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'Hobby virou vício': ele caça tempestades, tornados e até granizo gigante

Maycon Zanata caça tempestades há cinco anos - Arquivo Pessoal
Maycon Zanata caça tempestades há cinco anos Imagem: Arquivo Pessoal

Camila Corsini

De Tilt, em São Paulo

03/05/2023 04h00

Se quando você pensa em caçador, imagina automaticamente armas, é melhor rever seus conceitos. Pelo menos na vida do polidor automotivo Maycon Zanata, 32, seus instrumentos de caça incluem câmeras fotográficas e muito combustível no carro.

Sou uma pessoa que monitora previsões de tempestades muito intensas e vai atrás delas. Caçamos esses eventos que produzem granizo gigante, ventos intensos e até tornados.

Morador de Dourados (MS), para ele, nenhum lugar parece longe — há alguns anos, percorreu 2 mil quilômetros, contando a ida e a volta, até Uruguaiana (RS) para acompanhar uma série de tempestades que aconteceriam ao longo de duas semanas.

"No início, quando comecei a fotografar esses eventos, era mais por hobby. Fazia imagens de tempestades comuns, com raios, perto de casa. O tempo foi passando, conheci meteorologistas e pessoas da área, e o hobby virou vício. Fui indo cada vez mais longe", explica ele.

Granizo recolhido por Maycon e amigos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Granizo recolhido por Maycon e amigos
Imagem: Arquivo Pessoal

Em cinco anos, tempo que Maycon se dedica à caça, ele estima que já encontrou entre 30 e 40 supercélulas - evento meteorológico considerado raro e que pode ser perigoso devido aos ventos fortes, raios e granizo que provoca.

A mais impactante que já interceptei foi em Carazinho (RS), em junho do ano passado. Ela produziu dois tornados, um deles curto que não conseguimos filmar direito porque aconteceu de madrugada".

Mas, segundo ele, o céu ficou iluminado "como se estivesse de dia" devido à quantidade de raios que essa supercélula produziu. Um dos granizos vistos por Maycon tinha cerca de 12 centímetros.

Hobby começou com medo

Quando tinha entre 10 e 12 anos, Maycon morava na zona rural de Dourados, em uma isolada casa de madeira. Naquela época, as chuvas e vendavais não eram nada atrativas para ele.

Tinha pavor, porque chegava a balançar as tábuas da casa. Meu avô chegou a ser atingido por um raio uma vez, indiretamente. Ele é traumatizado até hoje e por um milagre sobreviveu.

Poucos anos mais tarde, o gosto pela ficção científica ajudou a atiçar sua curiosidade por furacões, tornados e tempestades severas. Dos 16 aos 20 anos, estudando fotografia, surgiu a vontade de registrar mais momentos da vida selvagem e estrelas.

Chuva com raios que aconteceu no Mato Grosso do Sul, registrada por Maycon - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Chuva com raios que aconteceu no Mato Grosso do Sul, registrada por Maycon
Imagem: Arquivo Pessoal

E esse ainda é seu objetivo.

"Quero gravar documentários, fazer séries, e vender para algum canal de TV ou streaming", conta Maycon. Ele acredita que o produto faria sucesso por aqui, já que brasileiros consomem esse tipo de conteúdo vindo dos Estados Unidos - o maior corredor de tornados do mundo.

Desafios do caçador

Como em qualquer caça, os desafios enfrentados pelos caçadores de tempestade no Brasil não são poucos. Além de lidar com um fenômeno natural, que depende de fatores externos para acontecer e o ser humano não pode interferir, os equipamentos - e a gasolina - são caros.

O hobby não é a principal fonte de renda de Maycon, que tem uma empresa de estética automotiva e trabalha como polidor. Para ajudar a sustentar as manutenções de carro, equipamentos e combustível, ele vende imagens, wallpapers, quadros e calendários das fotos produzidas nas caçadas.

"No começo, foi só investimento do meu bolso. Ainda é, mas os seguidores do Instagram ajudam, porque são pessoas que gostam de acompanhar ou estudam meteorologia. Agora, estou tentando fazer camisetas. Seria uma outra forma de gerar dinheiro com isso".

Supercélula registrada pelo Maycon - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Supercélula registrada pelo Maycon
Imagem: Arquivo Pessoal

Segundo Maycon, por sorte, a temporada desses eventos meteorológicos não dura o ano inteiro. "Assim consigo ter uma maior organização e me programar financeiramente, mas nem sempre dá. As previsões costumam ser de uns dois dias antes ou até poucas horas", diz.

Ele explica que, em uma temporada boa, chega a registrar entre dois e três eventos por mês. No Brasil, isso acontece entre o outono e a primavera. "Verão tem chuva quase todos os dias, mas não são grandes tempestades", justifica.

O centro-sul é a região onde acontece a maior parte desses eventos meteorológicos.

Caminho das tempestades

Para descobrir onde estão os potenciais temporais, Maycon consulta aplicativos de monitoramento.

"A partir do momento que a tempestade se forma, aparece em tempo real a evolução. E a gente sabe para qual direção a chuva está indo, temos noção de que hora vai chegar em determinado lugar, se vai se manter intensa ou se dissipar", explica.

Por segurança, ele evita ficar no caminho da tempestade. E também não fica embaixo dela - entre 5 e 10 quilômetros de distância já rende boas imagens, como no caso de Carazinho, sem necessidade de tomar chuva.

"Mesmo assim, pode acontecer de ela se alongar ou formar outras tempestades em volta e pegar a gente. Uma forma de garantir a segurança é ficando dentro do carro, sem sair no campo aberto, por causa dos raios", completa.

O que fazemos é deixar as câmeras em tripés, no automático, e voltar para dentro do carro. Se o raio atingir, a gente vai estar longe. Depois que a chuva passa, recolhemos os equipamentos.

Mesmo com todo o planejamento, Maycon explica que nada é garantido. Segundo ele, as tempestades se deslocam em velocidade rápida e, para interceptá-las, é preciso se deslocar rápido também. Uma rodovia não tão boa, ou um mínimo atraso, pode colocar toda a correria a perder.