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Trans expulsa de shopping em Maceió: "Fui humilhada e precisava desabafar"

Lanna Hellen alega ter sido impedida de entrar em banheiro feminino de shopping - Acervo pessoal
Lanna Hellen alega ter sido impedida de entrar em banheiro feminino de shopping Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

05/01/2020 17h25

Na noite da última sexta-feira (3), Lanna Hellen saiu de casa sozinha para dar uma volta no shopping e tomar um sorvete. Mas o que era para ser um passeio tranquilo se transformou em um protesto: ela alega ter sido impedida por um dos funcionários do local de usar o banheiro feminino. O motivo? Lanna é uma mulher transgênero. Indignada com a proibição, subiu em uma mesa da praça de alimentação, de onde foi tirada à força pelos seguranças do local. Logo em seguida, prestou queixa contra o estabelecimento na delegacia.

A situação aconteceu no Shopping Pátio Maceió, na capital alagoana. Frequentadores do local filmaram a revolta de Lanna e seus vídeos rapidamente se espalharam pelas redes sociais. No sábado, a hashtag "shoppingpatiotransfobico" permaneceu nos assuntos mais comentados do Twitter durante todo o dia e, no período da tarde, um grupo de apoiadores da causa LGBTQ+ se reuniu em frente ao estabelecimento para protestar.

"Jamais pensei que fosse acontecer comigo"

Em entrevista a Universa, Lanna, de 31 anos, conta que nunca passou por uma situação do tipo. "Sou da zona leste de São Paulo e me assumi como mulher trangênero aos 25 anos. Desde então, só frequento banheiros femininos. Inclusive, sou ex-funcionária do local: sou cabeleireira me mudei para Maceió há três meses. No primeiro deles, trabalhei em um salão de beleza do shopping. Usava todos os banheiros femininos, nunca tive problema. Mas dessa vez fui abordada por um segurança na porta. Ele disse que uma cliente havia reclamado da minha presença e que eu não poderia entrar", diz. Por meio de nota, o shopping nega que tenha barrado a entrada de Lanna no toalete feminino.

"Quis que as pessoas me ouvissem"

Lanna imediatamente pegou o celular e passou a filmar a situação:

"Queria que as pessoas soubessem que não era uma mentira, uma invenção. Comecei a filmar o rosto dele e a questionar por que uma travesti não poderia usar o banheiro. Depois fui para os corredores, mas as pessoas não estavam me dando bola. Sabe quando você quer abrir os olhos de alguém para uma injustiça? Aquilo não podia ficar daquela forma. Quando vi que a praça de alimentação estava cheia, pensei: 'É pra lá que eu vou' e subi na mesa."

Aplausos e vaias

Pelos vídeos, é possível notar que Lanna recebeu apoio dos frequentadores do shopping, mas que algumas pessoas foram contra o protesto. "Estava tão nervosa na hora que nem percebi. No fundo, pouco me importa. Eu só precisava desabafar, mostrar que uma situação daquelas não pode existir. Depois que tudo aconteceu, fui chamada de bêbada, drogada. Mas estou satisfeita: fui humilhada, estava com raiva, saí arrastada de dentro do shopping, mas valeu a pena porque consegui mostrar que todos temos direitos."

"Estou em paz"

Lanna se mudou para Maceió para morar com a irmã por parte de pai. "Estava passando por um período depressivo em São Paulo. Sempre tive uma conexão forte com ela, nos falávamos muito pelas redes sociais, por isso tomei a decisão de vir para cá", explica. Reservada, ela prefere não dar detalhes sobre a vida pessoal, mas conta que não chegou a terminar o ensino médio. "Parei de estudar no fundamental porque sofria muito bullying na escola. Na época, nem havia assumido ser transgênero, mas sofria por ser gay."

Ela diz que sua motivação com o protesto no shopping nunca foi aparecer, como tem escutado de muitas pessoas. "Até ontem eu não tinha Instagram, por exemplo. Fiz ontem à tarde com a minha irmã. Nunca fui muito de redes sociais", afirma. Ela espera que seu protesto sirva de consolo para quem já viveu uma situação do tipo, mas ficou calado. "Muitas pessoas se identificaram com o preconceito que vivi. Estou em paz por isso."

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