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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Linda Evangelista: sequelas físicas e mentais da pressão antienvelhecimento

BBC/Getty Images
Imagem: BBC/Getty Images
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

28/09/2021 04h00

Linda Evangelista é uma das primeiras supermodelos da história e já foi considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo. Linda, de 56 anos, nos últimos dias, tem aparecido na mídia por outro motivo, ela vem sendo chamada de "a modelo que ficou desfigurada".

A história tem sido contada em tom de filme de terror. Nos veículos sensacionalistas, fotos de Linda estilo "antes e depois" recebem lugar de destaque, para que todos chequem que ela realmente está "uma monstra", "nossa, ela está irreconhecível!" - dizem os comentários. A aparência da modelo passou a ocupar as manchetes desde a semana passada, depois que Linda falou abertamente pela primeira vez que sofria com sequelas permanentes de um procedimento estético.

Ela explicou, em sua conta no Instagram, que ficou permanentemente desfigurada depois de realizar uma criolipólise. A supermodelo disse que desenvolveu uma "hiperplasia adiposa paradoxal ou HAP". A sequela fez com que Linda realizasse várias cirurgias, perdesse trabalhos e entrasse em depressão. Ela está reclusa há cinco anos.

Se todas nós temos nossa aparência julgada, imagina aquelas que são conhecidas pela beleza? Nesse caso, cada milímetro de seus rostos é analisado em detalhes.

O drama de Linda expõe como são duras as batalhas que mulheres têm com a própria aparência conforme envelhecem. Aceitar o envelhecimento é ainda mais terrível, claro, para as mulheres que são consideradas ícones de beleza.

E, na maioria das vezes, elas são criticadas por não serem as mesmas que eram há 20 anos. Como se isso fosse possível.

As opções para aquelas que não conseguem envelhecer parecendo extremamente jovens, caso de Jennifer Aniston ou Jennifer Lopez, para citar um exemplo, não são muitas. As que não fazem plásticas correm o risco de serem chamadas de "acabadas" e "irreconhecíveis". As que fazem muitos procedimentos, de "plastificadas". E, ainda pode dar errado, como no caso de Linda, que passará os próximos anos sendo chamada de "deformada".

Supermodelos são vítimas de sociedade etarista

Uma boa explicação para esse drama vem de outra modelo que parece também sofrer muito com o envelhecimento: supermodelo tcheca Paulina Porizkova, de 56 anos, a colega de passarela de Evangelista.

"Uma mulher fica desfigurada tentando se parecer com a maneira que vocês querem que ela se pareça? Desde sempre nós mulheres aprendemos que nossa aparência era a nossa coisa mais valiosa. Como vocês esperam que a gente não se importe?", escreveu, em seu perfil no Instagram, depois do desabafo de Linda.

Paulina é outra que parece, como Linda, sofrer os efeitos da sociedade etarista na própria pele. A supermodelo usa as redes sociais para, agora, exibir sua excelente forma física e narrar suas dietas restritivas. Mas, em outros momentos, se filma aos prantos, exibindo uma fragilidade extrema e desabafa sobre as dores de envelhecimento.

As duas, infelizmente, não serão as últimas vítimas de uma sociedade que exige que mulheres não envelheçam. Muitas, infelizmente, ainda sentirão literalmente na pele o quanto esses ideais de eterna juventude são massacrantes. Algumas com sequelas para sempre.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL