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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que a separação de Gabriela Pugliesi ensina sobre positividade tóxica

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

22/02/2021 15h31

Terminar um relacionamento não é fácil. Ainda mais quando é um casamento, com casa e planos compartilhados. A blogueira e influenciadora Gabriela Pugliesi é mais uma das pessoas a passar por essa situação difícil. Ela anunciou nessa segunda-feira, 22, que se separou do marido, o modelo e também influenciador Erasmo Viana. Os dois eram casados desde 2017 e se relacionam há seis anos.

Pugliesi compartilha quase tudo da sua vida em redes sociais. Mostrar seu estilo de vida é o trabalho dela. Por isso, é normal que ela tenha vindo até os seus seguidores no Instagram falar sobre o término. A blogueira também é famosa por ser "good vibes" e pregar a positividade em todas as situações.

Pois ao anunciar o término, Pugliesi elevou a "positividade" a outro nível. No vídeo em que fala sobre o término, a blogueira disse que superou o fim em três dias. "Fiquei na merda dois dias, depois disso já levantei a minha cabeça e entendi tudo. Agradeci a Deus porque é assim que é", contou a influenciadora.

Se superou rápido, bom para Pugliesi, sério. Mas e quem sofre há um ano por causa do fim de um relacionamento? Vai se sentir um lixo?

Desculpem, mas a maioria de nós não é campeã em tudo, como diz a poesia, e sofre muitos longos meses quando termina um relacionamento. E quanto a entender tudo, sinceramente, eu, por exemplo, ainda não entendi fins de relacionamentos que aconteceram há 20 anos! Acho que é assim com a maioria das pessoas, não?

No vídeo, Pugliesi falou também que trata tudo como bênção, sempre vendo o lado positivo.

Poxa, agora os pregadores da positividade tóxica vão tentar colocar 'good vibes' e gratidão até a sagrada dor de cotovelo? Ficar mal, sentir raiva, se sentir injustiçado, tudo isso faz parte. E não, não é possível ser grato a tudo o tempo todo. Pelo menos para a maioria de nós.

Pugliesi fala na sua mensagem que quer ajudar seguidoras que passam pela mesma situação. Não estou, de forma alguma, duvidando de suas boas intenções. O que complica é a ideia de que a positividade deve estar presente em todos os momentos da vida, o que pode criar cobrança entre seus seguidores.

Se você estiver terminando um relacionamento, não pense que você tem que superar logo porque "é assim". E na maioria das vezes não é possível se sentir grato na hora do término, muito pelo contrário. O que mais sentimos nessa hora é raiva, rancor e outros sentimentos que não são nobres, mas fazem parte da vida.

Da mesma maneira que não é uma boa ideia seguir dietas que pregam "emagreça em três dias", não caia nessa de achar que agora você tem que "superar um fim em três dias"

Na maioria das vezes, para nós mortais, não é assim. E tudo bem, não tem problema. Se você depois de um fim se descabela, chora deitada, liga para os amigos de madrugada, você é normal. Até a positividade tem limite.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL