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"Senti na pele diferença entre lei e prática", diz assessor após homofobia

Casal passava as férias em Pernambuco quando motorista se recusou a continuar viagem após beijo - Reprodução
Casal passava as férias em Pernambuco quando motorista se recusou a continuar viagem após beijo Imagem: Reprodução

Marcos Candido

De Universa

08/01/2020 04h01Atualizada em 08/01/2020 12h56

O assessor parlamentar Eliseu Neto passava as férias no Recife com o namorado quando solicitou um carro por aplicativo na noite do último sábado. Um motorista aceitou. Os dois embarcaram e sentaram lado a lado no banco de trás. O universitário Ygor Higino pediu um beijo. Nesse momento, o veículo parou.

"O motorista mandou a gente descer e falou que não nos levaria mais. Disse: 'Não quero esse tipo de coisa no meu carro'. Falei que era um absurdo, que era homofobia o que estava acontecendo. Desci para fotografar a placa, quando ele me empurrou e chamou a polícia", relata Eliseu para Universa.

O motorista, então, se aproximou de uma viatura. Imagens de câmera de segurança capturaram o momento em que o policial militar também empurra Eliseu. O motorista e o policial foram embora e deixaram o casal no meio da rua. As férias ficaram pela metade. "Achei que o policial iria me proteger", disse.

Atualização: o motorista negou ter expulsado o casal após um beijo e negou ser homofóbico.

Planos adiados

O casal planejava seguir para Porto de Galinhas, no litoral pernambucano. Os planos foram transformados em atividade burocráticas.

Na segunda, foram à Corregedoria estadual pernambucana pedir que a conduta dos policiais fosse investigada. Também formalizaram um boletim de ocorrência em uma delegacia no Recife para que o motorista seja punido na Justiça — no fim de semana, tentaram registrar o episódio pela internet, mas não há um campo para o registro online desse tipo de ocorrência por intolerância.

Assessor é de partido que protocolou ação contra homofobia

Não é a primeira empreitada jurídica do assessor em torno de questões de homofobia. O assessor é coordenador do núcleo de diversidade do Cidadania, antigo PPS (Partido Popular Socialista). Em 2013, o partido apresentou uma ação ao STF (Supremo Tribunal Federal) para criminalizar a homofobia. Em junho, a Corte definiu que a LGBTfobia equivale ao crime de racismo.

Também não foi a primeira violência enfrentada por Eliseu por ser homossexual. Ainda criança, apanhava do tio. Sem entender muito bem o porquê, só anos depois percebeu que as agressões eram acompanhadas por xingamentos homofóbicos como "bichinha" ou "viadinho". "Havia algo em mim que nem eu mesmo enxergava e entendia", lembra.

Católico, ele se via em conflito com quem era e com os dogmas que eram cultuados pela família. Só pode compreender a orientação sexual quando saiu de Florianópolis para cursar psicologia no Rio de Janeiro, aos 20 anos. A saída de casa trouxe alívio e permitiu repensar o que havia vivido até então.

"O mais difícil é o caminho da vergonha para o orgulho. A gente cresce entendendo que o viado não é um homem. Quando você cresce e te xingam de viado, não é referente a com quem você transa, mas de que você não faz parte do grupo dos homens", diz.

Assessor parlamentar e namorado passam férias em Pernambuco - Reprodução
Assessor parlamentar e namorado passam férias em Pernambuco
Imagem: Reprodução

Senti na pele a diferença entre a lei que eu garanti no STF há seis meses e a prática dela para quem precisa. [Na ponta], você fala que homofobia é crime e o policial bate em você

De acordo com o assessor, um familiar do motorista telefonou para prestar solidariedade e pretende depor nesta quarta à polícia. Na versão do parente, o motorista supostamente dirigia em bairros com boates LGBTs para abandonar passageiros homossexuais no meio da rua, assim como tinha histórico de violência LGBTfóbica na família.

O outro lado

Em depoimento à polícia nesta terça (7), Paulo Augusto Rodrigues disse que encerrou a corrida após uma discussão entre o casal. Também negou que seja homofóbico e pretende mover uma ação contra calúnia e difamação contra o assessor parlamentar. Eliseu negou que tenha agredido o namorado e que já esperava esse tipo de descredenciamento e espera que as autoridades apurem os fatos.

Universa entrou em contato com a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, mas até o fechamento desta reportagem não obteve retorno. Já a empresa 99 afirma ter expulsado o motorista do aplicativo e defende que motoristas não possam discriminar passageiros.

A Associação dos Motoristas de Aplicativos de Pernambuco (Amepe) emitiu uma nota no domingo, na qual repudia todo tipo de preconceito e se solidariza com o casal.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Pernambuco não tem delegacia especializada em crimes cometidos contra LGBTs. Apesar disso, houve aumento em 12% no número de casos de lesão corporal dolosa contra homossexuais no estado entre 2017 e 2018.

É a terceira denúncia de LGBTfobia noticiada por Universa na primeira semana de 2020. No domingo, um grupo de mulheres lésbicas apanhou sob o argumento de que uma delas "parece homem" no Hopi Hari, parque de diversões em São Paulo. No sábado, um protesto foi convocado em um shopping de Maceió que impediu uma mulher trans de usar o banheiro feminino.

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