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Carreira e finanças

Elas vão para Stanford estudar tecnologia: "Ter só meninos não é natural"

Lara Franciulli, 18, começou a incentivar outras meninas a entrarem no mercado de TI após participar do projeto Mind the Gap, do Google - Arquivo Pessoal
Lara Franciulli, 18, começou a incentivar outras meninas a entrarem no mercado de TI após participar do projeto Mind the Gap, do Google Imagem: Arquivo Pessoal

Natália Eiras

Da Universa

05/05/2019 04h00

Quando descobriu que a responsável pela primeira foto de um buraco negro era uma mulher, Katie Bouman, Lara Franciulli, 18, ficou emocionada. "Ela parecia uma criança de tão animada. Foi muito legal ver uma garota que nem eu fazendo algo tão importante. Eu me vi ali", fala à Universa. A jovem de São Paulo (SP) está com matrícula feita em Stanford, universidade dos EUA onde estudará ciência da computação a partir de setembro. Ela pretende, um dia, ser uma referência para outras garotas como Katie se tornou para ela. "Ter apenas meninos nesse setor não é algo natural", diz.

No entanto, nem sempre Lara, veterana em Olímpiadas de Matemática e Informática, estranhou a falta de mulheres em ambientes de exatas. "Não via como algo ruim", afirma. Ela percebeu que costumava ser uma das poucas garotas nessas competições quando participou do projeto Mind the Gap, iniciativa do Google para incentivar meninas a entrarem para o mercado de Tecnologia da Informação. Em 2017, 100 adolescentes estiveram na sede do Google no Brasil, em Belo Horizonte (MG), para ver palestras sobre carreiras de tecnologia e conhecer líderes mulheres que poderiam ser suas referências.

"Eu me senti realmente acolhida, porque olhava para o lado e tinha outras meninas com quem me identificar", fala. Na semana em que passaram juntas, elas trocaram experiências sobre informática, reflexões sobre carreira e cantaram músicas de "High School Musical". "Não que o meus amigos homens não sejam legais, mas foi uma oportunidade para entender como eu ficava confortável em um ambiente com mais meninas. Foi quando decidi que queria fazer engenharia da computação."

De acordo com Camila Matsubara, engenheira de software do Google e uma das responsáveis pelo Mind the Gap, a decisão de trazer o projeto para o país foi, em parte, bastante pessoal. "Eu penso que, se quando eu fosse adolescente tivesse um projeto desses, teria sido mais fácil trabalhar na minha área e teria sido mais confiante desde cedo", diz. A insegurança é, segundo Camila, o principal obstáculo dessas meninas. "Quando são crianças, as garotas absorvem que o mundo das exatas não é para elas. Em um dos dias, elas tinham que fazer um exercício de programação. É muito marcante ver o rosto delas se iluminando quando elas conseguiam resolver o desafio."

Amigas e (ex-)rivais

Beatriz Cunha, 18, quis ser a primeira garota a ir para etapa internacional das Olimpíadas de Informática - Arquivo Pessoal
Beatriz Cunha, 18, quis ser a primeira garota a ir para etapa internacional das Olimpíadas de Informática
Imagem: Arquivo Pessoal

Lara conheceu, no Mind the Gap, a futura colega de profissão e de universidade Beatriz Cunha, 18, de Natal (RN), que também está com as malas prontas para ir para Stanford. Antes disso, elas podiam ser consideradas "rivais", já que costumavam se encontrar nas provas das Olimpíadas de Informática. E, para Beatriz, vencer a competição era um desafio pessoal. "Um dia, estava vendo o site da etapa internacional das Olimpíadas e percebi que apenas meninos haviam competido pelo Brasil. Decidi que queria ser a primeira garota a representar o meu país", fala.

No entanto, Beatriz começou a sentir o peso da responsabilidade de querer ser pioneira. "Todo mundo competia por si, eu já estava competindo representando toda uma parcela da população". A resolução quase a afastou de colegas como Lara. "Porém, quando estávamos nos preparando para uma das etapas, ela me chamou para treinar com ela. Aquilo foi muito significante para mim."

Antes de ficar amiga de outras meninas que estudavam exatas, Beatriz lembra que "sofreu" por estar rodeada de meninos. "Uma vez saí de uma prova triste porque achei que tinha ido mal e nenhum deles teve paciência de me consolar", diz, dando risada. "Também já precisei de um absorvente e pensei em pedir para alguém da minha sala. Estava, no entanto, na mentoria de matemática e, quando olhei para o lado, não tinha nenhuma menina, apenas garotos. Tive que sair da sala e procurar alguma funcionária para pedir um absorvente." Por isso, ela diz que a companhia de mulheres melhorou o dia a dia dela. "Foi aconchegante. Deu esperança."

Na volta

Lara ficou tão empolgada com o que viu em Mind the Gap e em conhecer garotas como Beatriz que se tornou porta-voz sobre o assunto. Ela já palestrou sobre como é ser uma garota no ambiente de TI em eventos da Uber em parceria com o projeto Força Meninas e participou de curso de capacitação de agência da ONU. Por isso, por mais que esteja indo para os EUA, ela espera voltar ao Brasil para abrir portas para outras garotas no ambiente de exatas em sua terra natal. "O meu objetivo é criar uma startup de tecnologia focada em educação. Como já tenho um trabalho com crianças carentes, quero criar alguma aplicação para que elas tenham mais acesso à educação. Ainda temos muitos obstáculos pela frente", afirma.

Integrante de um grupo de pesquisa da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Beatriz, por sua vez, quer aplicar inteligência virtual na área de saúde. "Pretendo criar novas soluções usando IA para tratamento de fobias sociais", diz. No fim das contas, a jovem de 18 anos não conseguiu ir para a Olimpíada Internacional, mas foi a primeira menina a se classificar para a Olimpíada Iberoamericana de Informática. "E incentivei uma colega mais nova a competir também e inspirá-la já valeu a pena para mim."