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Blog do Pichonelli

Drica Moraes fala sobre transplante e mostra importância do SUS e da doação

Drica Moraes e Adílson - Reprodução/vídeo
Drica Moraes e Adílson Imagem: Reprodução/vídeo
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

22/10/2020 04h00

Morador de Presidente Prudente (SP), o eletricista Adílson fazia seu trabalho à beira de um rio quando ele e o chefe avistaram uma barraca do SUS. Curioso, ele foi conferir o que estava acontecendo. Não sabia ainda que estava prestes a salvar uma vida e ganhar uma irmã.

A história com roteiro de novela foi contada pela atriz Drica Moraes no programa Conversa com Bial.

Há pouco mais de dez anos, ela foi diagnosticada com leucemia. Tinha acabado de completar 40 anos e precisava de um transplante de medula óssea para seguir viva.

Nenhum dos seus irmãos tinha compatibilidade com ela para doação. Foi aquela campanha do SUS à beira de um rio no interior paulista que ajudou a mudar um roteiro com fim quase certo. Adilson, naquele dia, se tornou doador.

Curada, após um longo tratamento que exigiu isolamento e sessões de quimioterapia, a atriz decidiu que queria conhecer seu doador, possibilidade prevista em lei após cinco anos do procedimento. Para isso, tanto doador quando receptora precisavam preencher uma carta de intenções.

O relato do telefonema em que eles se conheceram emocionou o entrevistador, Pedro Bial, e o público, que levou Drica Moraes aos trends do Twitter.

"Eu disse 'Oi'. Ele disse 'oi, fia'. Não tinha roteirista para escrever esse diálogo, eu não sabia o que dizer, o que você ia falar para uma pessoa dessas? Ele falou "você tá bem, fia?' Eu disse 'eu tô bem, você salvou minha vida. Qual o seu nome?".

A partir de então, eles se tornaram mais que amigos. Tornaram-se irmãos.

Como numa novela, a história revelou a um país inteiro como uma simples mudança de rota nas tarefas diárias podem fazer a diferença.

Por causa da pandemia, o número de doações de medula óssea caiu 30% de janeiro a julho deste ano em relação ao primeiro semestre de 2019, segundo o Redome (Registro de Doadores de Medula Óssea no Brasil). Foram registrados 1.144 transplantes, contra 1.811 do mesmo período do ano anterior.

Uma reportagem da Agência Brasil mostrou que em 2020 foram cadastrados 136.754 novos doadores, totalizando 5.212.391, mas ainda há 850 pacientes na fila à espera de transplante de não aparentados —pessoas sem grau de parentesco com o receptor.

Para ser doador de medula óssea é preciso apenas ter entre 18 e 55 anos de idade, estar em bom estado geral de saúde e não possuir doença infecciosa ou incapacitante.

Serviço: a página do Instituto Nacional de Câncer (Inca) orienta os interessados a procurar o hemocentro mais próximo e agendar uma consulta de esclarecimento, que pode ocorrer por meio de participação em uma palestra.

Na sequência, o voluntário assina um termo de consentimento, preenche uma ficha com informações pessoais e doa uma pequena quantidade de sangue (10ml). O material é analisado por exame de histocompatibilidade (HLA) e os dados são cruzados com as características dos pacientes que necessitam de transplantes.

Quando há um paciente com possível compatibilidade, o candidato a doador é consultado antes de passar por outros exames e ser finalmente considerado apto e realizar a doação.

Eu, por exemplo, não sabia nada disso até ouvir o relato da atriz. Testemunhos como o dela jogam luz sobre a importância do SUS e das campanhas de doação em tempos de resistência ao obscurantismo.

Isolada por conta da pandemia, Drica Moraes se destacou há algumas semanas ao interpretar uma médica infectologista na minissérie "Sob Pressão - Plantão Covid". Parte do grupo de risco, por conta justamente do transplante, ela não pôde frequentar o hospital cenográfico que concentrou 90% das cenas da trama. Sua personagem, contaminada pelo coronavírus, passa a história em quarentena tentando dar apoio, a distância, à médica interpretada por Marjorie Estiano.

"É preciso se cuidar. Se eu for realmente uma inspiração, espero ser uma inspiração para isso também, para que as pessoas continuem se cuidando mesmo em tempos de pandemia", disse ela em entrevista ao Gshow.

Em tempo: também por causa da pandemia, as doações de órgãos tiveram, entre janeiro de julho, queda de 40% em relação aos mesmos meses de 2019. Ainda segundo a Agência Brasil, foram feitos no período 9.951 procedimentos deste tipo, contra 15.827 no período anterior. Até o fim de julho, havia 46.181 pacientes na fila à espera de um transplante de órgãos.

Preconceito e desinformação ainda são grandes entraves para o avanço da discussão. Segundo o Ministério da Saúde, a taxa de recusa das famílias à doação no primeiro semestre de 2020 era de 37,2%, enquanto o número de notificações de novos doadores caiu de 6.466 para 5.922 (queda de 8,4%).

Em 2014, um chef de cozinha interpretado por Reynaldo Gianecchini na novela "Em Família", da TV Globo, foi submetido a um transplante após descobrir uma miocardiopatia dilatada, grave doença crônica no coração. O registro ajudou a disseminar o debate sobre doação no Brasil.

Na ficção ou na vida real, são histórias das pessoas salvas por pequenos grandes gestos que ajudam a moldar a realidade e transformar um drama nacional em roteiro com final feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL