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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Condolência de Bolsonaro a Paulo Gustavo mostra medo de CPI e frieza

O ator Paulo Gustavo morreu nesta terça (4), aos 42, em decorrência da covid-19 - Reprodução/Instagram
O ator Paulo Gustavo morreu nesta terça (4), aos 42, em decorrência da covid-19 Imagem: Reprodução/Instagram
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista de Universa

05/05/2021 13h08

A CPI da Covid incomoda o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) porque reforça e demonstra o nexo causal entre posicionamentos e atuação do governo federal e suas consequências, medidas em mortes evitáveis. Os depoimentos dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, nesta terça (4) e quarta (5), comprovam, ao vivo e diante do Parlamento, o descaso com a crise sanitária, social e econômica.

A morte do ator Paulo Gustavo, pessoa querida e conhecida dos brasileiros, que perdeu a vida depois de dois meses lutando contra o coronavírus, motivou o presidente Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-SP) a prestarem condolências. Desde o começo da pandemia, há mais de um ano, Jair jamais visitou um hospital com pacientes de covid-19. No máximo, esteve na inauguração de um hospital de campanha vazio. O presidente tem se mostrado insistentemente insensível à dor da perda, ao luto e à solidão da morte de mais de 400 mil pessoas no Brasil.

Em novembro de 2020, Jair disse que quem é acometido pela covid é maricas, em mais uma sobreposição de ofensas. Falou em "frescura e mimimi" e arrematou com a frase "vão ficar chorando até quando?", desdenhando da tristeza de quem perde um filho, um pai, um neto, um irmão, um amigo.

Boicotou as medidas de proteção, como o uso de máscaras e o distanciamento social, e provocou inúmeras aglomerações. Ordenou seu terceiro ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, a rejeitar 70 milhões de doses da vacina da Pfizer. "Para que essa ansiedade, essa angústia?", perguntou Pazuello, em dezembro de 2020, ao lado de Jair, poucos dias antes da falta de oxigênio em Manaus sufocar pacientes.

Também em dezembro, o presidente Bolsonaro declarou ao outro filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que quem tomasse a vacina correria o risco de "virar jacaré" e questionou a pressa pelo imunizante, apostando que "a pandemia realmente está chegando ao fim". Falou em um possível "repique" em 2021. "Não há politização nenhuma da nossa parte", se dirigindo ao governador de São Paulo, João Doria, que viabilizou a CoronaVac.

E assim chegamos até maio de 2021, em um país que acorda cada vez mais triste. O gesto de pêsames do presidente Bolsonaro nada mais é que a expressão do desespero com o andar da CPI da Covid. Não contém um pingo de compaixão pela família e pelos amigos de Paulo Gustavo — todo mundo sabe que a perda de vidas não o comove.

Suas condolências são só um aceno populista de quem está encurralado e fadado a passar para a história como um dos piores presidentes do mundo no enfrentamento à pandemia. Ele esquece que as mortes evitáveis são muito concretas, que não podem ser submetidas à manipulação de narrativas e de fake news, e que a demonstração de desprezo com a população do país que ele governa está documentada nas redes sociais.

Paulo Gustavo era todo o contrário do que prega este governo: uma fonte inesgotável de vida, alegria, solidariedade, diversidade, olhar coletivo e amor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL