PUBLICIDADE

Topo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Nos 100 dias de Biden, Brasil reforça agenda antiaborto com aliada de Trump

Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, em reunião de 2019 em Washington - Mark Wilson/Getty Images
Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, em reunião de 2019 em Washington Imagem: Mark Wilson/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

e Jamil Chade, Colunistas do UOL

29/04/2021 13h09

A secretária da Família do governo de Jair Bolsonaro, Ângela Gandra, participou nesta quinta-feira (29) de um evento internacional com uma ex-representante do governo de Donald Trump. O objetivo: defender a aliança que havia sido criada entre os dois países no ano passado para lutar contra o direito ao aborto pelo mundo e reafirmar o pacto da chamada "Declaração do Consenso de Genebra".

O debate virtual ainda incluiu representantes de países como Hungria e Polônia e teve como foco a preservação da aliança ultraconservadora.

Em 2020, Trump e Bolsonaro se uniram a outros governos para lançar o que ficou chamado de "Declaração do Consenso de Genebra". Trata-se de um entendimento entre 35 países para impedir que temas que possam ser vistos como ameaçadores à família ganhem espaço na diplomacia internacional.

Mas, no primeiro dia de seu governo, Joe Biden anunciou que estava retirando os EUA da iniciativa, o que foi amplamente comemorado por algumas das principais capitais europeias, pela ONU e por entidades de saúde da mulher.

Nesta quinta-feira, porém, o evento para marcar a necessidade de preservar a aliança foi aberto pela americana Valerie Huber, arquiteta e ex-representante de Saúde da Mulher do governo Trump.

Apresentada como uma espécie de líder do processo, ela indicou que a aliança foi "um dos maiores serviços" que prestou ao povo americano. Para Huber, a iniciativa era "histórica" e "poderosa".

Segundo ela, "há uma persistente campanha pelo mundo para estrategicamente declarar o aborto como direito e minar a família". A americana ainda destacou como, ao ter esse tema no centro da agenda internacional, mulheres estariam "sofrendo" e morrendo de outras doenças que poderiam ser tratadas.

"Trump viu a necessidade de trabalhar com outros países", explicou. Segundo ela, o documento é a primeira iniciativa contra "a agenda hostil de declarar aborto como direito". Huber ainda destacou como a aliança foi um dos principais legados do governo Trump.

A ex-representante minimizou a retirada de Biden do bloco. "Isso só significa que, no lugar de 35 países, são 34", disse. Huber abordou como tem atuado para garantir que parlamentares americanos possam apoiar a iniciativa e que trabalha para que o projeto abra espaço para ONGs simpáticas ao tema.

Tanto a americana como outros participantes do encontro e seu mediador aproveitaram o debate para agradecer ao Brasil por se colocar como líder da iniciativa, na ausência de Trump. "Agradecemos a liderança do Brasil por isso", disse a americana.

"A pressão vai continuar para minar a família e estamos trabalhando para apoiar vocês todos pelo mundo", disse a ex-representante de Trump, como se continuasse a ser uma espécie de autoridade dentro do bloco.

O Brasil esteve presente no evento por meio de uma intervenção da secretária nacional da Família, Ângela Gandra. "O Brasil apoia a Declaração do Consenso de Genebra", disse, reafirmando o compromisso do país com a agenda internacional ultraconservadora. Ela falou da importância do direito à vida e disse que o acordo internacional "apoia a mulher, incluindo os direitos sexuais e reprodutivos, compreendidos de maneira positiva, promovendo a saúde completa da mulher".

"Estamos juntos", disse Ângela Gandra ao se despedir da reunião, sediada por uma organização chamada "Ordo Iuris Institute for Legal Culture", criada na Polônia, e que tem o objetivo de "promover uma cultura jurídica baseada no respeito à dignidade e aos direitos humanos".

A Declaração do Consenso de Genebra encampa sobretudo um posicionamento contrário ao direito ao aborto. O acordo foi firmado em outubro de 2020, liderado por Trump. Na ocasião, seu secretário de Saúde, Alex Azar, declarou estar preocupado com uma tendência "de colocar o aborto como direitos humanos". Os países, ao assinarem a proposta, enfatizam que "em nenhum caso o aborto deve ser promovido como método de planejamento familiar " e que "quaisquer medidas ou mudanças relacionadas ao aborto dentro do sistema de saúde só podem ser determinadas em nível nacional ou local de acordo com o processo legislativo nacional".

O Brasil é o único país sul-americano a aderir à iniciativa.