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Chefes de família demitidas da Ford: "Meu filho pergunta o que será de nós"

"Crio um menino sozinha. Estou desnorteanda e sem perspectiva", diz Jeane Santana Martins - Arquivo pessoal
"Crio um menino sozinha. Estou desnorteanda e sem perspectiva", diz Jeane Santana Martins Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

De Universa

14/01/2021 04h00Atualizada em 15/01/2021 11h06

Jucinete dos Santos Oliveira sustenta a filha desempregada e manda dinheiro para duas irmãs mais velhas. Jeane Santana Martins cria o filho sozinha há dois anos. Além de mães, elas são chefes de família - assim como acontece em quase metade de lares brasileiros -, e eram funcionárias da fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia. Na última segunda-feira, elas foram pegas de surpresa ao descobrir, por mensagem via WhatsApp, que não tinham mais emprego.

As duas fazem parte dos cerca de 5.000 funcionários demitidos após o anúncio do fim das operações da montadora em Camaçari. Fábricas em Taubaté (SP) e em Horizonte (CE) também fecharam. "Mãe, e agora, o que vai ser de nós?", ouviu Jeane, que, junto de Jucinete, relata a seguir o drama de se ver sozinha, desempregada e com família para sustentar.

"Tudo que construí na vida foi com esse emprego"

jeane ford camaçari - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jeane Santana Martins trabalhou na Ford por 19 anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Tínhamos um contrato com a Ford firmado a partir de uma negociação do sindicato dos metalúrgicos garantindo que não haveria demissão em massa até 2024. Tivemos o contrato suspenso durante a pandemia, mas voltamos a trabalhar há três meses e estávamos bem esperançosos, tinha previsão de lançamento de novo produto. Pensamos que as coisas fossem melhorar.

Na segunda-feira foi feriado municipal, não trabalhamos. Fui ao cinema com meu filho de 14 anos. Estava na praça de alimentação do shopping quando um amigo do trabalho me escreveu: 'Jeane, a Ford fechou'. A gente sempre brincava um com o outro e dei risada. Ele disse que era sério, entrei nas redes sociais e vi a notícia em um post de um jornal local.

Comecei a chorar muito e meu filho perguntou o que estava acontecendo. Contei. 'Mãe, e agora, o que vai ser de nós?', ele perguntou. Disse: 'Filho, vamos esperar. Vamos pedir a Deus, que nos guie e dê alguma orientação'. A verdade é que estou totalmente desnorteada, sem saber como dar o próximo passo.

Trabalhava na fábrica havia 19 anos. Fazia parte da área logística, recebia notas fiscais, controle e expedição de embalagens, recebia fornecedores. Tudo o que construí na vida foi por esse emprego. Comprei minha casa própria, fiz minha vida, crio meu filho sozinha há dois anos.

A estimativa do sindicato é que 60 mil pessoas sejam impactadas na região de Camaçari [a população da cidade é de 304 mil pessoas]. Nossa cidade não tem mercado de trabalho para absorver tanta gente demitida.

Já era escasso e vai ficar mais difícil. Se fosse só eu, mais cinco, mas são muitas pessoas. E ainda tem a pandemia. Perder o emprego no meio de tudo isso é desesperador. Tenho zero perspectiva do que fazer daqui para a frente.

Ainda estamos na fase do choque, tentando entender o que aconteceu. Estamos buscando indenização. Acredito que a única saída hoje seria que a fábrica tivesse apoio do governo federal. Mas o presidente já deu uma declaração dizendo que só lamenta.

O fechamento da fábrica vai fazer com que a circulação de dinheiro fique escassa. Da manicure ao vendedor de pipoca na praça, todos vão sentir o impacto. Eu preciso guardar dinheiro para pagar a conta de energia, de água.

Uma alternativa para mim é fazer bolos decorados, que eu já fazia antes. Mas primeiro preciso ver como fica a economia da cidade. Já ouvi que devemos empreender, mas quem vai comprar o que eu ofereço se tanta gente será impactada?

Além disso, tínhamos uma representatividade feminina muito grande na empresa, foram anos de luta para conseguir chegar onde estamos. Tem mulheres na linha de montagem, na pintura, na solda, em todos os setores da fábrica. Há uma representação ativa das mulheres trabalhando de igual para igual com os homens.

A gente sabe que o mercado de trabalho para mulher é difícil, que o espaço é menor. No geral as empresas preferem contratar homens, porque não tiram licença-maternidade. Então as mulheres perdem um campo imenso de trabalho com a saída da Ford de Camaçari." Jeane Santana Martins, 41

"Todo dia acordo e penso: como vou trazer o pão para casa?"

Jucinete- metalúrgica da Ford em Camaçari e chefe de família, desempregada após o fechamento da fábrica - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jucinete dos Santos Oliveira foi uma das metalúrgicas que perderam o emprego
Imagem: Arquivo pessoal

"Comecei a trabalhar na Ford em 2005, na limpeza, por uma empresa terceirizada. Foi uma alegria. Poderia sustentar minha família, ter estabilidade. Na época minha filha tinha 10 anos, eu a crio sozinha e hoje ela está desempregada. Não tenho nem notícias do pai. Também mando dinheiro para minhas duas irmãs mais velhas que vivem no interior da Bahia, uma tem 53 anos e a outra, 47.

Há quatro anos, fui contratada diretamente pela empresa para trabalhar na montagem dos carros. Ficava na linha de produção executando operações. Colocava peças do Ka e do EcoSport, apertava parafuso quando precisava, encaixava peças.

Então eu acordava, fazia as coisas da casa, almoçava e saía para trabalhar. Ainda estou em choque, de um dia para o outro não tenho mais isso, não tenho mais trabalho para ir. Fico achando que vai acontecer algum milagre e que vamos voltar à vida de antes.

Soube do fechamento da fábrica por uma mensagem enviada no grupo dos metalúrgicos. Depois daquilo, passei o dia sem comer, chorando. Não consegui dormir. Desde então eu acordo e já fico preocupada. Dá medo. Como vou trazer o pão de cada dia para casa? Se ainda tivessem dito que ia fechar, se tivessem dado um prazo. Mas não, foi de repente.

Acho que para mulher o desemprego é sempre mais difícil. A maioria das empresas ainda prefere os homens. Na Ford há várias mulheres como eu, que são o sustento do lar. Como vai ser com todas nós sem trabalho? A idade também complica. Eu já tinha minha estabilidade. Agora, com 44 anos, vou chegar na empresa e vai ter uma pessoa de 20 tentando a mesma vaga. Vão querer a de 20.

Vou perder o convênio de saúde em um momento que vivemos um colapso na área, com a pandemia. E aí as clínicas também vão deixar de ganhar dinheiro, o comércio, as escolas.

Ainda não consegui pensar em como será o futuro. Consegui comprar um apartamento com esse trabalho, mas ainda estou pagando o financiamento, o que torna minha situação ainda pior. A gente ainda não sabe quanto vamos receber, se teremos indenização. Depois disso verei o que fazer. Mas vou correr atrás de qualquer coisa, sou mãe de família, tenho que encarar o que vier." Jucinete dos Santos Oliveira, 44

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