, como a Fórum. "A minha rotina era uma loucura, cheia de viagens e sem horário fixo. O meu marido tinha uma casa noturna, então a gente vivia essa vida da noite", conta.

A mudança começou quando a primeira filha nasceu. No início, o plano era uma volta rápida da licença-maternidade. Paula colocou Nina em uma escolinha e retomou o trabalho insano. Pouco a pouco, no entanto, a família percebeu que as prioridades tinham mudado e que o ritmo de antes já não se encaixava nas prioridades que tinham naquele novo momento de vida.

Maternidade fez repensar a relação com a cidade

"A gente sempre teve um elo muito forte com a praia, e começamos a repensar nossa relação com São Paulo. Percebemos que tínhamos pouco tempo juntos e queríamos ficar mais em família", afirma. Decidiram que era hora de embarcar em uma nova aventura.

Viajaram para Paraty, visitaram um terreno e na semana seguinte fecharam o negócio, o que acelerou os planos da mudança.

Foram seis meses de transição entre as duas cidades. Paula continuava trabalhando na Fórum enquanto planejava a mudança, a casa em construção em Paraty e começava a refletir sobre uma nova ocupação. "Meu marido tinha decidido que ia voltar a escrever. Eu amo a minha filha, mas nunca quis me dedicar só à maternidade. Então pensei: vou fazer o quê?", lembra.

Foi aí que surgiu a Orangotango, uma loja virtual de produtos infantis. A ideia é resultado de um hobbie de Paula, que decidiu criar toda a decoração e os jogos de quarto quando a filha nasceu. Enquanto ainda estava no mundo da moda, ela também criava modelos exclusivos para amigas que viraram mães. Se fazia tanto sucesso entre elas, pensou, por que não transformar isso em um negócio?

Paula Bertone - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
Produto de Paula Bertone - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Crochê: do cafona à oportunidade de valorizar o artesanal

A Oragotango começou com jogos de quartos, com lençóis, fronhas e mantas, tudo produzido em São Paulo, onde Paula conhecia os fornecedores e a oficina de costura. Os seis primeiros meses de negócio, no entanto, mostraram que esse não era o melhor caminho.

"Eu descobri com a produção a distância que a logística era complicada, não estava funcionando. Além disso, eu era nova no mercado infantil e no mundo digital. Tinha muita concorrência e não tinha preço para isso", diz.

Ao mesmo tempo, a família começou a se desligar das coisas de São Paulo: passou a viajar cada vez menos para a capital paulista e acabou vendendo o apartamento que mantinha na cidade. Foi nesse momento também que Paula passou a prestar mais atenção ao seu redor e redescobriu o crochê.

A relação da designer com a técnica vem de longa data, mas nem sempre foi de amor e admiração. Filha e neta de crocheteiras, acostumou-se às peças de roupa e de decoração em crochê na casa da família. Durante toda a sua carreira no mundo da moda, no entanto, a técnica não era vista com bons olhos.

"Por muito tempo eu neguei a minha relação com o crochê, porque pensava que era cafona, mas comecei a perceber que em Paraty tinha uma mão de obra muito rica do artesanato", diz.

Caiçaras artesãs deram vida aos produtos

Pediu ajuda da mãe e começaram a elaborar algumas peças piloto: transformando modelos que encontravam em revistas e na internet, criando bonecos com muitas cores e que em nada lembravam os panos de prato da vovó.

"Minha mãe era supertalentosa para dar vida para aquilo que eu desenhava, precisava só de uma direção de arte. Assim, acabei juntando o que eu sabia de moda com as minhas memórias de infância", afirma.

A partir daí, a logística mudou um pouco: os barbantes são comprados em Piratininga, no interior de São Paulo, em uma pequena fábrica próxima à sua cidade natal. E a mão de obra passou a ser local, mulheres de comunidades caiçaras. "Como cheguei em Paraty e não conhecia ninguém, minha primeira tentativa de montar uma equipe foi fazer um anúncio, que coloquei na rodoviária, em papelarias e padarias da cidade".

Paula Bertone - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Paula Bertone e os filhos no centro histórico de Paraty (RJ)
Imagem: Arquivo Pessoal

Os bonecos, produzidos com fios de algodão, são inspirados na natureza e no cenário paradisíaco da Ilha do Araújo, onde a família vive. Assim, a loja tem coelhos, macacos, nadadoras, tucanos, tartarugas, sereias e marinheiros. Além dos bonecos, ela vende almofadas, mordedores, pantufas e chocalhos. A ideia é que eles sirvam para brincar e decorar, e que possam carregar o afeto da produção manual. Os preços variam entre R$ 75 e R$ 175.

Um negócio precisa de loja própria?

A marca tem hoje parceria com estabelecimentos que vendem os bonecos em São Paulo, Trancoso, Porto Alegre e no centro histórico de Paraty, mas Paula resiste à ideia de lançar uma loja própria. "Eu sempre pensei a Orangotango como um negócio virtual, porque quero ter tempo, a minha liberdade, estar perto da minha família", diz.

Só que a escolha pelo e-commerce também significou desafio para a designer de moda. Isso porque, no início, ela não entendia sobre as plataformas de venda online e, há dez anos, muitos clientes ainda tinha receio de comprar pela internet.

"A logística de montar a cartela de cores, lidar com fornecedores, pensar na produção, isso eu sempre tirei de letra, porque era a minha expertise no mercado da moda. O meu maior desafio foi o e-commerce, porque eu não sou uma pessoa da internet, mas sei que esse é meu veículo e consigo transitar. Então tive que criar uma comunicação orgânica, sem marketing, que cresceu do boca a boca das pessoas que realmente acompanhavam a marca", diz.

A saída foi aumentar o engajamento dos clientes com a criação de peças novas e comunicação direta, além do aprimoramento da plataforma de vendas para que fosse cada vez mais segura. "Ao longo do tempo, fiz alguns cursos sobre gestão de negócios e comunicação pela internet. Também faço ajustes diários nos perfis e na plataforma, porque o comércio virtual é muito dinâmico e muda muito", afirma a designer, que não divulga o faturamento da loja.

No ano passado, com o início do isolamento social, mais gente em casa percebeu que as vantagens desse tipo de comércio. Assim, a Orangotango cresceu 40% na pandemia e, nesse período, Paula conseguiu tirar da gaveta um sonho antigo: uma coleção com ícones da cultura pop, como David Bowie, Frida Kahlo e Freddie Mercury.

Antes, no entanto, foi preciso vencer a falta de matéria-prima e o desafio de contato com as trabalhadoras. "Para muitas delas, o crochê, que até então era um dinheiro extra, virou a renda da família. Então percebi que não podia parar", diz.

O passo agora é ampliar as vendas e crescer também no mercado adulto. "Eu sempre acreditei no negócio, nunca pensei em desistir. Gosto muito do que eu faço e, com essa rede de mulheres que trabalham comigo, sinto cada vez mais uma ligação com o lugar em que eu vivo", afirma.

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