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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nova ministra de Relações Exteriores alemã é ambientalista e anti-Bolsonaro

Annalena Baerbock: pró-meio ambiente e crítica às políticas do governo brasileiro - Dominik Butzmann/Reprodução/Instagram
Annalena Baerbock: pró-meio ambiente e crítica às políticas do governo brasileiro Imagem: Dominik Butzmann/Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do Universa

06/12/2021 10h13

Angela Merkel, chanceler da Alemanha por 16 anos, está se aposentando. Mas a Alemanha já tem uma outra mulher em forte posição de poder no novo governo, que deve assumir essa semana. Annalena Baerbock, de 40 anos, do Partido Verde, confirmou que assumirá como ministra das Relação Exteriores do país. Ecologista e feminista, é a primeira mulher a ocupar o cargo em uma das nações mais importantes da Europa.

Essa é uma ótima notícia para ativistas climáticos, dos direitos humanos e feministas, já que a vice-chanceler é comprometida com essas causas. E é também uma péssima notícia para o presidente do Brasil Jair Bolsonaro e seu governo. Annalena já disse que quer transformar a pasta em um ministério "da proteção climática global". E, no caso do presidente do Brasil, ela está de olho nele faz tempo.

Quando Bolsonaro foi eleito, em 2018, Annalena, então parlamentar, escreveu no Twitter: "Que resultado ruim! Como europeus, nós agora temos que fazer de tudo para dar suporte para aqueles que lutam pelos direitos humanos e pela proteção climática. E o tema da responsabilidade corporativa deve estar no topo da agenda de uma política externa baseada nos direitos humanos."

Baerbock não sabia, na época, que seria Ministra das Relações Exteriores. Mas ela sempre olhou de perto para o que acontece no Brasil sob o governo de Bolsonaro. E sempre cobrou medidas fortes contra o desmatamento na Amazônia. Em 2019, quando os incêndios na floresta viraram escândalo em todo mundo, ela sugeriu que o Brasil sofresse um boicote e que a Europa interrompesse as importações do país. "Essa seria uma pressão massiva, inclusive para o Bolsonaro", disse em um programa de TV.

Ela não deve abrir mão de suas convicções. Na verdade, cupa a posição justamente para mostrar que o novo governo — formado por uma coalizão do SPD (Social Democrata), Grünen (verdes) e o FDP (liberal) — está comprometido com a proteção climática. Essa é uma pauta importante no país. E é por isso mesmo que o Partido Verde cresceu nas últimas eleições. Anaelena foi a candidata a chanceler pelos verdes e ficou em terceiro lugar. Hoje, além de futura ministra, é uma das "caras" do novo governo e uma liderança importante na Alemanha.

Uma das críticas dos ativistas climáticos é que o assunto sempre fica no mundo das promessas feitas por políticos e, na realidade, pouco é feito. Annalena quer mudar isso e fazer mudanças práticas. Antes da Conferência Climática da ONU (Organização das Nações Unidas), realizada no começo de novembro, ela pediu soluções concretas. "Temos que colocar em prática a eliminação gradual do carvão, proteger as florestas e apostar nas indústrias que são neutras para o clima. Isso tem que ser feito agora e não apenas prometido ", disse.

A autoridade que sugere essas medidas fortes e que hoje tem poder para, de fato, a executá-las, não obedece aos clichês comumente associados a mulheres na política. Ela é uma mãe de crianças pequenas, que gosta de usar jaqueta de couro e é fã de bandas de rock.

Provavelmente não vai ser fácil para presidentes misóginos aceitarem que uma mulher assim é uma pessoa séria (ela é formada em Ciência Política e Direito) e que tem poder real nas negociações globais. Mas ela tem esse poder. E estamos falando de uma das maiores economias do mundo. Eles vão ter que aceitar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL