Topo

"Pensam que não transo": pessoas com deficiência falam sobre a vida sexual

Beatriz Bebiano, tradutora, é paraplégica - Arquivo pessoal
Beatriz Bebiano, tradutora, é paraplégica Imagem: Arquivo pessoal

Paulo Gratão

Colaboração para Universa

18/05/2019 04h00

A sexualidade das pessoas com deficiência é um tabu, tanto que precisou ser prevista em lei, mais precisamente no Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/15), também conhecido como Lei Brasileira da Inclusão. Um dos artigos diz que é atribuição do Estado, sociedade e família assegurar esse direito.

"As pessoas acham que eu não faço sexo", diz o psicólogo Neto Montebelo, 37, que é tetraplégico. Ele e outros PCDs enfrentam dificuldade em se relacionar, pois são vistos como figuras infantilizadas, objetos de fetiche ou que precisam de cuidados extremos.

"O desejo começa pela cabeça"

Há onze anos, Montebelo sofreu um acidente que lhe tirou os movimentos dos ombros para baixo. Ele precisou reaprender a viver com suas novas características. "Hoje, eu sou feliz de ser o que eu sou, como eu sou. Faço tudo que as pessoas fazem, mas de forma diferente, com adaptação".

O psicólogo Neto Montebelo é tetraplégico - Arquivo Pessoal
O psicólogo Neto Montebelo é tetraplégico
Imagem: Arquivo Pessoal

Os novos desafios de Neto não se limitaram à mobilidade. Todo o corpo passou a reagir a emoções e sensações de forma diferente. "As pessoas olham para mim e acham que eu não faço sexo, mas é porque elas têm o ato sexual apenas como o pênis, a ereção e a ejaculação. O desejo e a vontade de estar com alguém começa sempre na cabeça, independentemente da condição da pessoa, é com pensamento, com intenção, com toque, com beijo, com um carinho diferente", explica.

Neto conhece novas pessoas por aplicativos, redes sociais e gosta também da troca de olhares presenciais. "A primeira coisa que eu falo é que sou tetraplégico. Algumas pessoas continuam a conversa, mas muitas param por aí mesmo, por medo, preconceito ou por achar que não vão saber lidar".

"Eu também menstruo, tenho hormônios, sinto tesão"

Beatriz Bebiano: "Era sempre vista como a pessoa que merecia pena, que precisava de ajuda" - Arquivo pessoal
Beatriz Bebiano: "Era sempre vista como a pessoa que merecia pena, que precisava de ajuda"
Imagem: Arquivo pessoal

Faz quase dois anos que a tradutora Beatriz Bebiano, 23, namora, mas reclama de receber olhares de pena. Ela tem paraplegia e, por essa razão, tem dificuldade para caminhar e precisa do suporte de cadeiras de rodas ou andador. "Quando as pessoas veem meu namorado me empurrando na cadeira de rodas e me tratando como namorada, estranham e ficam questionando. Ele escuta que merece ser admirado por estar com uma pessoa como eu", comenta.

Antes do atual relacionamento, Beatriz tinha muita dificuldade em conhecer pessoas e se relacionar. Seu primeiro beijo foi aos 18. Quando mais nova, chegava a se comparar com as colegas. "Eu também menstruo, tenho hormônios, sinto tesão e me questionava por que nenhum rapaz se interessava por mim. Era sempre vista como a pessoa que merecia pena, que precisava de ajuda".

Quando completou a maioridade, Beatriz aderiu a aplicativos de relacionamento. Com fotos de rosto, apenas, ela engatava conversas com alguns rapazes. No entanto, o número de "matchs" caía consideravelmente quando postava fotos na cadeira de rodas.

"Um corpo que parece não ter sido feito para a sexualidade"

Ivone Gomes de Oliveira é criadora do blog Gata de Rodas - Arquivo Pessoal
Ivone Gomes de Oliveira é criadora do blog Gata de Rodas
Imagem: Arquivo Pessoal

Aos seis meses de idade, Ivone Gomes de Oliveira, 50, teve poliomielite. Por conta disso, ela conta que saiu do carrinho de bebê diretamente para a cadeira de rodas. A condição fez com que a sua vida afetiva e sexual sempre fosse motivo de estranhamento para as pessoas e ela compartilha suas experiências no blog Gata de Rodas. "As pessoas nos veem como infantilizados, um corpo que parece não ter sido feito para a sexualidade, para prazeres, como se não pudesse ser tocado", conta.

Sempre que é vista acompanhada, é comum que sua parceira seja identificada como uma cuidadora. "Mas, quando nos veem demonstrando carinho, as pessoas encaram. Tem gente que até vira o rosto e acha ridículo. Alguns chegam a comentar 'nossa, eu não sabia que existia LGBT com deficiência'. Esses pequenos comentários incomodam", comenta.

O flagra do último caso de Ivone, no carnaval, chegou a circular nas redes sociais. Nas imagens, ela beijava uma mulher trans. "Causou um alvoroço. As pessoas compartilhavam e diziam que 'além de ser deficiente, ainda fica com travesti'".

"Eu não sou o padrão de mulher trans"

A auxiliar administrativa Cássia Lohanna é portadora de nanismo - Arquivo Pessoal
A auxiliar administrativa Cássia Lohanna é portadora de nanismo
Imagem: Arquivo Pessoal

Desde que fez a transição, a auxiliar administrativa Cássia Lohanna, 29, que tem nanismo, conta que é muito difícil alguém vê-la como uma mulher, com desejos sexuais como qualquer outra. "Sou vista como uma ratinha, um brinquedinho".

No outro extremo, sua deficiência acaba atraindo fetichistas, que ela dispensa. "Já recebi proposta para fazer filmes, swing com casais, coisas que eu não quero".
Cássia acredita que o nanismo a exclui do "padrão" que se espera de uma mulher trans, o que faz com que ela seja rejeitada até mesmo dentro da comunidade LGBT. "Todo mundo espera que a trans seja uma mulher grande, siliconada, perfeita, que consiga olhar nos olhos. Eu não sou o padrão que se espera".

"Somos pessoas normais, com características diferentes"

Cleyton Ramos, assistente de recursos humanos, é deficiente auditivo - Arquivo Pessoal
Cleyton Ramos, assistente de recursos humanos, é deficiente auditivo
Imagem: Arquivo Pessoal

O assistente de recursos humanos, Cleyton Ramos, 32, é deficiente auditivo Como não é algo aparente, ele reluta em falar sobre essa característica nos primeiros encontros, pois as reações sempre vêm acompanhadas de perguntas como "preciso gritar para você ouvir?", "você está fazendo leitura labial?", "mas vai ser assim para sempre ou melhora?".

Cleyton faz parte de grupos em redes sociais direcionados a LGBTs com deficiência, que aproxima pessoas com características especiais e as ajuda na troca de experiências. Como sua limitação auditiva não é detectável em fotos ou à primeira vista, ele não tem dificuldade de conhecer pessoas, mas não está imune a reações desconfortáveis, que vão de olhares de pena à rejeição. "Somos pessoas normais, com características diferentes. Como qualquer outra pessoa normal que tem suas características próprias e únicas".

Diversidade