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Quanto custa o convite para o baile da diversidade?

A estilista e consultora de imagem Michele Simões - Reprodução/Instagram
A estilista e consultora de imagem Michele Simões Imagem: Reprodução/Instagram

Michele Simões

Colaboração para Universa

10/06/2019 14h54

Quem são seus heróis? Fiz exatamente essa pergunta para mim mesma, logo após sair de mais um dos tão celebrados eventos sobre diversidade.

Não foi a primeira vez que me vi ali, no cantinho, sem jeito pra encaixar a cadeira de rodas em meio a uma fila de andantes, onde o meu corpo evidentemente destoava do todo.

Somos todos diferentes, eu sei, mas será que na dança da desconstrução, alguém pensou numa forma de incluir novos passos para aqueles que não dançam conforme a música, mas desejam, sim, fazer parte da festa?

Sou parte dos 45,6 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, e foi através da sequela de uma lesão medular ocasionada por um acidente de carro, que entendi na prática o que é ter que pedir permissão para existir.

Imagina, logo eu, que sempre cumpri o checklist do eurocentrismo: branca, magra, alta, uma verdadeira bailarina social. Eu estava bem confortável em minha bolha do corpo padrão; porém, dos meus altos 1,75m vi os olhos admirados despencarem da noite para o dia, carregados de compadecimento e melancolia. Afinal, agora eu estava lá embaixo, sentada em uma cadeira de rodas, o que pra muitos é o suficiente para que o veredito de infelicidade seja dado.

O que se sabe sobre a deficiência ainda é bem raso e pasteurizado. Entre o herói e o coitado, há muito venho questionando as razões pelas quais não avançamos a casa da superação, e talvez ali, sentada em mais uma fileira padrão, eu tenha tido uma resposta: Quem não é visto, não é lembrado!

"Quantas campanhas você já viu em que uma pessoa com deficiência fizesse parte da narrativa e não protagonizasse uma causa?" - Reprodução/Instagram
"Quantas campanhas você já viu em que uma pessoa com deficiência fizesse parte da narrativa e não protagonizasse uma causa?"
Imagem: Reprodução/Instagram

Onde estão essas pessoas? Quais papéis a sociedade permite que sejam assumidos por PCD's (pessoas com deficiência)? Quantas campanhas você já viu, em que uma pessoa com deficiência fizesse parte da narrativa e não protagonizasse uma causa? Quais produtos são pensados para esse público, além dos da ala hospitalar?

A velha falta de acessibilidade obviamente também é um dos grandes contribuintes para a perpetuação desse ciclo. Pasmem, outro dia fui a um evento sobre o tema, dentro de uma empresa que é tida como uma das maiores referências no assunto, e me deparei com um show de tecnologias revolucionárias sendo brilhantemente colocadas para uma plateia em que obrigatoriamente todos deveriam enxergar e ouvir da forma padrão. Apesar de trabalharem pela inclusão, colocá-la em prática ainda é um passo muito grande a ser dado fora do palco.

Entre os relevantes temas discutidos em grande parte desses eventos, tais como, racismo, homofobia, gordofobia, machismo e feminismo, a falta de qualquer menção ao capacitismo é ponto comum em quase todos. Aliás, você sabe o que é capacitismo? É a discriminação ou violências praticadas contra as pessoas com deficiência.

Num mundo sem espelhos, é difícil acreditar que podemos assumir novas posições. É complexo trilhar caminhos diferentes do que historicamente foram projetados para pessoas "atípicas" que ainda têm suas condições vistas como castigo ou benção divina, e que jamais serão percebidas de forma natural em territórios sociais; afinal, acredita-se ainda que elas estão fadadas ao isolamento.

Michele Simões: "Pensar diversidade dá trabalho" - Reprodução/Instagram
Michele Simões: "Pensar diversidade dá trabalho"
Imagem: Reprodução/Instagram

Talvez o discurso "nós nunca recebemos pessoas com deficiência no local, por isso nunca pensamos em acessibilidade" traduza bem parte da nossa cultura sobre o tema. No entanto, já passou da hora de questionar essa conduta e talvez a lógica Tostines possa ajudar a elucidar essa importante reflexão: "não fazemos acesso porque esse público não frequenta nosso estabelecimento ou eles não frequentam nosso estabelecimento por falta de acesso?".

Felizmente, esse mindset vem mudando, e boa parte por iniciativa de alguns PCD'S que assumiram seus corpos e resolveram protagonizar suas próprias histórias sem pedir autorização para o mundo; repercutindo assim, em projetos importantíssimos que fomentam essa quebra de estereótipos. Por isso, quando me vi parada naquela sala sem nenhuma referência lamentei e pensei, "por que eles não estão aqui hoje?".

Pensar diversidade dá trabalho, e entender que estamos em um período de reeducação pode ser um grande passo rumo à inclusão. Aliás, me coloco entre os que estão nesse mesmo processo e por isso busco experiências distantes da minha realidade.

Informar é preciso, mas, principalmente, mais do que produzir um especial de fim de ano com PCD's sorridentes, é preciso abrir novos espaços onde haja convivência, troca e perguntas que futuramente tornarão comum a inquietude do lugar sem acesso; um fator determinante nas escolhas de pessoas que, mesmo sem deficiência, serão anticapacitistas.

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