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Cem mil bexigas: artistas fazem performance de 14 dias por mortos por Covid

As artistas preparam a performance "Insuflação de uma Morte Crônica" - Divulgação
As artistas preparam a performance "Insuflação de uma Morte Crônica"
Imagem: Divulgação

Fernanda Ezabella

Colaboração para Universa

02/09/2020 04h00

No terceiro dia, Bruna Lessa desistiu do seu quarto. Já eram mil bexigas pretas espalhadas pelo apartamento, no centro de São Paulo, e não dava mais para dormir com o cheiro forte de látex. Mas ainda faltavam 11 dias e outras 99 mil bexigas a serem enchidas.

A performance "Insuflação de uma Morte Crônica" reuniu quatro mulheres artistas fechadas num apartamento por 14 dias, como numa quarentena, com a tarefa de encher 100 mil bexigas pretas, número referente às mortes causadas pela Covid-19 até 8 de agosto. Hoje, início de setembro, são mais de 121 mil.

"Somos 100 mil mortos. Quanto isso ocupa de espaço?", pergunta o coletivo feminino Mulheres em Quarentena, do qual a cineasta e artista Bruna Lessa é uma das fundadoras.

sala1 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
corredor - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Bruna teve a ideia da performance no começo da pandemia. "Quando atingimos 5.000 mortes, achava uma coisa absurda", disse a artista de 35 anos a Universa. "As mortes viraram números, como numa estratégia para esconder seus rostos e suas histórias", continuou. "Pensamos nas bexigas pelo ato simbólico de encher de ar, pensando nas pessoas que morreram sem ar."

Entre 3 e 16 de agosto, as bexigas foram enchidas 24 horas por dia, num esquema de revezamento entre as quatro artistas. Além de Bruna, estavam a fotógrafa Cacá Bernardes, a cantora e técnica de som Carina Iglecias e a instrumentista Joana Coutinho, amigas que trabalham com audiovisual de teatro e tiveram seus empregos comprometidos com a pandemia. Uma delas perdeu a avó para a Covid semanas antes da performance.

"No terceiro dia, acordei mal com o cheiro. Meu quarto era grande e tínhamos que aproveitá-lo para guardar as bexigas. Era muito difícil de contê-las", explicou Bruna. "Acabamos dormindo as quatro num quartinho dos fundos, revezando. Também preservamos a cozinha e no final já estávamos tomando banho de caneca."

Resíduos viram manto

O ritual de "insuflação" foi transmitido ao vivo pelo YouTube através de duas câmeras. A cada bexiga preenchida, um contador era acionado. Elas usavam uma bombinha motorizada durante o dia, mas à noite era preciso usar um inflador manual para não incomodar os vizinhos do prédio com o barulho.

"Virou uma espécie de meditação. Tínhamos um acordo de conversar apenas o essencial. Era um rito de silêncio", disse Bruna, que enchia em média 1.500 balões por dia. "Foi também muito exaustivo fisicamente. Minha mão não voltou ao normal até hoje, tive câimbras de tanto dar nós nas bexigas."

balões com pessoa - Divulgação - Divulgação
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corredor de balões - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Ao final do 13º dia, o apartamento de 170 m² estava tomado de bolas pretas quase até o teto, uma imagem sufocante. E no 14º dia, as artistas passaram nove horas seguidas estourando os balões, um de cada vez. O resultado são resíduos coletados em 13 sacos de 100 litros, que serão transformados numa obra de arte, uma espécie de manto de látex de 6 metros por 10 metros.

A obra será produzida por um grupo de cerca de dez mulheres da comunidade de Heliópolis que trabalham com escolas de samba e estão desempregadas. "Estamos organizando para conseguir gerar uma renda para essas mulheres e manter o isolamento", explicou Bruna.

Para realizar os 14 dias de performance, o coletivo fez uma vaquinha virtual e levantou cerca de R$ 1.500. Outra campanha segue no ar e arrecadou R$ 2.725. As 100 mil bexigas custaram R$ 6.000.

três artistas - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação
quarto com balões - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Luminárias e novas performances

O objetivo é que as doações online ajudem a manter o programa de performances do coletivo Mulheres em Quarentena. A próxima será realizada por Eliana Monteiro, diretora no grupo Teatro da Vertigem, num trabalho que pretende discutir o silenciamento imposto às mulheres.

Diz a descrição da performance "E o que Restou do Barro Silenciou a Mulher": "Durante 15 dias, a performer irá cobrir a própria cabeça e encher a boca com argila, na sala de sua casa, colocando-se de pé diante de uma câmera. Sobre sua cabeça, pingos de água constantes farão a argila se desmanchar ao longo da performance".

Ainda não há data definida para começar. Já Bruna, depois de 14 dias convivendo com bexigas pretas, foi atrás da luz. Em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, ela levou 100 luminárias de bateria solar para cada um de 10 hospitais de São Paulo que estão tratando pacientes de Covid-19.

"A ideia era construir um espaço de respiro para quem está internado ou trabalhando nesses hospitais", disse Bruna, que ficou impressionada ao visitar certas comunidades, como quando foi ao hospital de Cidade Tiradentes. "Passamos por meia dúzia de igrejas lotadas e vimos muitas pessoas nas ruas sem máscara. É um novo normal que dá um certo pavor."

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