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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI da Covid será a primeira em que evidências estão nas redes sociais

O presidente Jair Bolsonaro coloca máscara durante evento no Planalto, nesta segunda (22) - Ueslei Marcelino/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro coloca máscara durante evento no Planalto, nesta segunda (22) Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista de Universa

27/04/2021 09h20

Há um elemento importante que diferencia a CPI da Covid-19 das que ocorreram anteriormente no Brasil: as evidências que sustentam, documentam e registram as negligências e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia estão disponíveis nas redes sociais. A lista de 23 autoacusações distribuída pela Casa Civil a 13 ministérios, revelada pelo colunista do UOL Rubens Valente, serve de roteiro para a coleta de indícios que demonstram a atuação irresponsável do governo Bolsonaro na crise sanitária.

Esse contexto muda tudo: mesmo que as autoridades convocadas para prestar esclarecimentos aos parlamentares usem o direito ao silêncio, que restringe a atuação das comissões parlamentares ao conceder a indiciados e a testemunhas a garantia contra a auto-incriminação, as evidências estão ao alcance de alguns cliques. Por isso, o uso desse direito constitucional, desta vez, não deve impedir esclarecimentos à CPI.

Existem fartos exemplos de que o governo — muitas vezes na figura do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) — rejeitou a CoronaVac, quando essa era a única vacina disponível; ridicularizou a China, país que produz o imunizante e seus insumos; minimizou a gravidade da pandemia (e a dor da perda), ao classificá-la como "gripezinha", afirmar não ser coveiro e responder com "e daí?" sobre o avanço da doença e promover aglomerações; causou desarticulação nacional contra as medidas restritivas necessárias e urgentes para conter a covid-19; fez (e ainda faz) propaganda de medicamentos ineficazes e perigosos para a saúde; ignorou os alertas sobre a falta de oxigênio em Manaus (AM), retardando a ajuda vital à população; não atuou para proteger a população com protocolos básicos como o uso de máscaras; desdenhou da eficácia de vacinas; não planejou um auxílio emergencial de longo prazo, que pudesse conter a fome. E por aí vai: para cada um dos itens no documento de auto-acusação existem comprovações ao alcance dos parlamentares que compõem a CPI.

Por isso, ainda que os convocados optem pelo legítimo direito ao silêncio, concedido pelo Supremo Tribunal Federal na CPI dos Bingos, na CPMI dos Correios, que resultou na investigação sobre o mensalão, na CPI do Sistema Financeiro e na CPMI do Banestado, no início dos anos 2000, autoridades do governo Bolsonaro não poderão silenciar o que já fizeram e disseram publicamente.

Além das provas registradas nas redes sociais e investigações na imprensa, há também o documento produzido pelo Centro de Estudos Estratégicos do Exército, em abril de 2020, que indica a necessidade de medidas restritivas, como a quarentena, dos impactos na economia global e a importância de um auxílio social. O estudo intitulado "Crise Covid-19: estratégias de transição para a normalidade" sumiu do site do Exército sem justificativa, o que foi noticiado pelo colunista do UOL Reinaldo Azevedo. A pesquisa está disponível neste link. Sua existência faz a situação do ex-ministro general Pazuello ainda mais delicada.

Desgaste

A CPI da Covid será instalada nesta terça (27) com um roteiro pré-definido, fartas evidências e muitos olhos voltados ao Senado. A comissão deve gerar notícias diárias que não serão mais pautadas pelo presidente da República e seus estrategistas da comunicação, que costumam promover atos aos finais de semana na intenção de esconder o noticiário negativo.

A partir desta semana, o desgaste será maior. A CPI é um palco. Terá um impacto político que Bolsonaro nunca teve contra ele, que tentou controlar a narrativa impondo fatos tão absurdos que funcionaram como "cortinas de fumaça", sobrepondo o caos e impedindo a nitidez de gestão. Esse tem sido seu método.

Essa corrosão do governo Bolsonaro já vem acontecendo. A pesquisa de opinião mais recente, do Instituto Ideia Big Data, publicada na sexta (23), mostra que a desaprovação de Jair Bolsonaro chegou a 54%. A avaliação ruim é consequência de três fatos: a vacinação lenta, as inúmeras mortes e o auxílio emergencial insuficiente, que não impactou na popularidade do presidente como em 2020.

Com eleições à vista, assistiremos na plateia da CPI da Covid aos parlamentares que tomarão posicionamentos técnicos, veremos os que defenderão o governo a qualquer custo e teremos registrado aqueles que devem desembarcar para não comprometer o pleito, ainda que esse não deva ser o foco.

Se a comissão chegar ao seu final, provavelmente entre outubro e novembro, pode ser que o clima se torne insustentável para Bolsonaro e grande parte de seus ministros. Isso dependerá do ritmo da vacinação e da indignação da população, que pode voltar às ruas diante dos desdobramentos da CPI da Covid, uma versão comprimida do desastre promovido nesses dois anos e cinco meses de governo Bolsonaro.

As redes sociais, que foram tão essenciais para o fortalecimento do bolsonarismo e a ascensão de Bolsonaro, agora podem se tornar sua fonte de enfraquecimento e queda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL