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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Visibilidade lésbica é sobre amor, afeto, referências e uma vida segura'

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Cristina Naumovs

Cristina Naumovs

Cristina Naumovs é consultora de criatividade e inovação para marcas como Ambev, Doritos e Havaianas, entre outras. Tem passagens pelas mais diversas redações do país, como Trip Editora, Cosmopolitan e Folha de SP.

Colaboração para Universa

29/08/2021 04h00

Nunca pensei muito sobre visibilidade lésbica, talvez por medo, talvez por ter me entendido sapatão muito cedo, aos 15/16 anos. Eu só existia. Então quando Universa me convidou para falar sobre esse dia, fiquei pensando o que eu poderia fazer valer a internet de quem chegou até aqui.

Primeiro uma pergunta: você sabe como juízes terminam um casamento entre pessoas do mesmo sexo? Te conto já já.

Eu casei em 2018, com proclamas, papéis, cartório e tudo que eu merecia. No dia do cartório, a Patrícia, minha mulher, disse "de agora em diante, se quiser mudar seu estado civil ou será viúva ou divorciada, solteira nunca mais". Eu paralisei. Entendi ali que tinha zero referências sobre casamento, sou de uma geração que não tinha direito ao casamento (o direito ao casamento homoafetivo é de 2013. sim, vamos de novo, 2013: 8 anos atrás). Então eu era ignorante em um assunto que nunca tinha sido incluída (ela já havia sido casada com um cara, então tinha mais experiência que eu no assunto).

Eu não tinha referências práticas, na vida. O primeiro casamento lésbico que fui na vida foi o meu. Na verdade, o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Ter referências teóricas me ajudou a resolver a solidão nos anos 1990, onde não existia a internet e todas as comunidades possíveis (inclusive as escrotas), então precisava mesmo achar gente como eu nas revistas, nos livros, nas músicas.

Ainda antes de me entender lésbica, me lembro de uma entrevista na Marie Claire ou da Angela Ro Ro ou da Zizi Possi que uma das fotos eram as duas em uma traseira de camburão policial, depois de alguma treta delas. Eu olhei aquilo e me deu um pavor instantâneo, era meio aquela confirmação "não tenho problema com isso, mas o mundo é cruel com pessoas como você" que eu tanto ouvia. Quando finalmente entendi que estava apaixonada pela minha melhor amiga do colégio, tive um ano de cão antes de conseguir tomar uma decisão de chegar nela, porque, de novo, eu olhava para o mundo e não via ninguém feliz, ninguém.

Como você vai querer levar uma vida que o mundo te dizia ser fadada a tristeza? Eu precisava descobrir como burlar esse destino. Então fui lendo, conhecendo as escritoras (conhece a Audre Lorde?), as cantoras (obrigada por tudo Cassia Eller), as poetas (Elizabeth Bishop foi minha favorita por muitos anos). E assim fui construindo um mundo que me parecia mais amoroso, mais possível.

Não quer dizer mais fácil, mas só possível, como você que pode estar lendo isso gostaria que fosse o seu destino aos 16 anos.

É importante a gente entender o valor das gerações que vieram antes da nossa, ao mesmo tempo que é meio desesperador ficar aqui pensando que nomes de mulheres lésbicas escrever aqui, assim de cabeça, sem pesquisar e nada me vir à cabeça, justamente porque foi um tempo dificílimo para mulheres se assumirem. Hoje quando vejo o Instagram da Nanda Costa, grávida, dançando com a mulher dela, a Lan Lanh, é como se fosse um exercício de futurologia feliz, de um mundo que deu certo.

Visibilidade lésbica nada mais é que ter espaço no mundo pra ser quem você quiser ser, seja uma lésbica casadoira como eu ou uma mulher que curte uma safadeza anônima; é poder ser sapatão sem que isso signifique uma sentença de morte ou violência. Afinal, por que te incomoda tanto uma mulher querer e ter direito a visibilidade? Vale pensar. O problema tá em mim ou em você?

Ah, e respondendo a pergunta lá de cima, a juíza terminou meu casamento dizendo "eu vos declaro CASADAS". Eu nunca tinha visto esse final em casamento em nenhuma novela ou filme. Não é tão difícil fazer as coisas mais inclusivas, né? E quando o mundo é inclusivo, todo mundo é beneficiado, não só os "diferentes".


*Cristina Naumovs é consultora de criatividade e inovação para marcas como Ambev, Doritos e Havaianas, entre outras. Tem passagens pelas mais diversas redações do país, como Trip Editora, Cosmopolitan e Folha de SP.