Topo

Mariana Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nem patriarcado, nem matriarcado: proponho o 'familiarcado': saiba o que é

Prostock-Studio/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Prostock-Studio/Getty Images/iStockphoto

Colunista de Universa

28/08/2022 04h00

Mundo invertido, webserie criada e apresentada pela atriz Claudia Campolina, é uma das produções mais interessantes das redes sociais para explicar o que são nossas heranças do patriarcado e desta sociedade machista em que ainda vivemos.

Em seus vídeos, Claudia traz discussões sobre o que seria o masculinismo" e provoca com frases como "o problema do masculinazi é falta de mulher", "vou comprar um carrão pra minha filha pegar os garotinhos", "3 peças de roupas que homens devem evitar na praia", "dicas para não ter mais que ajudar o marido em casa", "3 roupas que homens de valor não devem usar", e por aí vai. Frases que, quando ditas por um homem sobre mulheres, são corriqueiras e totalmente aceitáveis como "algo normal".

Não é à toa que Claudia incomoda e os machistas de plantão já andam tentando tirar as redes dela do ar: não passarão!

O trabalho de Claudia me foi apresentada por uma grande amiga, Maria Flor Calil, com quem divido a paixão pela mesma profissão, pelos filhos, e os dilemas desta vida de mãe, trabalhadora, de mulher que ainda luta por direitos iguais.

Um exemplo deste mundo invertido de Campolina é o que aconteceu esta semana com dois casos de pessoas com filhos no trabalho: umas delas, um homem, a outra, uma mulher.

Um pai, o advogado Felipe Cavallazzi, que levou o filhinho de 1 ano para o trabalho, viralizou nas redes como sendo algo "fofo", "um exemplo", "que homem"- a sessão da qual ele participava era do STJ em Santa Catarina e até foi antecipada por causa do filho.

Já a mãe, também advogada, Malu Borges Nunes, que deixou "vazar" o choro da sua bebê numa audiência virtual, foi repreendida por um desembargador. Afinal, onde já se viu prejudicar o trabalho por causa de filho? Ela tinha pedido para ser ouvida primeiro na sessão porque precisava amamentar, mas não foi atendida.

Ou seja: a mulher, quando cuida dos filhos, não faz mais do que a obrigação e ainda é vista como uma profissional incompetente, além de péssima mãe. O homem, quando cuida dos filhos, é visto como alguém que está fazendo algo grandioso, sendo um ótimo pai e ainda serve de exemplo no trabalho.

Por mais que a gente diga que pai não é o que ajuda, mas aquele que divide igualmente os deveres com os filhos e com a casa, é fato que ainda vivemos numa desigualdade. Responda rápido: na maioria das vezes, por exemplo, quando uma criança está doente, quem falta no trabalho para levá-la ao médico?

Os tempos mudaram e avançamos em muitos sentidos, é verdade. Mas ainda vivemos numa sociedade que julga e menospreza as mulheres. Mesmo a própria justiça já não utilizando pátrio poder, mas sim poder familiar, ainda somos obrigadas a ouvir coisas como "o" chefe da família, "o" chefe da casa. E desde quando marido é chefe da mulher? Ora, sabemos que em muitos lares brasileiros as mulheres é que dão conta de tudo sozinhas.

Mas é por causa deste machismo enraizado que causou estranheza ao "homem do censo", que foi até minha casa estes dias, ser recebido pelo meu marido, já que eu tinha saído para trabalhar. Mais espantando ainda ele ficou ao perguntar quem era o "responsável" pela casa e ouvir do meu marido que era eu (só porque eu sou a mais velha?). Sim, em pleno 2022 o censo ainda pergunta quem é que "manda" na casa. Por que a pergunta não é: "Quem são os responsáveis pela casa?". E o que quer dizer "o responsável"? Quem ganha mais? Quem fica mais tempo na casa? Quem faz a faxina? E se tudo isso for dividido?

Todos esses conceitos precisam ser revistos dentro dos lares, nos ambientes de trabalho e, inclusive, dentro das diferentes religiões.

Certa vez ouvi de um padre durante um casamento o seguinte conselho para a noiva: "Você, mulher, no fim do dia, receba seu marido em casa com os chinelos dele em mãos". Como ainda não tinha toda a minha formação feminista, fiquei quieta e, em silêncio, permaneceram os cerca de 300 convidados presentes. Acho que se fosse hoje, eu daria um berro bem alto, daqueles que fazem meus filhos passarem vergonha.

Mas, no ano passado, ouvi de um pastor num desses programas de TV algo parecido, mas ainda pior: "Você, mulher, quando o marido chega cansado do trabalho, deve ficar quieta. Se começar a falar muito dos problemas domésticos, depois apanha e não sabe a razão". Minha indignação foi tamanha que fiz uma denúncia no Ministério Público.

Nem patriarcado, nem matriarcado. Eu proponho um familiarcado. Com deveres e direitos iguais. Sim, temos que berrar, denunciar. Não importa se vamos ser chamadas de chatas ou mimizentas. Brigar pelos nossos direitos e por uma transformação real desta sociedade dá trabalho. Não é chatice, nem mimimi, nem vergonha.

Vergonha é o que ainda vemos acontecer por aí.