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Fala de Marília Mendonça e ataques ao Thammy: afinal, o que é transfobia?

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Imagem: iStock

Bia Viana

Colaboração para Universa

11/08/2020 18h22

A cantora Marília Mendonça recebeu várias críticas nas redes sociais nesta segunda-feira (10) após um comentário duvidoso feito durante uma live. Nele, a cantora "brinca" sobre um amigo que tinha ficado com uma "mulher linda" durante um encontro em uma boate LGBTQI+, sinalizando que ela "não era uma mulher de verdade". Com a repercussão negativa, a cantora rapidamente se pronunciou e pediu desculpas pelo comentário.

Semana passada, o ator Thammy Miranda foi alvo de ofensas na internet. O motivo: pai de Bento, de 6 meses, ele foi um dos escolhidos pela marca Natura para ser garoto-propaganda da campanha de Dia dos Pais. Os dois casos trazem um tema em comum: a transfobia.

O que é transfobia?

Amanda Gondim, advogada atuante em Direitos das Mulheres, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência, descreve a transfobia como o ódio direcionado à identidade de gênero. "É diferente da homofobia, que é direcionada a orientação sexual. A transfobia envolve a identidade da pessoa, que é repelida para ser inserida em nossa conjuntura social de padrão cis". O padrão cisgênero, no caso, refere-se às pessoas que se identificam com seu gênero de nascença.

Esse preconceito pode se manifestar de diferentes formas, começando por 'piadas' e comentários discriminatórios. Essas agressões verbais podem parecer inofensivas, mas os dados alarmantes sobre violência contra transsexuais e travestis em nosso país mostram a importância dessa discussão. Segundo relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 124 pessoas foram mortas por serem travestis ou transexuais no Brasil em 2019, revelando uma média de 118,5 assassinatos de pessoas trans por ano desde 2008.

Como a fala de Marília Mendonça foi transfóbica?

Bryan Henrique e Raphaella Gomez, idealizadores do projeto Transceda, voltado à visibilidade da comunidade LGBTQIA+, explicam que o grande problema na fala de Marília é o tom de deboche. "O corpo trans sempre é visto como chacota, como algo que não merece respeito. Dentro do contexto da piada que ela fez, era uma piada de relacionamento, e a gente vê que normalizar esse tipo de piada dá palco para outros tipos de agressão". Para a influenciadora Rebecca Perucio Gaia, o ponto mais perigoso na fala de Marília é abraçar um 'senso comum'."Quando alguém de alcance muito grande reproduz esse tipo de fala, pessoas que concordam com ela acabam se sentindo mais livres ainda pra sair repercutindo. Isso tudo dá carta branca para quem só espera a confirmação para ser transfóbico descaradamente".

A fala de Marilia foi um incentivo para influenciadora Bruna Andrade destacar como esse tipo de preconceito está enraizado na nossa sociedade. O vídeo da influenciadora alcançou mais de 560 mil visualizações no IGTV, além de vários comentários e compartilhamentos, com menos de 24 horas de sua publicação. Para Bruna, a repercussão é essencial para aumentar o debate sobre o assunto.

"Todo movimento que coloca em foco o debate sobre as pessoas trans é importante. Essa visibilidade veio a tona e foi super importante para mostrar que sim, merecemos e podemos ser amadas, que não somos motivo de piada. Eu espero que toda essa repercussão faça as pessoas repensarem seus preconceitos e que entendam que merecemos respeito", declara a influenciadora.

Kyara Zaruty, defensora dos direitos humanos e LGBTQIA+ e servidora pública do Distrito Federal, comenta como a fala de Marília impacta negativamente na luta contra a transfobia. "Nós somos mulheres, e temos que ser respeitadas como tal. A forma como ela utilizou a fala dela colocou como se nós mulheres transsexuais fôssemos inferior às mulheres cisgêneros".

Cultura de cancelamento

Desde o início do ano, as discussões sobre uma cultura de cancelamento seguem várias celebridades em meio a polêmicas nas redes sociais. Mas fica a dúvida: como esse cancelamento pode ajudar a combater o preconceito?

Para Rebecca, cancelar não é a solução: é preciso discutir o tema e estar disposto a aprender. "Se as pessoas querem debater sobre, linchamento virtual não é nem de longe uma forma de chegar em algo positivo".

Nessa questão, Bryan e Raphaella também destacam o poder do diálogo. "Temos que dar informação. Quanto mais informação disseminamos, maior é a oportunidade de termos pessoas engajadas na luta e entendendo sobre ela".

No caso de Marília Mendonça, a cantora pediu desculpas através do Twitter e prometeu que não ia tentar justificar sua fala. Raphaella destaca a importância desse reconhecimento. "As pessoas famosas têm que entender que está tudo bem voltar atrás e admitir que está errado. Esse posicionamento é muito importante, porque ela tem vários seguidores e pode influenciá-los para o bem".

Mesmo sendo necessária, a desculpa não é a única solução. Existem várias formas de auxiliar no enfrentamento à transfobia e apoiar os movimentos LGBTQIA+. Segundo Kyara, uma ótima proposta para pessoas públicas envolvidas em casos de transfobia seria o auxílio a desmarginalização dessas pessoas, que sofrem estereótipos muito fortes e sexualizados.

"Existem mulheres transsexuais e travestis que estão no mercado de trabalho, em cargos governamentais e privados, que trabalham em prol da sociedade e dos direitos humanos. Seria uma grande virtude mostrar esse lado pra população, pra desconstruir a imagem negativa que a sociedade tem das pessoas transsexuais", afirma Kyara.

Essa luta é pertinente a todos, e só dando voz às pessoas trans, ela se torna possível. O apoio nesse discurso, dando espaço e voz para suas ideias, é essencial para fomentar o respeito. "A gente precisa levar em consideração a palavra da pessoas trans: se ela diz que é transfobia, é transfobia; não importa se estamos acostumades a ver isso na sociedade", conclui Bryan.

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