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Como a web tenta descreditar cientista responsável por foto do buraco negro

Colegas de projeto, Andrew Chael e Katie Bouman leem sobre a foto do buraco negro que ambos ajudaram a construir - Twitter/Reprodução
Colegas de projeto, Andrew Chael e Katie Bouman leem sobre a foto do buraco negro que ambos ajudaram a construir Imagem: Twitter/Reprodução

Rodrigo Trindade

Do UOL, em São Paulo

13/04/2019 13h41

Resumo da notícia

  • Figura chave no software que montou imagem de buraco negro, Katie Bouman virou vítima de campanha sexista na internet
  • Internautas apontaram Andrew Chael como "mais importante" no projeto, mas o próprio enterrou os boatos
  • Algoritmos do YouTube e comunidades online impulsionaram a dispersão de boatos

"Meu papel é criar algoritmos que encontrem as imagens mais sensatas que também combinem com as medidas de telescópios. Assim como um artista forense usa descrições limitadas para montar uma imagem usando seu conhecimento de estrutura facial, os algoritmos de imagem que eu desenvolvi usam nossos dados limitados de telescópios para nos levar a uma imagem que parece com as coisas do nosso universo."

Esta é Katie Bouman. Hoje, a PhD em engenharia elétrica e ciência da computação é conhecida como a mulher por trás da primeira imagem de um buraco negro já registrada na história. A fala acima é de um TED Talk de novembro de 2016, quando ela apenas vislumbrava que seu trabalho materializaria teorias de Albert Einstein de 100 anos atrás, imaginadas em simulações científicas e reconstruções artísticas, como a do filme "Interestelar".

Mas a internet e suas comunidades e algoritmos não perderam tempo em distorcer os fatos a respeito de Bouman. Na mesma semana em que a foto, um resultado de um trabalho de cientistas de todo o mundo ao longo de anos, foi divulgada, comunidades no Reddit e usuários do YouTube decidiram descreditar o papel de Bouman.

Acessando o GitHub, plataforma usada por programadores, trolls encontraram a munição para iniciar uma campanha cujo objetivo é "provar" que Katie fez uma parcela pequena do trabalho e não merece todo o crédito e exposição recebidos.

Quando busquei o nome da cientista no YouTube neste sábado (13), os primeiros resultados foram vídeos que contam a história dela, mas ao descer uma tela no computador, surge o primeiro material contestador (em inglês). "A controvérsia de Katie Bouman e o BURACO NEGRO, New York Times diz que a técnica dela não foi usada??!"

Este era o 13º resultado da busca, mas logo no 18º o YouTube nos fornece outro vídeo conspiratório (também em inglês): "Mulher faz 6% do trabalho mas ganha 100% do crédito: foto do buraco negro."

Entre os "argumentos", há a afirmação que o astrofísico Andrew Chael tinha muito mais linhas de códigos escritas na página aberta do GitHub sobre o software de imagem do Event Horizon Telescope (EHT). Quantas? 850 mil de um total de 900 mil.

Os "fatos", no entanto, não condizem com a realidade do projeto, como explicou o próprio Chael em seu Twitter. "Aparentemente algumas (espero que muito poucas) pessoas online estão usando o fato que eu sou o principal desenvolvedor da biblioteca de software de imagem do EHT para lançar ataques horríveis e sexistas contra minha colega Katie Bouman. Parem", escreveu.

Chael detalhou que, no trabalho, foram usadas três bibliotecas de software de imagem distintas. Katie, por sua vez, desenvolveu a estrutura que "testou rigorosamente todos os três códigos e deu forma ao trabalho inteiro".

Este trabalho não foi feito sozinho, como o astrofísico explicou em uma série de tuítes e a própria Katie creditou naquele TED Talk de 2016 - Chael, inclusive, apareceu entre os astrônomos, físicos, matemáticos e engenheiros mencionados no final da apresentação. Com a publicação da foto, Bouman reforçou, no Facebook, que a imagem não foi feita por uma só pessoa ou algoritmo.

Cientistas, Chael entre eles, foram creditados em TED Talk de Katie Bouman - Reprodução
Cientistas, Chael entre eles, foram creditados em TED Talk de Katie Bouman
Imagem: Reprodução

Sobre as 850 mil linhas de códigos no GitHub, ele também esclareceu que a maioria disso estava em arquivos-modelo. O software responsável pela imagem do buraco negro tem, na realidade, "apenas" 68 mil linhas de código. "E eu não ligo quantas dessas eu sou o autor", completou.

Para concluir sua fala, Chael agradeceu eventuais elogios, mas pediu para irem embora que aqueles que foram exaltá-lo como uma "vingança sexista contra Katie". Encerrada a polêmica, ele espera voltar a tuitar sobre as coisas que gosta, como contar como é ser um astrônomo gay ou responder a perguntas sobre o EHT.

Os resultados de busca por "Katie Bouman" já foram piores no YouTube, conforme registraram usuários americanos na sexta-feira (12). Pelo Twitter, a empresa prestou uma explicação para o ordenamento dos resultados.

"Às vezes, quando uma busca é feita, há muitos resultados frescos. Nossos algoritmos vão, em alguns casos (quando a busca é relacionada a notícias), buscar trazer fontes mais competentes. Neste caso, em alguns minutos, vídeos de diferentes fontes começaram a surgir rumo ao topo. Estas são mudanças que fizemos no nosso algoritmo para combater a desinformação", disse.

Este novo incidente vem depois da notícia de que executivos do YouTube ignoraram alertas sobre a dispersão de vídeos conspiratórios, favorecida pelos próprios algoritmos da plataforma.

Curioso? Veja o TED Talk de Katie Bouman

O vídeo está em inglês, mas legendas em português podem ser ativadas.

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