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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Primeira-dama dos EUA é atacada por visual "sexy" aos 69 anos. Até quando?

A professora e primeira-dama americana Jill Biden: a saia e a meia-calça escolhidas por ela virou motivo de julgamentos nas redes sociais - Mandel Ngan/AFP
A professora e primeira-dama americana Jill Biden: a saia e a meia-calça escolhidas por ela virou motivo de julgamentos nas redes sociais Imagem: Mandel Ngan/AFP
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

08/04/2021 14h13

A primeira-dama dos Estados Unidos, a professora Jill Biden, de 69 anos, desceu de um avião usando um modelito preto: saia com um blazer, meia-calça e bota de salto alto. Até aí, nada demais. E isso nem seria notícia ou tema desse blog. Acontece que a roupa de Jill virou escândalo esta semana, tema de debate e de uma enxurrada de piadas sexistas e etaristas nas redes sociais.

Jill estaria "velha" para usar uma roupa que, segundo os sommeliers de bons modos femininos, seria "sexy demais". O que incomodou: a saia era muito curta. E (escândalo!) a meia era arrastão, rendada. Sim, é surpreendente o quanto uma mulher é analisada e julgada. Segundo os críticos, o maior problema era a sua meia. "Como uma mulher de 69 anos usa uma coisa dessas?" "Quem ela pensa que é?", disseram por aí. Em montagens de fotos maldosas, a primeira-dama é comparada, nas redes sociais, com Madonna (que também tem o direito de usar o que bem entender, e ser comparada com a popstar para mim é elogio) e com personagens de histórias em quadrinho.

Sim, mulheres são criticadas até pela escolha de meia-calça que fazem. E tudo piora quando você envelhece.

A conversa sobre o que uma mulher pode ou não usar depois de uma certa idade é antiga. E não, nunca existiu esse tipo de manual para homens. Até alguns anos atrás, era comum que revistas femininas fizessem listas de 'o que vestir depois dos 60', sobre os melhores cortes de cabelo para uma mulher na meia idade e por aí vai

Hoje as coisas avançaram, as mesmas revistas publicam mulheres de 80 anos em suas capas, como Jane Fonda. Mas, mesmo assim, é só uma mulher de destaque usar algo que esses sommeliers não aprovam para que todo preconceito venha à tona.

Críticas as roupas e aparência de primeiras-damas também não são novidade. Principalmente se elas não são novinhas. Caso de Brigitte Macron, primeira-dama da França, que ousa ser mais velha que o marido - no geral é o contrário, os presidentes costumam ser casados com mulheres mais novas. Michelle Obama, considerada um símbolo de elegância no mundo todo, já foi criticada por usar short (!) e por mostrar os braços na primeira foto oficial que fez como primeira-dama.

Qualquer mulher pode usar o que bem entender. Mas vale lembrar de outras características mais importantes de Jill, muito mais relevantes que seu gosto para meias e saias. A primeira dama é educadora, com dois mestrados e um doutorado. Ela também é uma mãe, avó e pretende ser uma primeira-dama atuante.

E isso é um bom exemplo do tratamento que ainda é dirigido a mulheres. Podemos ter um currículo brilhante, que ainda vamos ser julgadas pelas escolhas que fazemos para nos vestir.

Tomara que a primeira-dama não mude seu estilo por causa das críticas. E que nenhuma de nós deixe de usar algo que goste porque "não temos idade para isso". A gente tem idade para o que a gente quiser.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL