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"Nasci!", celebra João Gabriel, humorista trans, depois de mudar certidão

João Gabriel, 27: "Comecei  a acompanhar vários trans e perguntar sobre tudo. Foi sensacional" - Reprodução/Instagram
João Gabriel, 27: "Comecei a acompanhar vários trans e perguntar sobre tudo. Foi sensacional" Imagem: Reprodução/Instagram
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

27/01/2021 04h00

Conheço o João Gabriel há quase dois anos. Achei por acaso no Instagram o trecho de um stand up com temática lésbica que ele apresentava, ri muito, compartilhei o vídeo e nos tornamos amigos.

Pouco tempo depois, escrevi sobre sua carreira aqui na minha coluna: "Comediantes queer, elas falam de política e sexo como você nunca viu antes". Elas. A matéria incluía a humorista Babu Carreira, que é uma mulher cis, bissexual. Na época, João Gabriel se identificava como mulher lésbica, Bubiz Barros. A transição de João é recente.

"Eu já sentia que era um homem trans, só que não entendia e não podia expor isso. Em 2019, comecei a pensar em falar com algumas pessoas sobre, mas minha ex meio que 'vetou'. Naquele momento concordei e acabei adiando. Só que essa era uma questão muito forte e, assim que terminamos, uma voz lá dentro começou a falar de novo: 'tu é homem'. E então comecei a acompanhar outros trans. Foi aí que deu o estalo", conta.

Ele diz que em 2020 se colocou no pronome masculino e começou a falar abertamente sobre isso a amigos, familiares e para o público. "Só que ainda era pouco, porque eu tinha várias dúvidas. Mas tem sido libertador."

João Gabriel - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
"Tenho vontade de ser pai. Porque eu odeio levantar para buscar as coisas, e crianças foram feitas para isso! Brincadeira!", diverte-se João, dizendo que paternidade é sonho antigo
Imagem: Reprodução/Instagram

"Como prefere ser chamado?"

Num bate-papo descontraído, porque a entrevista foi basicamente uma conversa entre amigos, comentei: "João, você tá como Bubiz no meu celular. Nas suas redes você ainda é Bubiz, mantive pensando nisso. Como prefere ser chamado?".

"Tá Bubiz em tudo. É porque uso como trabalho. Pode me chamar de João, Gabriel, João Gabriel, Bubiz... Mas o que eu me sinto melhor é Vossa Majestade", zoou. Essa resposta ótima, aliás, integra o repertório das piadas reais que ele leva para os palcos.

"No início, eu não queria me aceitar trans justamente por ter que ter pelos (no corpo). Mas é muito importante o acompanhamento de uma terapeuta especializada. Inclusive, a minha é casada com um homem trans que me ensinou várias coisas, como o fato de que cada um tem seu processo. Uns tomam hormônio primeiro, depois tiram os peitos, depois mudam o nome... Outros, mudam o nome primeiro", diz ele.

O que é ser um homem? É se sentir um homem! Não é, necessariamente, seguir um padrão. Eu, por exemplo, fui primeiro no meu nome, que era algo que me incomodava muito. E tô seguindo minha transição de pouquinho em pouquinho. Eu já sou um cara.

"Emoção sem tamanho"

João retificou sua certidão de nascimento há um mês, num dos momentos mais significativos de sua vida. "Nasci! Passa um filme na cabeça, uma emoção sem tamanho. Tava todo coisado com umas coisas que dá pra descoisar. Hoje é um dia lindo, especial. Dia de celebrar o nascimento de quem eu sempre fui e de quem agora me liberto pra ser, sentir e ir!", disse, nas redes sociais, onde tem mais de 100 mil fãs.

No topo das pequenas transformações comemoradas por João, figuram as internas, como o fato de ele agora se sentir confortável em looks masculinos.

João Gabriel - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
"Cada um tem o seu processo", afirma João Gabriel, sobre a transição
Imagem: Reprodução/Instagram

"Lá atrás, quando me entendia 'sapatão', me vestir muito masculino me incomodava. Que doidera! Então assim que me vi totalmente masculino, me olhei e pensei: é isso!"

Até agora, para João, a parte mais difícil é lidar com o medo da violência: "a qualquer momento eu posso ser vítima de transfobia."

O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo e lidera, há 13 anos, o tenebroso ranking dos mais violentos para essa população. Em 2020 foram pelo menos 175 assassinatos. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a Antra, esse número pode ser ainda maior devido à subnotificação, que pode ter feito com que outros dados não se tornassem públicos.

Celebrado em 29 de janeiro, o Dia da Visibilidade Trans foi criado em 2004 e lançado numa campanha no Congresso Nacional com o apoio do Ministério da Saúde e participação de movimentos sociais. O propósito é reforçar a visibilidade positiva e chamar a atenção para as vulnerabilidades a que as pessoas trans estão expostas.

Transição vai virar série

João, que é de Aracaju mas mora em São Paulo, está na sua cidade natal produzindo uma série documental sobre sua transição. A estreia deve acontecer ainda este ano.

"Tô bem focado para que saia de uma maneira divertida e educativa. Quando a gente fala de trans, a televisão só notifica coisas ruins, tristes, e nosso objetivo é trazer algo leve. Só nós sabemos o que sentimos. Muitos que me procuram falam de medo, de receios. A vida é agora. Seja e sinta o que você é. E, se não for, vai tentando. Só não deixe de ter essa liberdade por receio da opinião alheia. Opinião, todo mundo tem, cabe a nós termos nosso próprio filtro."