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Como despejo de uma ocupação feminista mobilizou 1.500 policiais em Berlim

Prédio que sediava ocupação feminista em Berlim  - Niklas Franzen
Prédio que sediava ocupação feminista em Berlim Imagem: Niklas Franzen

Nina Lemos e Niklas Franzen

Colaboração para Universa, de Berlim

12/10/2020 12h21

Desde a semana passada, uma ocupação feminista em Berlim ocupa as primeiras páginas dos jornais da Alemanha e os noticiários de TV. Pelas ruas, o slogan "Liebig 34 bleibt" (Liebig 34 fica) está escrito pelas paredes. Motivo: o despejo de um prédio ocupado por mulheres feministas há mais de 30 anos, que mobilizou pelo menos 1.500 policiais na manhã de sexta-feira (9) na cidade.

O prédio, ocupado logo depois da queda do muro, fica em Friedrichshain, bairro na parte oriental que tem uma longa história de resistência da esquerda. Logo depois da reunificação, muitos prédios vazios foram ocupados no distrito, principalmente por punks e anarquistas. Ao longo dos anos, muitos deles foram despejados. O bairro permanece até hoje como um dos centros da Berlim alternativa, com apartamentos comunitários, bares e centros de esquerda.

A ocupação feminista, onde moravam 40 mulheres, e homens só entravam em situações de exceção, além de ser um dos últimos squats (prédios ocupados) da cidade, era também um centro de acolhimento para transexuais, lésbicas e mulheres refugiadas em situação de risco. Hoje, virou um símbolo para a cidade.

O despejo aconteceu em clima de guerra. Na sexta feira, quando o prédio começou a ser desocupado pela polícia, cerca de mil pessoas foram para a frente do local apoiar a ocupação e tentar impedir os policiais. Vizinhos se solidarizaram com as moradoras, com banners nas janelas e panelaço. Alunos e professores de uma escola primária aderiram aos protestos.

Mas o clima não era nada tranquilo, como o aparato da polícia, com uso de forças especiais, policiais em cima do prédio, helicóptero e um tanque de água usado em manifestações violentas, deixava claro. Uma escada magirus foi colocada na frente do prédio, por onde os policiais entraram no local. Algumas moradoras saíam levadas por policiais de punhos erguidos, outras eram arrastadas pela polícia e recebiam aplausos dos moradores e de manifestantes.

"Eu conheço as meninas muito bem. É muito triste o que está acontecendo", disse uma funcionária de uma padaria em frente do prédio à reportagem. A mulher, que não quis se identificar, trabalha há dez anos no local. "A ocupação era o coração do bairro.", disse.

Caos e gentrificação

O Liebig 34 foi parar no centro do debate sobre gentrificação na Alemanha. Na noite do despejo, cerca de 2.000 pessoas fizeram uma passeata onde carros foram queimados e vitrines apedrejadas. A polícia reprimiu as ações e prisões foram feitas.

Na segunda-feira, a polícia atribuiu a anarquistas irritados a destruição do carro de um político do partido CDU (União Democrata Cristã). Antes do despejo, um cabo de trem de uma estação próxima ao prédio foi destruído. Jovens anarquistas ocuparam outros prédios na Alemanha em sinal de revolta. As autoridades esperam mais ações do tipo.

O debate sobre a gentrificação e a importância de prédios como o Liebig, junto com críticas às táticas violentas usadas pelos moradores de tais prédios, dividem as notícias na Alemanha com a volta do coronavírus.

Motivos não faltam. O proprietário do prédio, Gijora Padovicz é um especulador que possui mais de 200 prédios, tem ligações com um partido da extrema-direita, a AFD, e ganhou um processo na Suprema Corte alemã, o Landgericht, para conseguir o despejo. O advogado do prédio, Moritz Heusinger, porém, disse em entrevista a Universa que a ação na sexta foi contra a lei e uma "decisão política".

No dia do despejo, o advogado foi impedido pela polícia de entrar no prédio e não conseguiu falar com suas clientes. Ele também criticou a atuação da polícia. "No meio de uma pandemia, um encontro de tantas pessoas é muito perigoso e já é um motivo para não despejar", criticou. Muitos concordam com ele, enquanto outros políticos e jornalistas criticam a violência dos anarquistas.

Nos últimos anos, despejos como esse vêm causando revolta na cena alternativa de Berlim. Moradia é o assunto da vez na cidade, já que muitos sentem na própria pele o aumento dos aluguéis e a falta de moradia. Por isso, muitos berlinenses apoiam uma iniciativa por um referendo para que apartamentos de grandes empresas de especulação sejam estatizados (comprados de volta pelo estado, que os alugaria a preços populares).

Desde o ano passado, o governo de esquerda da cidade de Berlim lançou um limite de aluguel, que prevê que os aluguéis não passem de um certo valor por região.

Porém, para muitos jovens ativistas, isso não é o suficiente. Eles acreditam que, para barrar as forças do capital, é preciso tomar medidas mais radicais e sonham com uma nova onda de ocupações, como nos rebeldes anos 1990. A ver...

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