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Paris Hilton diz que fingia ser burra. Vamos falar de feminilidade tóxica?

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

18/09/2020 04h00

Essa semana, a modelo Paris Hilton deu uma declaração bizarra: contou que a voz que ela usava, e que virou uma das suas marcas, toda delicada, fininha, sussurrada, não era sua voz de verdade. Mas como assim? Isso mesmo! Em vídeos que chocaram seus fãs, ela aparece com outra voz, praticamente uma outra pessoa. A Paris de 2020 fala normalmente, não sussurra como se fosse uma adolescente de 14 anos meiguinha.

O que leva uma pessoa a fingir que tem outra voz? Segundo Paris, tudo foi de propósito. Ela criou uma personagem loira, delicada, e propositalmente burra para fazer sucesso. E fez - e muito.

"Neste tempo todo, estive interpretando uma personagem, então o mundo não sabe quem eu realmente sou. A verdadeira eu é alguém brilhante, na verdade. Não sou uma 'loira burra', apenas sou boa em fingir que sou uma ", disse Paris Hilton.

É engraçado? Muito. Mas também não deixa de ser triste. Uma mulher, para fazer sucesso, fingir que é burra?

Já entrevistei a Paris uma vez, há uns dez anos, em uma edição do São Paulo Fashion Week, em São Paulo. A Paris com quem conversei por alguns minutos foi educada, mas usou de todo o tempo essa voz miada, quase um sussurro. Ela não era nada parecida com essa garota que apareceu agora falando como? uma mulher adulta.

Todo o personagem Paris Hilton era moldado no que podemos chamar de "feminilidade tóxica". Ela só usava rosa, fazia poses com a mão na boca e falava como se fosse uma criança indefesa. Ela era praticamente uma Barbie animada. E é isso mesmo, ao criar a tal personagem, ela se colocou como uma espécie de mulher perfeita, aquela dos sonhos dos homens machistas. Essa mulher de feminilidade tóxica é tão feminina que parece ser envolta em uma aura pink. Mas, o pior de tudo: ela é burra e indefesa. Ou melhor, não é, mas finge que é.

Depois de rir sobre o caso Paris com uma amiga, concluímos que a "mulher delicada indefesa" é um personagem real e de carne e osso em nossas vidas. Não é só a Paris. Na vida real, lembramos de garotas da escola, do trabalho, que também usavam esse charminho. Se fazendo de fracas e indefesas, recebiam tratamento especial de professores e de garotos. Nós, que nunca fingimos ou conseguiríamos fazer o teatrinho da fraca e delicada, continuávamos nos ferrando.

Lembrei de um texto icônico de Courtney Love (que nunca se fez de burra), no qual ela fala sobre as garotas más (grupo no qual se encaixa) e das "garotas boazinhas". "Garotas boazinhas roubam os namorados das garotas más. Nós, garotas más, transamos sim com os namorados de vocês, mas ficamos nos sentindo um lixo depois." Courtney coloca aí um conflito que existe, sim, desde que estamos na escola. Garotas boazinhas, nesse caso, pelo menos quando eu era adolescente, eram as que se davam bem. Nós, "as más", nos ferrávamos. Claro que nós nem éramos más. O que não sabíamos era fazer os tais jogos de feminilidade fofinha. Paris, segundo a lógica de Courtney, passou a vida toda fingindo ser o ícone de todas as garotas boazinhas.

Nós, mulheres, fomos criadas e fazemos parte de uma sociedade machista. Por isso, por mais que ache bizarro, consigo entender porque Paris e outras garotas se fingem de burras e delicadas. Esse é o modelo que muitos querem. Prova disso: a personagem criada por Paris fez sucesso.

As coisas estão, sim, mudando. As meninas são cada vez mais corajosas, não depilam se não querem, são mil vezes mais livres do que a gente era na minha geração. Se fingir de burra, talvez, tenha saído de moda. Vai ver foi por isso que Paris (que realmente provou que de burra não tem nada) desistiu da personagem. Talvez se fazer de bobinha não cole mais. Que bom!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL