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Morango

REPORTAGEM

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Criada na igreja evangélica, ela virou referência em arte erótica lésbica

Gessica (à direita) e a namorada, a psicóloga Liane Beltran - Acervo pessoal
Gessica (à direita) e a namorada, a psicóloga Liane Beltran Imagem: Acervo pessoal
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

https://universa.uol.com.br/colunas/morango

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

26/08/2021 04h00

Formada em artes visuais pela Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, Gessica Ferreira, 31, é uma das principais referências do país em arte erótica lésbica. Xilogravadora, ilustradora e artesã, a artista tem uma trajetória profissional intrinsecamente ligada à sua vida pessoal: extraordinária e rica em contrastes.

"Entendi que era lésbica aos 11 anos"

"Sou de um lugar ermo chamado Boqueirão do Cesário, no Ceará. Na época em que eu morava lá, havia em torno de 500 habitantes. Fica a 2 horas e meia de Fortaleza, a capital. Cresci em um universo bem pequeno e não tinha dimensão do que era a palavra 'lésbica'. As pessoas falavam 'a sapatão', 'ela é sapatão', mas eu não entendia. Quando soube o que era ser lésbica, quando senti mesmo atração amorosa por uma garota, eu tinha 11 anos", recorda.

De família evangélica, aos 12 de idade Gessica se mudou com os pais e os dois irmãos para Londrina, no Paraná. A viagem para percorrer os mais de 3 mil quilômetros que separam as duas cidades aconteceu de caminhão e durou 7 dias. Uma aventura em busca de novas oportunidades.

"Tive uma educação religiosa e conservadora. Quanto à minha sexualidade, eu já me conhecia, já sabia que havia algo ali. Olhava pras meninas com outro olhar. Os homens não me encantavam, não me traziam o encanto que o universo feminino e as mulheres me traziam. Com o tempo, fui procurando histórias lésbicas: contos, séries... Mas tudo às escondidas."

Saída do armário na faculdade

A fusão entre a vida pessoal e profissional aconteceu e ganhou forma na faculdade. Gessica saiu do armário para os pais e para o mundo a só tempo, durante a apresentação de seu trabalho de conclusão de curso (TCC).

"A partir de xilogravuras, produzi 8 contos eróticos voltados pro universo lésbico. Imagina explicar para a banca de TCC o que eu estava fazendo!.. A ideia era falar sobre sociedade, religião e tudo o que eu vivi e ouvi. Os textos abordavam o cotidiano lésbico e as questões que a gente passa quando começa a se identificar assim, como a própria dúvida 'será que sou lésbica?'."

A artista conta que, apesar da surpresa, a reação dos pais ao seu trabalho foi ótima. "Minha mãe perguntou: 'o que é isso que você faz?'. Respondi: 'Mãe, isso é arte erótica. Faço arte erótica e tô falando sobre a minha sexualidade e minha identidade enquanto nordestina, mulher, gorda e lésbica'. Ela ficou um pouco quieta, pensativa. Meu pai tava perto e falou: 'Osmatilde, deixa a menina fazer arte, deixa a menina ser artista'."

triabadismo - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Obra "Tribadismo", em xilogravura
Imagem: Reprodução/Instagram

Censura

No Instagram, onde expõe e comercializa suas obras e tem quase 8 mil seguidores, Gessica lida constantemente com o medo da censura. "Vivemos num país muito conservador. Artes do século XIV, arte bizantina, todo tipo de arte com um mamilo que seja o Instagram está censurando. Tenho receio de que minha página caia, seja cancelada", afirma a artista, que quase teve uma exposição censurada em uma universidade no interior de São Paulo.

"Era uma semana de arte voltada pro trabalho de mulheres e fui convidada a expor. Chegando lá, assim que comecei a distribuir as xilogravuras, uma professora olhou e perguntou, já com censura na voz: 'Ei, o que é isso? Quem autorizou??'. Comecei a ficar entristecida porque pensei na distância que eu tinha percorrido até ali para ter o trabalho censurado. Mas no final das contas consegui expor naquele dia."

Atualmente, Gessica vive em Maringá, a 90 km de Londrina. Ela se mudou para a cidade da namorada, a psicóloga Liane Beltran. As duas moram juntas há três anos e planejam se casar. "O apoio dos meus pais me ajudou muito a sair do armário. Hoje tenho namorada, futura esposa, e ela tem duas crianças encantadoras. Tudo é muito belo hoje em dia pra mim", celebra a artista.