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Carreira e finanças

Faxineiras, garis... mulheres em profissões "invisíveis" falam o que ouvem

Carolina Prado e Simone Cunha 

Colaboração para Universa

21/02/2019 04h00

Ter um trabalho digno é o sonho de muita gente, porém, algumas funções, mesmo consideradas essenciais, ainda sofrem o menosprezo da sociedade. A seguir, mulheres discriminadas por causa da profissão contam um pouco de sua rotina. E saiba o que as especialistas falam para melhorar essa situação:

"Estou deixando sujo para ajudar a manter o seu emprego" 

"Estou feliz com o meu trabalho, mas é preciso ter paciência, porque as pessoas são bastante grosseiras. A gente está limpando e elas continuam sujando e ainda dizem que, agindo assim, estão garantindo o meu emprego. Certa vez, enquanto eu varria, uma pessoa passou e jogou o cigarro aceso no carrinho. É claro que não demorou muito e começou a pegar fogo. Levei um susto, podia ter me machucado, mas o responsável pelo ato, provavelmente, nem percebeu que havia um ser humano do outro lado."  
Maria Zilda dos Santos da Silva, 50, é varredora há 11 anos 

O que diz a especialista: "Esse tipo de postura mostra que estamos em uma sociedade ainda extremamente preconceituosa, desinformada e individualista", diz Miryam Cristina Mazieiro Vergueiro da Silva, psicóloga do Trabalho do Instituto de Psiquiatria - IPq/HCFMUSP. De acordo com Miryam, para combater essa visão equivocada, há necessidade de refletir sobre a maneira que cada um se relaciona com esses profissionais. Também é essencial se policiar para não cometer o mesmo erro.

"Quando some alguma coisa, sempre suspeitam de quem faz a limpeza"

Lílian é faxineira há 40 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lílian é faxineira há 40 anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Existe muito preconceito com o meu trabalho, como se o fato de ser faxineira me fizesse menos honesta. Certa vez, trabalhei em uma empresa e sumiu um celular. Fui chamada pelo gerente e ele me acusou. Fiquei ofendida; percebi que fui julgada por ser simples, mas não pego nada de ninguém." 
Lilian Galvão Novaes, 56, é faxineira há mais de 40 anos

O que diz a especialista: quem pratica esse tipo de ato, infelizmente, não tem a dimensão do mal que pode causar a outra pessoa. "Quando esses acontecimentos se tornam recorrentes, podem até provocar adoecimento mental, depressão, por exemplo. E, caso a pessoa se sinta desvalorizada; pode acontecer de ficar ainda mais difícil a superação do sofrimento." 

"Eu entro em um comércio e já dizem: 'não tenho nada para dar'" 

Eliza trabalha varrendo as ruas há 7 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Eliza trabalha varrendo as ruas há 7 anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Existe morador que acha que a minha obrigação é limpar a calçada da casa dele, como se eu fosse empregada. No comércio, muita gente acha que sou pedinte; eu entro no local para comprar uma água e já falam: 'Não tenho nada para dar'. As pessoas veem a nossa profissão como se fosse algo inferior; nos acham incapazes de ter algo melhor."   
Eliza Sebastiana de Oliveira, 42, é varredora há 7 anos 

O que diz a especialista: muitas vezes, o outro é visto como um mero instrumento de satisfação de necessidades pessoais. "Além disso, há um julgamento pela aparência, pela ocupação, completamente equivocado, contribuindo para que a pessoa passe por um constrangimento desnecessário", avalia. 

"Acham que é um lixão e não existem regras"

Úrsula trabalha com orientadora ambiental - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Úrsula trabalha com orientadora ambiental
Imagem: Arquivo pessoal

"Meu trabalho consiste em revitalizar áreas que se tornaram pontos de despejo de entulho. Após a limpeza desse espaço, planto flores, coloco pneus e paletes com mensagens motivacionais. Tem morador que considera perda de tempo; não enxerga como melhoria. Dizem que de nada adianta; que a gente fica pintando pneu à toa. Também fico no ecoponto, local destinado à entrega de entulho, e é preciso ter jogo de cintura, porque acham que podem descartar qualquer coisa ali, sem entender que, naquele lugar, tem regras." 
Úrsula Renata Gonzaga, 31, trabalha como orientadora ambiental há 5 anos 

O que diz a especialista: para evitar que situações iguais a essa se repitam, é necessário investir em informação a respeito das diversas profissões e da relevância que têm para a manutenção da segurança, da qualidade de vida, da saúde de toda a sociedade. "Os que atuam nessas funções, por outro lado, precisam se conscientizar da importância dessas atividades profissionais, para não se deixar abater pela falta de motivação."

"Ninguém mandou não estudar"

Elisabete é varredora há 6 anos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Elisabeth é varredora há 6 anos
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu acho absurdo quando alguém me diz isso, porque eu não considero o meu trabalho ruim. Enxergam a gente como analfabeto, mas, para conquistar essa vaga, prestei, até concurso. Eu sei que o meu trabalho não é reconhecido e, por isso, tem pessoas que olham para mim com desprezo, como se eu fosse uma coitada. Se não fiz faculdade é porque ainda não consegui, mas é dessa profissão que tiro o meu sustento e o dos meus filhos, e me orgulho disso. Se a gente parar, quero ver como a cidade vai ficar. Talvez as pessoas aprendam a ter mais respeito."  
Elisabeth Martins da Silva, 30, é varredora há 6 anos 

O que diz a especialista: existe a desvalorização de alguns tipos de trabalhos, e isso é uma construção social, que precisa ser combatida. "Em contraponto, vivenciamos uma grande desordem quando esse tipo de função, ou similar, não é executada, a cidade se transforma em um verdadeiro caos."
 

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