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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A história do vestido vermelho e outros segredos da minha avó

Felicidade Gomes (pra mim, vó Dade), 84 - Acervo pessoal
Felicidade Gomes (pra mim, vó Dade), 84 Imagem: Acervo pessoal
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

22/09/2021 04h00

É curioso como as histórias que a gente acha que conhece bem ganham novos contornos ao longo do tempo. Sempre acreditei que o meu avô paterno tinha sido um bom pai e marido, por exemplo. Mas à medida que cresci, descobri que as coisas não tinham sido exatamente assim.

Ele era representante comercial e faleceu em um acidente de carro durante uma viagem de trabalho. Na época, ele e minha avó estavam casados há seis anos e tinham três filhos pequenos. Durante décadas minha avó cultivou a imagem de um homem dedicado e responsável. Um dia, revirando as gavetas do passado, ela se sentiu à vontade pra me contar uma outra história.

Segredos de um casamento

Costureira, ela produziu um distinto vestido vermelho em sua Singer. Tomou um banho demorado, fez uma maquiagem marcante e esperou pelo meu avô na sala de casa, num entardecer morno de 1969. Ele deveria chegar por volta das 17h30.
Naquele dia, diferente de todos os outros, minha avó o aguardava para uma conversa definitiva: ou o comportamento dele mudaria radicalmente ou ela pediria o divórcio.

Não houve tempo. No início daquela noite, quem chegou foi o chefe do meu avô, pesaroso, lamentando a fatalidade.

Décadas de silêncio

Eu já tinha mais de 30 anos quando minha avó contou, em tom de desabafo, que meu avô passava mais tempo na rua que em casa. E quando em casa, agia como se não estivesse. Não era um pai, nem um marido participativo e, há alguns meses, estava ainda mais ausente. À boca miúda, os vizinhos comentavam sobre uma amante que ele teria do outro lado da cidade.

"Ele já não me procurava mais"

Conheci os detalhes dessa história a conta-gotas, e essa parte foi a mais recente. Eu e minha avó sempre fomos muito próximas, mas nunca tínhamos conversado de forma tão aberta sobre sexo. A frase "ele já não me procurava mais" ecoou por semanas na minha cabeça. Não por ser uma revelação absurda, porque não é, mas pela naturalidade fria e resignada com que ela tocou no assunto.

Será que a minha avó já teve um orgasmo? É o tipo de pergunta que eu queria fazer, mas não tive coragem.

Minha avó recebeu uma educação extremamente rígida e machista. Em casa, a opinião de seu pai era incontestável. Filhos não tinham voz, apenas cumpriam ordens. Conversas sobre sexo, então, eram inimagináveis.

Ela se casou aos 27, ficou viúva aos 33 e nunca mais se envolveu romanticamente com outra pessoa.

Por todo esse contexto, quando me entendi lésbica, aos 16, demorei quase uma década para contar pra minha avó, por temer uma reação negativa. Surpreendentemente, o que aconteceu foi o oposto. Ela não só entendeu como me apoiou em todas as decisões que tomei desde então: do meu casamento ao divórcio, à escolha de não ter filhos.

Hoje, aos 84 anos, minha avó e sua máquina de costura - a mesma que cerziu o vestido vermelho - seguem ativas e inseparáveis: durante o pico de pandemia fabricaram, voluntariamente, dezenas de jalecos para profissionais de saúde.

Não há, no mundo, quem me inspire mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL