PUBLICIDADE

Topo

Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que nosso guarda-roupa diz sobre as mudanças que enfrentamos na pandemia

Guarda-roupas pré-pandemia vem nos provocar a pensar o quanto a moda muda com a gente - PeopleImages/Getty Images
Guarda-roupas pré-pandemia vem nos provocar a pensar o quanto a moda muda com a gente Imagem: PeopleImages/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

01/10/2021 04h00

Durante a pandemia, muitas pessoas — ou algumas — puderam cumprir o isolamento social e ficar em casa. Muitas situações cotidianas foram impactadas e pediram adaptações. Cada um teve que se virar de diferentes formas para acomodar este novo momento. Teve gente em home office, teve gente, infelizmente, desempregada, gente que ficou na intensidade de cuidar da casa e dos filhos, gente doente, com covid-19, etc. Um momento muito triste e também histórico. "Ficar em casa" se tornou um fenômeno social.

E, obviamente, a moda, tema principal desta coluna, foi atravessada por esse fenômeno. A nossa forma de se vestir no dia a dia mudou, e mudou muito. Foi tema de muitos posts, muitas conversas, terapias, como a gente se relaciona diferente com as roupas. Muitas vezes uma camiseta e uma meia eram suficientes. Em outras, metade pijama, metade roupa social para as reuniões online, trabalhar o dia inteiro de pijama ou, ainda, usar uma roupa mais de ficar em casa.

Eu, por exemplo, nunca comprei tanta meia na vida como nesse período de isolamento social, porque as meias viraram sapatos, viraram calçados. Na verdade, os meus sapatos ficaram quase dois anos guardados sem ver meu pé.

Mas a vida social começa a dar sintomas de voltar e a gente tem que encarar o guarda-roupa de dois anos atrás. Eu sempre soube que estamos em constante mudança, mas esse é um marcador importante onde a gente percebe o quanto mudamos. Dois anos é muito tempo para mudanças mentais e corporais que se refletem na moda e no nosso jeito de vestir.

Serei repetitiva em dizer que moda é comportamento. Ela reflete nosso estado, o que a gente deseja comunicar. E, certamente, ninguém é a mesma de dois anos atrás. Sobretudo, ninguém é a mesma de dois anos atrás com dois anos de pandemia, dois anos onde a gente foi extremamente exposta a vários novos limites — sociais, emocionais e econômicos. Ninguém é o mesmo nem do dia anterior, imagina de dois anos atrás com tanta intensidade. A gente mudou e foi bastante.

Agora, estamos voltando à vida social e encarando esse novo-velho guarda-roupa, olhando para as peças que faziam muito sentido há um tempo e conseguindo de forma muito clara e prática perceber que a gente muda. Tiveram corpos que mudaram, alguns emagreceram, outros engordaram, outros estão mais fortes, outros mais flácidos. Tiveram mentes que mudaram, as pessoas mudaram de trabalho, de profissão, mudaram suas relações, seus limites na relação com o trabalho. Teve muita gente que mudou de vida no sentido de mudar sua estrutura familiar; teve gente que engravidou, filhos que saíram de casa, casais se separaram.

Esse guarda-roupa de dois anos atrás, com que a gente tem que voltar a se relacionar agora, vem nos contar que mudamos e também vem nos provocar a pensar o quanto a moda muda com a gente. Isso é mais uma ferramenta de percepção de que a moda somos nós, o que a gente é e o que a gente expressa, o que a gente vive, o que a gente conta.

É mais um momento pra gente avaliar o quanto a gente precisa caber nela e não ela na gente, porque se a gente muda ela não cabe mais na gente, mesmo que fisicamente caiba, emocionalmente para de caber, entende?

O meu encontro com o meu guarda-roupa vem sendo um mix de incômodo com diversão. Eu olho algumas peças e falo: ''O que eu estava fazendo há dois anos quando eu comprei isso aqui? Por que isso fazia sentido pra mim?'' e, principalmente, o porquê de não faz mais sentido pra mim. Essa reflexão parte da roupa, mas me leva para outros lugares e eu venho questionando tudo isso que eu falei antes — quem eu sou, quem minha família é, o que mudou no mundo, o que mudou no meu mundo e o que mudou em mim.

Eu convido as pessoas a fazerem esse encontro com os seus guarda-roupas de forma qualificada, sem julgamentos, com menos cobrança, mas como uma forma de reflexão — quem é você? Qual é o corpo que você habita hoje? Quem você era? O que mudou? E, principalmente, o que você quer para o futuro?

Pode anotar! Muitas pessoas vão começar a reconstruir seus guarda-roupas pensando no daqui para frente. Como tem sido isso pra você? Me conta aqui nos comentários?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL