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Assédio sexual: Eu fui uma vítima, como tantas outras mulheres

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista do UOL

05/12/2020 04h00

Eram 2 da manhã e, sem sono, eu tava mexendo no Instagram. De repente, o sócio de uma famosa agência de publicidade de São Paulo interagiu em um story que eu tinha acabado de postar. A empresa fica na Vila Madalena e eu já tinha ido lá três vezes. Primeiro, para participar de um podcast produzido na casa e, depois, voltei outras duas vezes porque me chamaram para testes para comerciais.

Meu contato com os sócios e funcionários sempre tinha sido bem breve e profissional, por isso estranhei a mensagem de madrugada, mas respondi. E ele perguntou se poderia me ligar, porque tinha um convite de trabalho para fazer. Consenti.

Na ligação, ele explicou que estavam preparando um programa que estrearia numa rádio de rock da capital, e que tinham pensado em mim como uma das apresentadoras pela minha experiência (trabalhei durante seis anos na Transamérica). Agradeci e expliquei que não seria possível aceitar porque eu me mudaria de cidade em poucos meses.

Ele fez algumas perguntas sobre a mudança e, ao invés de finalizar a ligação, elogiou as fotos do meu Instagram.

Contei que era fotógrafa e ele disse que também era e que tinha bons contatos na área para a submissão dos trabalhos a concursos de fotografia e quis saber se eu tinha interesse. Respondi que sim e ele começou a enviar algumas de suas fotografias que teriam sido premiadas.

Primeiro, de paisagens. Comentei que preferia fotografar pessoas e ele perguntou se poderia enviar ensaios que ele tinha feito. Assenti e ele começou com um ensaio de duas mulheres que se beijavam em poses sensuais. E de repente enviou fotos transando com essas mulheres. Nas imagens, seu pênis ficava nitidamente exposto e eu fiquei em choque, sem reação.

Não era artístico, era pornográfico. E aquela não era mais uma conversa profissional, era assédio sexual.

Não consegui repreendê-lo. Com nojo, me sentindo suja, com a cabeça a mil tentando entender se em algum momento eu tinha dado qualquer abertura pra que aquilo estivesse acontecendo, tentei encerrar a conversa dizendo que estava bem cansada e que ia dormir.

Ele tentou suavizar a situação forçando uma amizade que nunca tivemos (nos vimos pessoalmente apenas duas vezes na agência e nunca conversamos por mais de cinco minutos) e disse que antes de eu me mudar de São Paulo deveríamos marcar um chope, porque ele tinha "uma amiga lésbica linda pra apresentar" - e mandou fotos dela sem que eu pedisse. Finalizou dizendo que me enviaria um e-mail com o contato de um amigo que negociava suas fotografias no exterior. Esse e-mail nunca chegou.

Lendo a reportagem da revista Piauí sobre as acusações contra Marcius Melhem, revivi emocionalmente o assédio sexual que sofri. Na matéria, 43 pessoas foram ouvidas. Entre elas, vítimas e testemunhas do assédio de Melhem. A Globo, uma das maiores empresas de comunicação do país, recebeu inúmeras denúncias contra Melhem e o acobertou durante meses, até que o barulho da mídia sobre o caso tornou a situação insustentável e ele foi desligado do quadro de funcionários.

Além de sofrer diversos assédios sexuais de Melhem, Dani Calabresa foi prejudicada profissionalmente porque ele era seu chefe e usava sua influência para puni-la e mantê-la sob controle.

Na maioria das vezes, as vítimas, mesmo tendo provas e testemunhas, costumam ser desacreditadas, enquanto os assediadores são defendidos. "Ele é brincalhão", "não fez por mal", "não teve essa intenção", "é o jeito dele" são alguns dos "argumentos" que tentam justificar o injustificável.

Quando sofri o assédio, quase dois anos atrás, não fiz uma denúncia formal porque precisei de tempo pra digerir, pra acreditar que aquilo realmente tinha acontecido - mesmo lendo o arquivo da conversa diversas vezes - e, principalmente, para entender que a culpa não era minha.

Fui uma vítima. Como tantas outras mulheres. E como muitas, também tive medo de sofrer perseguição profissional, medo de que a minha denúncia me fechasse portas e limitasse as minhas atuações.

Um tempo atrás, contei sobre esse assédio, sem dar tantos detalhes, no meu Twitter. Agora, vendo a coragem de tantas mulheres, me sinto mais forte e mais confiante para ser ouvida e acolhida. Não estamos sozinhas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL