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Elas investem na bolsa: "Ganhava R$ 1,6 mil; hoje ganho 10 vezes mais"

Natália Dalat começou investindo R$ 1 mil e hoje vive disso - Arquivo Pessoal
Natália Dalat começou investindo R$ 1 mil e hoje vive disso Imagem: Arquivo Pessoal

Vinicius Pereira

Colaboração para Universa

02/07/2019 04h00

Há décadas a imagem da Bolsa da Valores era um ambiente estressante, onde os homens se embolavam em meio a inúmeros telefones e diversas ligações ao mesmo tempo e muita gritaria. Essa situação parece ter ficado no passado. O ambiente mudou fisicamente, já que as operações hoje em dia são feitas de forma digital, mas também em relação ao perfil masculino dos investidores. As mulheres parecem ter invadido a operação.

Nos últimos quinze anos, o número de mulheres que operam na B3, a Bolsa da Valores brasileira, vem crescendo. De 2004 até hoje, a alta chegou ao impressionante número de 900%. Atualmente, 227 mil mulheres optam por comprar e vender ações, títulos e cotas de fundos no Brasil, o que representa 22% do total de CPFs cadastrados na instituição.

Esses produtos de renda variável, ou seja, nos quais não é possível definir o quanto seu dinheiro irá render em um determinado período, ainda são preteridos pelo brasileiro, que prefere deixar o dinheiro na tradicional poupança. Mas, pouco a pouco, vem ganhando espaço também entre as investidoras.

A médica Renata Rodrigues, 27, resolveu se arriscar nesse mundo de investimentos. Há cerca de três anos, ela resolveu destinar 5% de tudo o que economizava para comprar ações por meio de uma corretora.

"O meu dinheiro na poupança já não estava rendendo como antes, então percebi que precisava buscar outras soluções. Foi quando meu marido me falou sobre as ações e resolvi, com a ajuda de um profissional, ver alguns papéis", diz Renata.

Ao comprar ações, por exemplo, a investidora passa a ter uma pequena participação societária na empresa escolhida. Os papéis podem valorizar ou desvalorizar, a depender dos resultados da empresa, e isso pode virar lucro ou prejuízo para o investidor. Uma aposta.

Renata optou então por comprar papéis da Petrobras, do Itaú Unibanco e da Embraer. Apesar de ter alocado parte da renda em algumas ações, a médica não pretende aumentar o percentual para investimentos de renda variável. "Ainda prefiro deixar o restante em opções de menos risco, mesmo como a poupança ou algum título do tesouro", diz.

Como elas encaram o risco?

Assim como Renata, as mulheres, de forma geral, não gostam de tomar muitos riscos, de acordo com a análise de Virginia Prestes, especialista em investimentos e professora de finanças da FAAP. Segundo ela, as pessoas do sexo feminino têm mais ponderação na hora de colocar o dinheiro em algo.

Virgínia Prestes dá aula de investimentos na FAAP: mulher é mais conservadora que homem - Arquivo Pessoal
Virgínia Prestes dá aula de investimentos na FAAP: mulher é mais conservadora que homem
Imagem: Arquivo Pessoal

"Por experiência, normalmente a cliente mulher é bem mais conservadora do que os homens. Elas querem entender melhor como aquilo funciona, são mais cautelosas na hora de investir, tem mais aversão ao risco do que os homens", afirma.

Para Prestes, ser mais cautelosa na opção de investimentos, contudo, não é uma característica necessariamente ruim.

"Embora as mulheres sejam mais conservadoras, por outro lado, em geral, elas se saem melhor nos investimentos pois estudam mais e vão mais a fundo nisso. Elas estudam antes de tomar as decisões de investimento", conta. Para ela, o perfil ideal do investidor seria ter o afinco das mulheres, com a ousadia dos homens.

O jeito de viver da bolsa

A chegada das mulheres em um ambiente predominantemente masculino não se restringe apenas a investimentos esporádicos e conselhos dos maridos.

Apesar de ainda raro, há também aquelas que vivem apenas disso, como é o caso de Natália Dalat, 27. Formada em gestão de tecnologia de informação, ela trabalhava em uma repartição pública em Goiânia até começar a se interessar por investimentos.

Natália, acompanhando o movimento da bolsa de valores: ganha dez vezes o que ganhava antes - Arquivo Pessoal
Natália, acompanhando o movimento da bolsa de valores: ganha dez vezes o que ganhava antes
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu comecei a investir com R$ 1 mil. Passei a estudar muito pela internet, fui me desenvolvendo e, com o tempo, fiquei apaixonada nisso. Resolvi que queria fazer isso e larguei meu emprego para viver dos lucros das operações", conta ela.

Desde então, passou a viver apenas de "trade" (operações de compra e venda de ações). "Eu ganhava R$ 1,6 mil por mês como assessora, mas trabalhava como se fosse secretária. Como era a única mulher, tinha até que atender o telefone quando tocava. Hoje eu ganho dez vezes mais", conta.

Natália diz que, apesar do bom retorno financeiro, a rotina para viver de mercado exige muito estudo e, principalmente, disciplina. Ela opera ações em "day trade" (quando a compra e a venda dos papéis ocorre no mesmo dia) e "swing trade" (quando a operação dura mais tempo) por meio de um uma ferramenta que conecta o investidor ao pregão de qualquer local, inclusive de casa, chamada "home broker".

"Eu acordo em torno das seis da manhã, monto meus gráficos [das ações], vejo notícias de macroeconomia e se vai ter algo relevante. Marco os pontos do dia anterior no gráfico para começar a operar e às 9h já olho as movimentações. Eu fico até 12h operando", conta ela que, nas tardes, se dedica ao próprio lazer.

Ela, porém, ainda é uma exceção em um mercado predominantemente masculino. "Na área de corretora, menos de dez por cento das profissionais são mulheres", afirma Virginia Prestes, que já atuou em grandes empresas do mercado financeiro.

"Inclusive no meu último emprego tinha cerca de 40 homens para duas mulheres, mas nunca sofri preconceito por ser mulher. Uma coisa que observei: quando eu estava na posição de gestora, eu gostaria de ter contratado mais mulheres, mas não recebia nem currículos para poder entrevistar e contratar, diz a especialista.

Dicas para você começar a investir

Quem deseja começar a investir em ações deve tomar alguns cuidados antes. A primeira dica, dada por especialistas ouvidos por Universa, é identificar o perfil de cada investidor. Isso vai mostrar o quanto de risco você aceita.

Assim, para começar a comprar e vender ações, é necessário fazer um cadastro em uma corretora (informando nome, profissão, endereço e entregando cópias de RG, CPF e comprovante de residência). Dessa forma, a corretora abre uma conta desse investidor na Bolsa. Cada instituição determina qual a quantia mínima para a abertura da conta.

Já para escolher quais ações comprar, o investidor pode contar com os analistas da corretora, que irão tirar dúvidas e ajudar a identificar quais são os bons investimentos, de acordo com cada perfil.

Outras opções são os fundos de ações, que possuem gestão profissional, já que muitos dos pequenos investidores não têm conhecimento suficiente para saber quais papéis escolher nem têm tempo para acompanhar de perto o andamento das ações.

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