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Débora Miranda

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ação contra machismo no futebol bomba com #meurival; quem são suas aliadas?

Campanha do Museu do Futebol pelo Dia da Mulher - Reprodução
Campanha do Museu do Futebol pelo Dia da Mulher Imagem: Reprodução
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

08/03/2021 16h24

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Museu do Futebol lançou no Twitter a campanha #meurival, incentivando mulheres que amam, torcem e trabalham com esporte a escancarar situações de machismo que vivenciaram.

O museu tem sido um dos órgãos com atuação importante no destaque ao futebol feminino, e a ação logo ganhou adeptas aos milhares, entre elas figuras conhecidas como atletas e jornalistas que trabalham com o esporte.

Os depoimentos, como esperado, são lamentáveis. Situações de assédio, descrença e ofensas se repetem. O próprio museu postou lembrando da proibição das mulheres jogarem futebol, que durou 40 anos.

Para quem ama e acompanha o futebol, são situações cotidianas, enfrentadas com um misto de decepção, ondas de desânimo e muita revolta. Mas de onde vem a força para que essas mulheres não desistam de torcer? De comentar, de narrar? De atuar como repórteres? De sonhar em trabalhar como técnicas e dirigentes? De onde vem a energia para que elas não desistam de entrar em campo?

A força vem da mão estendida mais importante de todas: a mão de outra mulher. Há tempos, muitas de nós vivíamos essa dor sozinhas. E nossa estratégia era rivalizar entre nós mesmas. Esperávamos conseguir nos destacar, convencer todos aqueles homens de que, sim, entendemos, sabemos o que é impedimento e, portanto, merecemos um espaço nesse universo chamado futebol. Nossas rivais, nessa época, também eram outras mulheres.

Não mais. Hoje entendemos que juntas somos mais fortes e que esse é o único caminho para que o machismo e a discriminação tenham fim. Sem risinho, sem piadinha. A exclusão da mulher não é nem nunca mais será tolerada. Não resistimos como uma só, mas como uma grande rede de amor, apoio, acolhimento e espírito batalhador, conscientes de que podemos —e vamos— ocupar todos os espaços que quisermos.

Quem são suas aliadas?

Encontrei muitas delas na minha jornada dentro do futebol, ao longo da vida. Primeiro como torcedora, nas arquibancadas e dentro de torcida organizada. Nunca foi fácil, mas sempre foi junto.

Aqui no blog, a mesma coisa. Ouvi e compartilhei inúmeras histórias de superação, de dificuldades e de vitórias, que me inspiraram tanto e me ajudaram a acreditar que o mundo estava mudando. E quem estava moldando esta nova realidade éramos nós mesmas. Mas vou contar uma história recente que me marcou muito e acho simbólica. Que me faz sempre lembrar que não estou sozinha. Sim, tenho aliadas.

Fui convidada para participar de uma live que o UOL promove após as rodadas de futebol, comentando os jogos. Amei a ideia, obviamente, mas me senti insegura. O futebol sempre foi parte imensa da minha vida, muito especialmente o Corinthians, mas é diferente ter que opinar sobre todos os jogos da rodada. Falar de técnicos, atletas, bastidores. Assuntos que eu levo muito a sério e jamais admiti assumir uma responsabilidade desse tamanho não estando pronta.

Combinei com o editor que participaria a partir da semana seguinte, para ter um tempo a mais de me preparar. Acompanhei todos os jogos, o noticiário, li muito, estudei. No dia, a apresentação da live seria feita por uma mulher. Ainda insegura, decidi escrever para ela. Nós não nos conhecíamos, mas eu sentia que precisava de uma mão amiga.

Não vou entrar aqui na discussão sobre a (falta de) confiança feminina. Sei que muitas de nós ainda sofremos com isso. Talvez por tantos anos de desencorajamento, talvez por acreditarmos que sempre podemos fazer mais e melhor. Cada uma tem suas questões e estamos aprendendo a lidar com elas. Mas o importante é: deu medo e vamos com medo mesmo, porque a verdade é que sabemos que estamos prontas.

Essa jornalista que faria a apresentação e nunca tinha me visto na vida foi maravilhosa comigo. Me tranquilizou e combinou de batermos as pautas durante os jogos, para que eu pudesse estar mais segura. No fim da nossa troca de mensagens, me disse algo básico, mas que me marcou profundamente: "Vamos nos divertir".

E foi com isso em mente que eu entrei ao vivo naquela transmissão e entro ainda hoje, quase toda semana, para comentar a rodada ao lado de jornalistas experientes, muito consciente da minha capacidade e do meu profissionalismo.

E é por isso que venho hoje também lembrar que, sim, é importante que não esqueçamos os nossos rivais, que valorizemos as nossas vitórias, mas, mais do que isso, que neste #8M a gente destaque as mulheres que estão ao nosso lado, nos ajudando a transformar esse mundão para que ele seja melhor e muito mais feminino, com respeito, amor, profissionalismo e bola nos pés.

Quem, afinal, são suas aliadas?

Seguem, abaixo, algumas das muitas mulheres que me inspiraram nestes anos de blog.

Edina Alves Batista: Única árbitra do Brasileirão: 'Conquistei respeito com atitudes em campo'

Alice Bastos Neves: Apresentadora da Globo: 'Sou mãe, trabalho e tenho um câncer para curar'

Renata Mendonça: Por que é normal programa de esporte sem mulher?, diz comentarista da Globo

Tamires: Treinos em casa e jogos de tabuleiro: a rotina de uma atleta em quarentena

Silvia Grecco: "Dentro do estádio, meu filho cego se transforma", conta torcedora

Ana Thaís Matos: "As mulheres machistas estão se desconstruindo", diz comentarista do SporTV

Isabelly Moraes: No grito! Conheça narradoras que abrem caminho para as mulheres no esporte

E um beijo imenso para a Luiza Oliveira, maior craque das nossas lives da madrugada <3

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL