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Se tivesse gritado "viva o boi bombeiro", Carol Solberg teria sido punida?

Carol Solberg - Divulgação/FIVB
Carol Solberg Imagem: Divulgação/FIVB
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

15/10/2020 04h00

Por ter gritado "Fora, Bolsonaro" ao vivo após uma partida de vôlei de praia, em setembro, a atleta Carol Solberg foi advertida pela 1ª Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) na última terça-feira (13).

Na denúncia contra a jogadora, a subprocuradoria do STJD pedia pena máxima, com multa de R$ 100 mil e suspensão de seis competições. Em vez disso, a jogadora foi condenada ao silêncio até praticamente o fim da carreira, como desenhou em outras palavras o presidente da comissão, Otacílio Araújo, para quem a advertência serviu como "puxão de orelha".

"Se ela repetir, pode ser punida de uma forma pior", alertou.

Que a atleta fique assim avisada. Ela e todo mundo que tenha no esporte um canal para manifestar qualquer tipo de indignação.

A de Carol Solberg foi um misto de exaltação e desabafo. "Estava muito feliz por ter ganhado o bronze [EM QUE?] e, na hora de dar minha entrevista, apesar de toda alegria ali, não consegui não pensar em tudo o que está acontecendo no Brasil, todas as queimadas, a Amazônia, o Pantanal, as mortes por covid e tudo mais. E me veio um grito totalmente espontâneo de tristeza e indignação por tudo o que está acontecendo", disse a jogadora, em sua defesa.

Nada que convencesse os julgadores.

Tivesse gritado "Viva o boi bombeiro", novo símbolo da proteção das florestas inventado pelo atual governo, talvez Carol Solberg fosse hoje saudada como patriota e não precisasse de puxão de orelha de marmanjos para poder voltar ao esporte.

Marmanjos não gostam de manifestação política.

Marmanjos gostam de espetáculo, e no espetáculo cabem apenas as vistas grossas, nem que seja para jogador acusado de estupro.

Carol não teve a mesma sorte dos colegas do futebol que em 2018 comemoravam gol fazendo arminha com a mão ou que celebraram o título do Campeonato Brasileiro daquele ano batendo continências ao presidente eleito, o convidado de gala na festa da taça na Arena Palmeiras.

O esporte que se assombra com manifestações políticas quando partem da oposição é o mesmo que estende tapete vermelho a políticos em troca de sabe-se-lá-o-quê. Na verdade, sabe-se sim.

Está ainda fresca nas solas das botas a baba da bajulação ao presidente que outro dia mesmo demonstrava apreço ao ministro da Justiça sob ataque acenando para torcedores no estádio com a camisa do Flamengo. No caso do ministro, a bota lambida é a mesma que enxota.

No mesmo dia em que Carol foi condenada a carregar no tornozelo as bolas de ferro do silêncio, os meninos da seleção brasileira venceram o Peru em partida das eliminatórias para a Copa de 2022. Neymar brilhou, marcou três gols e, como lembrou meu amigo Mário Sérgio no Twitter, perdeu a chance de pedir música na Voz do Brasil. A novidade da noite foi a transmissão do jogo pela TV Brasil, uma emissora pública usada na transmissão para bajulação política. Bolsonaro recebeu até um abraço "especial", ao vivo, do narrador André Marques. Quem disse que política e esporte não se misturam?

No intervalo, o presidente teve espaço para vender seu peixe e anunciar as novas regras da lei de trânsito, que ampliou para 40 o número de pontos permitidos a motoristas infratores e que se tornou uma de suas bandeiras de governo.

Em 1972, quando o presidente do turno, o ditador Emilio Garrastazu Médici, desfilava em estádios para testar a popularidade enquanto os porões dos homens honrados viviam lotados, Tom Zé já perguntava, na música "Senhor Cidadão", com quantos quilos de medo se fazia uma tradição. Perguntava também com quantas mortes no peito se fazia a seriedade

Quase 50 anos depois, Tom Zé, ainda queremos saber.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL