PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em fala mentirosa, Zema evoca o machismo como metáfora política absurda

Governador mineiro Romeu Zema comparou colega de partido a "mulher obecada pelo ex" - Reprodução/YouTube
Governador mineiro Romeu Zema comparou colega de partido a 'mulher obecada pelo ex' Imagem: Reprodução/YouTube
Conteúdo exclusivo para assinantes
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

28/09/2021 14h13

"Está havendo, assim, uma obsessão e quando alguém fica obcecado fica cego. Nós comentamos como exemplo, eu sei que isso acontece tanto com homens quanto com mulheres, mas um percentual mais elevado com mulheres é a mulher que separa e passa a ser a obsessão da vida dela destruir, atacar o ex-cônjuge e parece que no caso do partido Novo a derrota até hoje não foi digerida."

Essa pérola da filosofia machista de botequim foi dita em uma entrevista não por um homem qualquer tentando impressionar os amigos na competição de quem é o mais tosco, mas pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Ele usou essa metáfora bizarra e mentirosa para tentar explicar uma desavença entre ele e João Amoêdo, da mesma legenda.

Essa é uma briga entre homens com a qual não temos nada a ver. Afinal, nós, mulheres, somos minoria na política, que é um ambiente dominado predominantemente por homens brancos. Mas os políticos adoram lembrar de nós e usar metáforas com relacionamentos. Essa, sim, é uma obsessão.

Além da metáfora de Zema ser absurda (ele se referia a ataques que diz receber do partido), ela é mentirosa. Não, governador, não somos nós, as mulheres, que ficamos obcecadas na maioria das vezes. Talvez isso seja um desejo do senhor, já que, segundo Freud, o desejo se manifesta também nas metáforas, nas piadas. Mas não é assim que acontece, não.

Infelizmente, homens têm tanta dificuldade de aceitar o fim de relacionamentos que, em alguns casos, matam as suas ex-parceiras às vezes anos após o término. Sim, é terrível. Mas é fato. E, ao contrário do governador, não falo isso tirando a informação de vozes da minha cabeça.

Em 2020, 1.350 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, o que equivale dizer que uma mulher é assassinada por "rações da condição de sexo feminino" a cada seis horas e meia. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

De acordo com o levantamento, 90% dos assassinos são ex-maridos ou ex-namorados. Esse, claro, é um assunto seríssimo, uma epidemia. E algo que todos os governadores deveriam saber e combater.

O que existe é o "mito da mulher vingativa", algo muito mostrado no cinema e nas novelas. Nos anos 90, um filme chamado "Atração Fatal" fez muito sucesso. Nele, uma mulher interpretada por Glenn Close perseguia um homem com quem teve um caso (ô, coitadoi!) e chegava a matar o coelhinho da sua filha. Talvez o governador tenha assistido ao longa.

Na mesma fala em que diz que mulheres são obcecadas, o governador deu a entender também que, depois de um fim, ficamos "remoendo". Como se nós, mulheres, ficássemos o resto da vida sofrendo porque fomos deixadas por eles, esses "maravilhosos" "insubstituíveis"! (contém ironia).

A autoestima masculina é inacreditável. E a capacidade de ser machista ao falar dos mais variados assuntos, também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL