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Matheus Pichonelli

Na pandemia, perdemos a mulher que abriu uma trilha feminista na família

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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

12/10/2020 04h00

Eu não queria transformar este espaço em obituário. Mas, até onde eu sei, há uma pandemia lá fora e ela nos obriga de tempos em tempos a nos despedir de alguém.

Na terça-feira (6), quando 798 óbitos por covid-19 foram confirmados no país, perdemos dona Nezinha, como a Dionézia era conhecida entre amigos e familiares.

Nos últimos anos, nos vimos poucas vezes. A última vez foi no Natal, quando fez jus ao predicado dionisíaco e furou o cerco do filho e da neta para molhar o bico na cerveja ou beliscar algum doce proibido.

No domingo, recebemos a notícia de que ela precisou ser internada com suspeita de covid-19. Na segunda, rins e pulmões pararam de funcionar. Na terça, estava enterrada.

Durante a pandemia da gripe espanhola, no início do século passado, dizia-se que nem todo mundo estava condenado a morrer da doença, mas a conhecer algum condenado a morrer. A pandemia do novo século atualizou a sentença.

Amigos próximos perderam pais, avós, vizinhos. Na nossa família, a suspeita de covid bateu sem tempo de reação —num dia estávamos abrindo a última caixa da mudança para a nova casa, no outro discutíamos se deveríamos viajar para nos despedir. Mas como?

Se alguém disser um dia que está preparado para a morte, a própria ou a dos seus, certamente estará mentindo. Mas ajuda a enfrentar o processo quando podemos repetir aquela cena batida dos filmes americanos em que apertamos a mão da pessoa enquanto ela ainda nos ouve e falamos de tudo o que lembramos.

A Dionézia podia não saber, mas suas histórias fizeram a neta ser quem ela é —e pode até ser que exista no mundo alguém mais incrível que a neta dela; eu só não conheço. Foi com ela que me casei.

Tempos atrás, o coletivo Think Olga pediu para as participantes do grupo contarem como elas se descobriram feministas. Um dos relatos ganhou destaque no site e na página do Facebook. Nele, a neta da Dionézia contou da tradição na casa dos avós, em Araraquara, de jantar sopa todo sábado à noite, fizesse o tempo que fizesse.

Quando o avô morreu, a neta ajudou a preparar os pratos e colheres de sempre na noite seguinte quando foi surpreendida pela vó com guardanapos e uma assadeira de pizza.

E a sopa? A Dionézia respondeu: "Odeio".

Aquela mulher preparou e tomou quieta a sopa que odiava por quatro décadas e, só quando se viu viúva, se viu também livre para manifestar um desejo.

A neta por quem me apaixonei nunca mais se esqueceu dessa frase. Nem de tudo que é e deseja. Quem tem a sorte de conviver com ela sabe o que isso significa.

Da Nezinha as outras histórias entraram no anedotário e renderiam um livro. Como quando, já com 70 e tantos anos, viajou de ônibus até o Piauí sem avisar à família. Levou com ela os pinos de uma operação no joelho e a amiga que queria visitar a família no Nordeste.

Outra história foi quando sacou parte da poupança e pedia, ao ser questionada sobre o paradeiro do dinheiro, para o interlocutor perguntar a Deus, não a ela. As notas estavam espalhadas na Bíblia, o único livro que, ela sabia, nenhum visitante daquela casa ousava abrir.

Não fosse a pandemia, essas e outras histórias poderiam ser lembradas, no leito ou no velório, na tentativa de reconfigurar a imagem de quem já não reconhecia nem era reconhecida em um asilo de sua cidade, onde as visitas frequentes, inclusive do bisneto, meu filho, foram suspensas por causa do coronavírus. Nada que impedisse um surto de contaminação no local.

A pandemia nos obriga a nos despedir sem despedidas.

A desejar força à distância para quem fica.

E a contornar diferentes formas de elaboração do luto, do bisneto fascinado pelos imensos olhos verdes da bisavó —e pelas histórias sobre o tataravô alemão que fugiu da Segunda Guerra para morrer de pneumonia aos 27 anos no Brasil— ao silêncio da neta, tão apaixonada pelo filho que surpreende ao mostrar o quanto ainda cabe de amor pela avó no mesmo coração.

Por aqui, vou ficar sempre em dívida com a mulher que abriu caminho, do seu jeito, em seu tempo, para uma trilha de rebeliões que a neta percorreu para poder dizer em voz alta o que é e o que quer.

Dona Nezinha ficou na memória da neta como uma mulher forte, com vontade própria e consciência do quanto a pobreza, a falta de instrução (era semianalfabeta) e o machismo moldaram sua vida e a impediram de fazer o que realmente desejava. Isso explica a insistência dela para que as outras mulheres da família jamais deixassem de estudar, de trabalhar. Para que nunca, enfim, dependessem de ninguém.

Morreu sem poder larapiar seu último pedaço de bolo às escondidas. Faria 87 anos na sexta-feira (9).