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Meme, frustração e dicas: um dia no grupo de zap dos entregadores de app

Causos sobre clientes, discussões e treta com as plataformas: entregadores encontram na internet as respostas para dilemas - Joel Carillet/Getty Images
Causos sobre clientes, discussões e treta com as plataformas: entregadores encontram na internet as respostas para dilemas Imagem: Joel Carillet/Getty Images

Natália Eiras

De Universa

26/01/2020 04h00

"Bom dia, grupo. Alguma promoção para Sampa hoje?" O dia de um entregador de aplicativo começa cedo. Por volta das 9h, o grupo no Facebook e no Whatsapp, onde eles trocam experiências, já está bombando. Nesse horário, eles já estão na correria para garantir o café da manhã de muitos usuários de Rappi, Uber Eats, iFood, entre outras plataformas de entrega.

Segundo levantamento da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), há cerca de 5,5 milhões de pessoas trabalhando como entregadoras no Brasil. O número saltou 104,2% no último ano, aponta pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Espalhados pelos centros urbanos, estes profissionais acabam se encontrando na calçada de supermercados populares nos aplicativos, como Carrefour Express e Mini Extra, e nos poucos centros de convivência criados pelos aplicativos.

Mas, às vezes, uma conversa com o colega de bike ou de "motoca" não é o bastante para esclarecer dúvidas. Foi por isso que Jefferson William, de São Paulo, criou, no ano passado, o grupo "Rappi e Uber Eats entregadores de bike", um dos maiores sobre o assunto e que atualmente reúne mais de 8.000 membros.

"Criei o grupo em janeiro de 2019 para a gente se ajudar, tirar as dúvidas um do outros. Tem gente que pergunta como faz cadastro, como funciona, quanto tira por dia. Cada um tem seus dilemas", fala o administrador para Universa. Há oito meses, ele deixou a vida de entregador por ter conseguido um "registrado", trabalho fixo com carteira assinada, mas continua mantendo o grupo para não deixar na mão quem está na correria. "Às vezes eu não tenho muita condição de ajudar, mas tenho um outro pessoal que pode estar me ajudando."

Eles usam o espaço virtual para desabafar sobre as adversidades - Reprodução
Eles usam o espaço virtual para desabafar sobre as adversidades
Imagem: Reprodução

Fora a burocracia para conseguir entrar no aplicativo como entregador, o que pode levar meses, os entregadores trocam experiências do dia a dia deles. Prints de telas de quantas corridas cada um fez e quanto rendeu são sucesso constante na timeline. "Eles querem saber se realmente vale a pena trabalhar como entregador", afirma Jefferson.

No grupo, também há situações muito específicas de quem trabalha com as plataformas. Em um post, um membro fala que foi fazer uma entrega na Avenida Celso Daniel, na zona leste da capital paulista. Estava errado. Ele descobriu que havia ocorrido um erro e o pedido era, na verdade, para ser entregue em uma avenida de mesmo nome em Santo André, no ABC paulista.

"Agora vou ter que ir à central para entregar o lanche e eles jogarem fora", escreveu um cara, frustrado. Idas às centrais de atendimentos são comuns. Seja para desbloquear o aplicativo por conta de algum erro ou para retirar novas encomendas. Quando acontece, eles lamentam. Afinal, é tempo de ouro em que ele poderia estar fazendo entregas e batendo a meta que estabelecem para si. "É por isso que nessas horas eu como o lanche", respondeu um colega.

Meme de entregador

Mas o papo vai além da troca de lamentos e de dicas do melhor plano de dados de internet. Como todo brasileiro, os entregadores de aplicativos acabam transformando essas situações do cotidiano em piadas e memes. Figurinhas de Whatsapp temáticas fazem sucesso e arrancam risadas, como a de um demônio tentando convencer o entregador: "Come a comida do cliente, come."

Figurinhas temáticas pipocam no grupo do WhatsApp - Reprodução
Figurinhas temáticas pipocam no grupo do WhatsApp
Imagem: Reprodução

Eles também criam uma relação especial com seus materiais de trabalho, seja a "bag", mochila do aplicativo que acabam ganhando ou comprando, ou o veículo que usam para fazer as entregas. "Mostrem os xodós de vocês", pede um dos membros, que publicou a foto de sua "magrela". Choveu declarações de amor às bicicletas e motos que acompanham os trabalhadores.

Cliente x entregador e tretas no grupo

No grupo, também não faltam os causos sobre os destinatários, mas, nessas horas, eles se dividem entre quem gosta de "avacalhar" e quem é adepto do lema de que "o cliente tem sempre razão". "Quando eu era moleque ficava no quintal esperando o motoca da pizza. Por que c****** os malucos demoram para pegar o pedido?", reclamou um entregador.

Algumas brigas são relacionadas a entregadores que aceitam corridas que rendem pouco, como R$ 4 por uma corrida de 10 km.

"É por isso que rola essa palhaçada, se valoriza", diz um deles. "Ele tá no corre dele, é melhor ganhar R$ 1 de entrega do que roubar", defende outro.

Na última quarta-feira, o assunto mais comentado pelos participantes era o caso de um entregador que discutiu com um policial militar, que mostrou a arma para ele. Um vídeo publicado no grupo que Universa acompanhou mostra a cena: o motoqueiro parou em lugar proibido e, ao ser advertido, discutiu com porteiro.

"O cara vacilou, folgou, é claro que vai ter briga. O que custa parar no lugar correto?", diz uma voz no grupo. A puxada de orelha de um no outro é constante, porque, se alguém comete uma fraude, toda a classe pode sofrer. "Uns fazem m**** e os honestos que sofrem."

Se surge algum post de gente vendendo ou alugando as contas na plataforma, os membros reclamam. Qualquer tipo de ilegalidade tem consequências radicais, comandadas pelos próprios entregadores, que não querem perder o "lugar seguro" construído ali no grupo: a exclusão. É que há a possibilidade de funcionários dos aplicativos estarem "infiltrados" para captar pessoas que estejam fazendo esse tipo de transação.

Dificuldades, vínculo e direitos

Porém, mais do que os embates entre eles ou com clientes, a tensão é maior na relação dos prestadores de serviço com a plataforma. Por isso, surgem discussões que você poderia ver em qualquer firma, entre colegas de mesa.

Em um vídeo, um entregador tira onda do companheiro de bike porque caiu um pedido em que ele deveria levar "dois sacos de cimento e um metro cúbico de areia grossa e pedra. Você fez esse, amigo?", brincou. Nos comentários, uma frase que poderia ser ouvida em qualquer almoço da firma. "Tem cara que lambe tanto o aplicativo que até faria essa entrega aí"; é o conhecido puxa-saco.

Os direitos trabalhistas de entregadores de aplicativo se tornaram pauta no Brasil nos últimos meses. Principalmente por conta da morte de um dos prestadores de serviço do Rappi, que teve um AVC durante uma entrega e fez com que a empresa fosse acusada de não dar apoio aos entregadores.

Na Europa, a morte de um parceiro da Glovo em Barcelona, na Espanha, atingido por um caminhão enquanto atendia um pedido, provocou uma onda de protestos. Isso sem falar na rotina desgastante a que os entregadores precisam se submeter para conseguir receber R$ 100 diários. Os de bicicleta são os que mais sofrem.

"Para ser um entregador, precisa ter muita disposição, saúde boa, porque não só vai ter entrega longe como também terá que carregar bastante peso", avisa Jefferson. O administrador e outros membros reforçam que os aplicativos são uma forma de ganhar dinheiro de forma digna. "O importante é não estar usando a bike para bater celular do cidadão."

A plataforma, entretanto, é só mais um patrão. A impressão fica evidente em um comentário a um novato, que atraiu dezenas de likes: "Bem-vindo à escravidão moderna."

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