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"Estou triste", diz fundador de Bloco Emo cancelado no Carnaval de 2020

Em 2018, folião emo brinda em homenagem à primeira edição do Bloco Emo, em São Paulo. Desfile não vai acontecer em 2020 - Nelson Antoine
Em 2018, folião emo brinda em homenagem à primeira edição do Bloco Emo, em São Paulo. Desfile não vai acontecer em 2020 Imagem: Nelson Antoine

Marcos Candido

De Universa

22/02/2020 04h00Atualizada em 25/02/2020 12h28

Pelas ruas paulistanas não será mais ouvida a música melancólica do desfile mais emotivo da cidade. O Bloco Emo, que homenageia o movimento emocore, não vai desfilar no Carnaval de 2020. O desfile reuniu 50 mil foliões na zona norte de São Paulo em 2019 e já tinha bandas confirmadas para tornar ainda maior a terceira edição do evento.

O emo, uma vertente do rock com letras melancólicas, foi popular no Brasil e no mundo nos anos 2000. O bloco criado para homenageá-lo era peculiar em meio ao maior Carnaval de rua do país. Em vez de letras alegres ou satíricas, o Bloco Emo entoava composições tristes no ritmo da bateria, como "Razões e Emoções" do NX Zero. Uma espécie autêntica de Pierrô.

O desfile saiu graças a um dinheiro guardado por Alexandre Cavalcanti, 32, à renda arrecadada com festas (o que deu R$ 18 mil e aluguel de um carro de som pequeno). Em troca, 25 mil emos orgulhosos compareceram. No ano seguinte, o público dobrou e ocupou a avenida Tiradentes, região central da capital. Em contrapartida, as exigências também aumentaram.

A Prefeitura de São Paulo considerou o bloco como um evento de grandes proporções e exigiu investimento maior em profissionais médicos e rotas de escape, produção e orientação do público. Em nota, explica que são considerados como "mega blocos" os que têm expectativa de ao menos 40 mil pessoas.

Alexandre e um sócio buscaram investidores do ramo cervejeiro e vestuário para ajudar no mega bloco, mas deram com a cara na parede.

Segundo ele, nenhuma empresa quis dividir espaço com a marca patrocinadora oficial da prefeitura para a venda de bebidas alcoólicas. Assim, a edição de 2020 foi cancelada.

Nos últimos dias, Alexandre diz que tem se sentido triste e de malas prontas. Vai viajar para o interior, prevê trabalhar durante os dias de folia e não quer saber de Carnaval.

A volta do movimento emo

O emotional hardcore, ou emo, é um gênero do rock famoso nos anos 90 e 2000. A primeira geração do emo surgiu na década de 90 nos Estados Unidos. As letras tratavam de sentimentos de rejeição, inadequação, raiva e incompreensão com o mundo. Naquela época, destacavam-se bandas emo como American Football, Cap'n Jazz, Sunny Day Real Estate, etc.

2018: Foliões se divertem no bloco de carnaval Emo durante a tarde desta segunda feira na regiao central de Sao Paulo - Nelson Antoine - Nelson Antoine
2018: Foliões se divertem no bloco de carnaval Emo durante a tarde desta segunda feira na regiao central de Sao Paulo
Imagem: Nelson Antoine

Nos anos 2000, o gênero foi pasteurizado por empresários da indústria fonográfica. As letras e os arranjos tornaram-se mais simples e populares. Nesta época, cresce o sucesso de bandas estrangeiras como Simple Plan e All Time Low.

No Brasil, grandes gravadoras produtores musicais, como Rick Bonadio, investiram em bandas de hardcore independente para transformá-los em ídolos emos adolescentes por volta de 2004. É nesta época que grupos como NX Zero e Fresno estampam capas de revista e estrelam programas e seriados da MTV.

Lucas Silveira, vocalista e compositor da portoalegrense Fresno, esteve na primeira edição do Bloco Emo - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Lucas Silveira, vocalista e compositor da portoalegrense Fresno, esteve na primeira edição do Bloco Emo
Imagem: Reprodução/Instagram

O figurino se tornou um elemento característico e fundamental do emo. O cabelo dos emos tinha uma franja transversal sobre o olho. Os cílios, aliás, eram pintados com lápis. As camisetas e calças pretas eram sempre justas. A imprensa reforçou o estereótipo.

Os tênis eram All-Star ou Vans decorados com caneta Bic. Os cintos usados para segurar as calças, apesar de desnecessários devido à justeza das peças, eram confeccionados com estampa xadrez ou pequenos espetos sem ponta. Na internet, os emos se comunicavam com uma espécie de dialeto chamado 'miguxês', que consistia em MiSTurAR PALaVras e LetrAS AsSim.

O tempo passou e eu sofri calado

Já são cerca de 15 anos desde que o emo viveu seu auge. Os emos já são adultos e é mais fácil falar com orgulho sobre o passado. Na época, até mesmo bandas emos evitavam o rótulo devido ao preconceito generalizado. Emos sofreram ataques físicos e virtuais.

"Antes [dos emos], o rock tinha passado por movimentos como o nu metal ou glam rock, que objetificavam muito a mulher. O emo aparece, então, e fala para o homem que é normal e natural chorar. Os emos sofreram uma grande homofobia por permitir ao homem ter acesso a esses sentimentos", explica Alexandre.

O produtor trabalhou quase em tempo integral para conceber o desfile. Para 2020, o evento já tinha a presença confirmada de bandas famosas da época, como o Strike. Outro grupo desejado era a Fresno, banda de Porto Alegre conhecida por músicas com títulos como "Em cada poça dessa rua tem um pouco das minhas lágrimas", de 2006. O grupo segue em atividade e tem milhares de fãs.

'Quando a gente tem 16, a gente gosta do som, é gerador de opinião e diz o que é legal. Mas a gente não consome muito porque a gente não pode sair de casa e não tem dinheiro", diz. "O emo precisava de mais algum motivo para fazer as pessoas reviverem esse momento e o bloco catalisou esse novo ciclo."

Alexandre vai trabalhar para desfilar com o Bloco Emo em 2021. Uma das metas é lutar para que a Prefeitura de São Paulo use o dinheiro gerado com o evento — que deve movimentar R$ 2 bilhões neste ano — para torná-lo menos monopolizado. No mesmo dia em que seria a apresentação de rua, haverá uma festa fechada com o melhor da música emo na Vila Mariana.

Apesar de tudo, o bloco ajudou Alexandre a se aproximar de músicos e, segundo ele, manter o espírito independente e do-it-yourself que marcou a cena independente do rock da qual se orgulha de ter crescido.

"Eu nunca tive franja. Sempre tive o cabelo cacheado. Mas é divertido pensar que, olhando para trás, a gente foge de um estigma. Eu só nunca tive um visual emo, mas sempre fui emo. Estou triste por não ter o bloco neste ano. Se isso não é ser emo, o que é?", conclui.

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