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Ministra hacker e trans ajuda Taiwan a combater Covid-19 e fake news

Audrey Tang, ministra hacker e trans  - Divulgação
Audrey Tang, ministra hacker e trans Imagem: Divulgação

Fernanda Ezabella

Colaboração para Universa, de Los Angeles

08/06/2020 04h00Atualizada em 10/06/2020 23h21

Audrey Tang não é uma ministra qualquer. A programadora lidera a pasta Digital de Taiwan desde 2016, dois anos depois de ajudar o movimento estudantil a ocupar o Parlamento por três semanas. Agora, no governo, ajudou a criar inovações digitais para conter a pandemia na ilha de 24 milhões de habitantes, que fica a meros 130 km da China, primeiro grande foco do novo coronavírus no mundo.

Faz quase um mês que Taiwan não registra novos casos de coronavírus. No total, sete pessoas morreram e outras 400 ficaram doentes. Entre as estratégias estão uma plataforma para coleta gratuita de máscaras e uma "cerca digital" utilizada nas fronteiras, além de uma campanha curiosa contra fake news que usa comediantes profissionais.

Tang tem o dedo em todas essas medidas. Chamada de gênia pelos conterrâneos, seu currículo explica: largou a escola aos 12 anos e logo começou a criar programas de computador. Aos 16, fundou sua própria empresa e, mais tarde, foi trabalhar no Vale do Silício como empresária e consultora de firmas como a Apple.

Aos 24 anos, fez a transição de gênero e passou a usar o nome Audrey. E agora, aos 39, lidera outra transformação, desta vez coletiva, de transparência radical e democracia digital no governo de Taiwan.

"Trabalho com o governo, nunca para o governo. Trabalho com o povo, não para o povo", disse Tang num evento online da série de palestras TED. "Os movimentos do povo estão de um lado, e o governo do outro lado. Às vezes, atuo no meio deles, como uma tradutora cultural. Às vezes, ajudo ambos os lados para obter os valores que têm em comum."

Para ela, democracia digital não se trata de fazer a população confiar mais no governo, e sim o contrário. "Queremos também fazer o estado mais transparente para o cidadão. Se fosse fazer o cidadão mais transparente, seria outro tipo de regime", disse, rindo.

Cerco digital

Mesmo tão perto da China, que considera a ilha como uma província rebelde, Taiwan nunca precisou fazer "lockdown" por conta de suas medidas rápidas nas fronteiras, assim que surgiram os primeiros rumores de uma nova doença respiratória, por meio de denúncias de médicos chineses.

Em 1º de janeiro, voos que vinham de Wuhan tinham seus passageiros checados, e hotéis nos pontos de entrada da ilha viraram centros de quarentena. Um aplicativo de celular foi criado para fazer um "cerco digital" e impedir escapulidas do isolamento. "Focamos nas fronteiras. Portanto, a maioria da população pôde seguir com sua vida normal", disse Tang.

Para a distribuição de máscaras gratuitas, Taiwan implementou uma plataforma atualizada a cada 30 segundos que mapeia a distribuição em 6.000 farmácias e estabelecimentos 24 horas. Quem é cego pode usar um assistente virtual, e quem quiser pode repassar sua cota de máscaras (mais de 5 milhões foram doadas em ajuda humanitária para outros países).

"Foram nossos hackers trabalhando como engenheiros civis no espaço digital", disse a ministra aos participantes do TED.

Audrey Tang - Reprodução/Flickr - Reprodução/Flickr
Imagem: Reprodução/Flickr

Humor em vez de rumor

Quando uma fake news circulou sobre a possibilidade de falta de papel higiênico por ser feito com o mesmo material das máscaras, uma campanha foi rapidamente criada para conter a mentira. O premiê de Taiwan apareceu num meme de desenho mexendo o bumbum e avisando: "Você tem apenas uma bunda! Não estoque!"

A campanha viralizou e, claro, também esclarecia que os materiais para fazer as duas coisas vinham de fontes diferentes. "Nossa estratégia contra desinformação é muito simples: humor em vez de rumor. Humor funciona como uma vacina", explicou Tang, acrescentando que cachorros e gatinhos também participam das campanhas de informação sobre a Covid-19.

"Se você responde a uma desinformação ou teoria da conspiração com um pacote de humor em duas horas, as pessoas tendem a ser vacinadas. Mas, se levar mais horas ou um dia, é caso perdido", disse.

A ministra explicou que todos os ministérios do governo trabalham com comediantes profissionais, um grupo de cerca de cem pessoas.

Combate às fake news

Mas só humor não basta. Nas eleições de 2019, quando a presidente Tsai Ing-wen foi reeleita com recorde de votos, mesmo com uma forte campanha contrária vinda da China, Taiwan fez com que empresas de mídia social aderissem às normas locais de divulgar publicamente doações e despesas de campanhas políticas.

O Facebook topou, enquanto Google e Twitter resolveram não publicar propaganda política.

Quando uma foto da agência Reuters passou a circular adulterada para semear a discórdia entre os eleitores de Taiwan, o governo logo achou a fonte das fake news (segundo Tang, o Partido Comunista da China) e pediu para que as redes sociais incluíssem um aviso na imagem adulterada cada vez que ela fosse compartilhada.

"Não retiramos o conteúdo online, só causaria mais indignação" disse. "Enviamos uma nota às redes sociais parceiras e boa parte colaborou."

Superando um trauma

Parte da rápida resposta à Covid-19 veio de lições amargas do passado. Taiwan foi uma das localidades mais afetadas pela Sars em 2003: 150 mil pessoas em quarentena e 181 mortes.

"Todo mundo acima dos 30 anos lembra como foi algo traumático. Municípios e o governo diziam coisas muito diferentes", afirmou Tang. "Depois da Sars, as coisas mudaram, foi criado um sistema [...] Espero que o coronavírus seja a chance para que todos que sobreviveram à primeira onda possam adotar um novo conjunto de normas que reforcem seus valores fundamentais."

Outra ferramenta do ministério Digital, comandado por Tang, é um "sistema coletivo de inteligência" para ouvir a população e formar "consensos aproximados" que ajudam em tomadas de decisão do governo, como distribuição de recursos da pandemia. Como num fórum online, cidadãos podem dar suas sugestões e votar contra ou a favor de ideias.

"O truque é que mostramos às pessoas os principais pontos de divisão e os principais pontos consensuais. E respondemos apenas às ideias que podem convencer todos os diferentes grupos de opinião", disse, citando como exemplo a chegada do Uber.

"As pessoas tinham preocupações com seguro, registro, proteção dos passageiros. Então mudamos a regulamentação de táxis, e o Uber virou mais uma empresa de táxi."

Ativista, hacker e trans

Tang chegou ao governo após sua participação no Movimento Girassol, de 2014, quando estudantes tomaram o Parlamento por três semanas para protestar contra um acordo comercial com a China. A programadora ajudou a transmitir a ocupação ao vivo de dentro do prédio, encorajando pessoas a falar publicamente.

Ela fazia parte de um coletivo de hackers que organizavam "hackathons", longas sessões de programação para solucionar problemas. De olho em aproximar cidadãos e governo após os protestos de 2014, a ministra de Digital da época participou de um evento e conheceu Tang, que acabou virando seu braço direito.

Em 2016, Taiwan elegeu sua primeira presidente mulher, Tsai Ing-wen. E Tang foi convidada ao cargo de ministra.

Taiwan é o primeiro país da Ásia a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma promessa de campanha de Tsai, mostrando como a comunidade LGBT ainda representa um grande tabu no continente. Em 2005, quando fez pequenas cirurgias como parte de sua transição de gênero, Tang escreveu sobre o assunto num blog em inglês.

"Por muitos anos, desliguei a realidade e vivi quase exclusivamente na internet porque meu cérebro sabia com certeza que sou uma mulher, mas a expectativa social exigia o contrário", escreveu Tang. "É uma situação clássica de transgêneros que me causava alta ansiedade, dificultando conhecer e me relacionar com outras pessoas."

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