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Por US$ 500/dia, "vigia da Covid" vira nova profissão nos sets de Hollywood

A americana Britney Berna, que se tornou "vigia de Covid" nos estúdios de Hollywood - Arquivo Pessoal
A americana Britney Berna, que se tornou "vigia de Covid" nos estúdios de Hollywood Imagem: Arquivo Pessoal

Fernanda Ezabella

Colaboração para Universa, de Los Angeles

26/08/2020 04h00Atualizada em 26/08/2020 11h40

Antes da pandemia, a americana Britney Berna trabalhava em pós-produção de seriados rodados em Los Angeles, nos Estados Unidos, como "Utopia" e "Botched". Agora, na falta de séries em fase de finalização, ela arranjou um outro jeito de se manter empregada em Hollywood, numa nova profissão que surgiu em tempos de crise sanitária: "vigia da Covid".

Berna é a primeira a entrar no set de filmagens e é responsável por tirar a temperatura de todo mundo que chega para trabalhar. Ela também desinfeta superfícies e coloca fita crepe no chão perto das câmeras para indicar distâncias seguras entre atores e outros profissionais. E, claro, confere constantemente se todos estão usando a máscara de forma adequada e abusando do álcool em gel.

Ela virou "a vigia da Covid". "O pessoal me vê e já arruma a máscara do jeito certo, nem preciso falar nada", disse Berna, 32, em entrevista para Universa. Com o trabalho, ela chega a receber US$ 500 (R$ 2.800) por dia.

O novo cargo faz parte dos protocolos de segurança obrigatórios para os estúdios que estão voltando a filmar em Los Angeles. Sindicatos de Hollywood, como o dos atores e diretores, junto com estúdios e autoridades de saúde do condado criaram um manual de orientações para evitar surtos da doença nos sets.

Cursinho de US$ 50 para atrair trabalhos

Atores e equipe precisam passar por testes do novo coronavírus, e mesas de comida agora têm produtos embalados individualmente, e não mais no estilo buffet. Programas com audiência ao vivo precisam ter os espectadores com máscaras, testados para verificar febre e sentados a dois metros de distância uns dos outros.

E, para dar conta das novas regras, é preciso ter no set um "Covid officer" (autoridade da Covid, em inglês).

"Foi divertido voltar ao set de filmagens e interagir com pessoas depois de tantos meses em casa sozinha", disse Berna, que trabalhou como "autoridade da Covid" num comercial rodado a céu aberto e atualmente trabalha em um documentário num estúdio fechado.

"É estranho pra caramba. No começo, todo mundo mantinha uma distância de mais de dois metros, só para assegurar", disse. "Muitos se sentem desconfortáveis, e outros acham que é tudo bobagem. Mas é um risco para os atores, eles têm que tirar as máscaras e interagir com pessoas na frente das câmeras."

Para virar a "vigia da Covid", como ela mesma apelidou o novo cargo, Berna fez um curso online de três horas que custou US$ 50. Na prova final, acertou 39 das 40 perguntas.

"À esta altura do campeonato, todo mundo já sabe o básico, né? Mas aprendi algumas curiosidades, como qual desinfetante usar para tipos diferentes de superfície e como fazer distanciamento físico para uma banda, por exemplo, caso seja contratada para trabalhar num videoclipe."

Hollywood busca gente com experiência e primeiros socorros

A nova posição está em alta em Hollywood. Por dia, ela diz que três contatos com possibilidade de emprego. "Querem gente com experiência, embora haja poucas filmagens rolando", disse. "E querem gente com experiência em primeiros socorros, o que não tenho ainda. Estou atrás de um curso."

No set, ela circula com seu kit Covid: um termômetro de US$ 70, uma caixa de luvas, desinfetante em duas garrafas de spray e dois rolos de papel toalha. Ela chega antes de todo mundo para instalar cartazes e fita crepe no chão, limpar superfícies e fazer check-in com perguntas do protocolo de segurança.

"Se alguém disser que foi à China ou esteve com gente doente, pedirei para ver o teste de Covid. Provavelmente não deixarei entrar. Mas quem dá a palavra final é a produtora das filmagens", explicou. "É complicado, mas ainda não passei por nada assim."

O trabalho é esquisito, mas paga bem. Ainda assim, ela não vê a hora de voltar à programação normal do seu antigo emprego, ainda que recebendo menos. "Amo estar no set, mas não fazendo isso. Tenho experiência em pós-produção. É difícil fechar a boca e ir limpar as maçanetas do banheiro."

Blockbusters trocam Los Angeles por áreas de menos risco

Boa parte dos estúdios de Hollywood levou suas grandes produções para o exterior. Em julho, a Califórnia voltou a ter surto de Covid-19 e impôs novamente algumas regras de lockdown, embora sem proibir filmagens.

As sequências de "Avatar" recomeçaram na Nova Zelândia, a Sony levou "Uncharted" para Berlim, a Universal roda "Jurassic World: Dominion" em Londres, e a Marvel grava "Shang-Chi" na Austrália. Cada um criou seu próprio protocolo de segurança.

Segundo uma reportagem do jornal "The New York Times", a produção de "Jurassic Park" bolou um manual de 107 páginas para lidar com a pandemia. Arranjou 18 mil testes de Covid-19, 150 estações para desinfetar as mãos e alugou um hotel inteiro para a equipe, parte do protocolo de segurança de cerca de US$ 9 milhões. O elenco é testado três vezes por semana.

A exceção em Los Angeles foi o blockbuster coproduzido por Michael Bay, "Songbird", com Demi Moore. O longa é um dos primeiros a terminar suas filmagens na cidade durante a pandemia, embora com algum sufoco.

Em julho, foram obrigados a interromper a produção após reclamações de falta de transparência nos protocolos de segurança, segundo os sindicatos. Mas tudo foi resolvido em 24 horas.

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