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OPINIÃO

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O que os casos Flordelis e Daniel Silveira dizem sobre decoro no Brasil

A deputada federal Flordelis (PSD-RJ) em sessão na Câmara - Cláudio Andrade/Câmara dos Deputados
A deputada federal Flordelis (PSD-RJ) em sessão na Câmara Imagem: Cláudio Andrade/Câmara dos Deputados
Lilia Moritz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP e de Princeton e curadora adjunta para histórias e narrativas do Masp.

Colaboração para Universa

26/02/2021 04h00

Barreto Pinto, um dos fundadores do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), foi eleito deputado para a Assembleia Nacional Constituinte de 1946, que preparava nessa ocasião uma nova carta constitucional. Porém, ele ficou famoso para valer, quando, em 27 de maio de 1949, apareceu posando numa fotografia publicada na revista "O Cruzeiro", vestindo smoking e cuecas.

O documento fazia parte, por sua vez, de uma série maior intitulada (não sem ironia) "Barreto Pinto sem Máscara".

A despeito de dizer-se enganado pelo jornalista David Nasser, que assinava a matéria, o político entrou para a história brasileira como o primeiro deputado deposto por falta de decoro".

Há, para começar, uma (quase) "coincidência de máscaras" que evoca a situação atual. Nesta terça-feira (23), o Conselho de Ética da Câmara instaurou o processo de cassação de dois deputados federais — Flordelis (PDS-RJ) e Daniel Silveira (PDS-RJ) — e ambos se negam, sabe-se lá por que, a usar tais adereços. Manias do pensamento bolsonarista.

Além do mais, todos os três políticos vêm do estado do Rio de Janeiro e foram acusados por "falta de decoro". Flordelis é considerada mandante da morte do marido, o pastor Anderson do Carmo, assassinado com mais de 30 tiros em 16 de junho de 2019.

Seis dos filhos e uma neta, numa família muito pouco tradicional, digamos assim, foram presos. Já Flordelis, como parlamentar, só poderia ser presa em flagrante, mas acabou afastada do cargo por decisão da Comissão de Ética da Câmara.

O conselho também marcou para o mesmo dia a instauração do processo contra o deputado Daniel Silveira (PSL- RJ); esse sim preso em flagrante numa medida que tem gerado bastante debate e controvérsia. Ele já fez mais de 30 vídeos incitando a população contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e atingindo nominalmente cada um dos ministros.

Nos três casos estamos diante de situações condenáveis, mas por circunstâncias e níveis diversos. Flordelis está sendo julgada por assassinato; Daniel Silveira por ataque a instituições democráticas. São acusações graves que fazem com que o caso de Barreto Pinto, diante desses exemplos, soe até ingênuo. O Brasil mudou, seus políticos também, mas não numa direção melhor.

Como dizia a filósofa Hanna Arendt "a política é uma atividade muito séria para ficar nas mãos dos políticos". Está na hora de tirar a máscara social daqueles que hoje em dia se negam a usar máscara.

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP e de Princeton e curadora adjunta para histórias e narrativas do Masp.