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Por que cientistas querem criar peixes na Lua?

Badejo: peixe é um dos considerados para serem criados na lua para alimentar astronautas numa futura base lunar - iStock
Badejo: peixe é um dos considerados para serem criados na lua para alimentar astronautas numa futura base lunar Imagem: iStock

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

16/03/2021 04h00

Uma equipe de cientistas franceses teve uma ideia que pode parecer absurda, mas faz sentido. Afinal, quando a ESA (Agência Espacial Europeia) construir sua Moon Village, uma base na Lua, o que os astronautas vão comer? Uma das opções do cardápio é: peixe fresco.

O plano é bem básico. Levar ovos da Terra e usar água minerada da superfície lunar para que os animais possam se desenvolver. A estratégia ganhou mais chances de dar certo após pesquisadores descobrirem que embriões de peixes conseguem sobreviver durante o trajeto até o espaço. Por isso, não parece algo absurdo criar os animais por lá.

Para testar a ideia, cientistas da Universidade de Montpellier e do Ifremer (Instituto Francês de Pesquisa de Exploração do Mar) colocaram 200 ovos de badejo e de corvina em recipientes com água do mar. Depois, eles foram colocados dentro de instrumentos que recriaram a experiência de lançamento de um foguete (no caso, o russo Soyuz). A pesquisa foi publicada na revista Aquaculture International.

Em uma viagem espacial, são dois minutos mais extremos, da explosão dos motores, e mais oito de forças intensas, durante a subida da nave. Por isso, os ovos passaram por dois testes: primeiro, foram balançados em um "shaker" orbital (para simular a subida); na sequência, sofreram vibrações muito mais intensas em outra máquina (simulando o lançamento).

De acordo com a equipe, os ovos foram expostos a muito mais forças do que em qualquer viagem espacial. E o resultado foi melhor que o esperado: 76% dos badejos e 95% das corvinas eclodiram após os testes de resistência.

Esses números são comparáveis ao aproveitamento de ovos em situações normais aqui na Terra. No grupo de controle, 82% dos badejos e 92% das corvinas tiveram sucesso. "Isso foi insano", disse o autor principal, Cyrille Przybyla. "O ambiente foi muito duro com esses ovos."

De acordo com o estudo, foram escolhidos embriões e não peixes adultos devido à maior resistência deles — peixes precisariam de muito mais cuidados para sobreviver em um foguete.

Considerando o processo evolutivo, os ovos precisaram "aprender" a vencer as adversidades dos ambientes aquáticos, como fortes correntezas, ondas e impactos com superfícies duras. Logo, podemos dizer que eles já são naturalmente prontos para o espaço. E há espécies com ovos mais ou menos fortes.

Por isso, a primeira etapa da pesquisa foi selecionar o peixe. Foram priorizados aqueles com menor necessidade de oxigênio, pouca liberação de dióxido de carbono, breve período de incubação, tolerância a níveis variáveis de salinidade e resistência a partículas carregadas — a radiação no espaço é maior que na Terra. Entre cem candidatos, chegaram ao badejo e à corvina no fim.

Além dos benefícios nutricionais — muito melhor consumir um peixe fresco, saboroso e rico em proteínas e vitaminas, do que comida embalada, desidratada e cápsulas —, a criação dos animais também pode tornar a vida na Lua mais agradável para os astronautas. "Do ponto de vista psicológico, é melhor ter lembranças da Terra, como jardins e tanques de peixes", acredita Przybyla.

O "lago" artificial seria criado com água da própria Lua ou de reuso, pois seria inviável transportar grandes quantidades de água marinha terrestre até lá. Após a primeira remessa de ovos, seria um ambiente autossustentável. Daria para ter até um peixe de estimação.

Os cientistas também estão estudando a possibilidade de aquicultura de outras espécies marinhas na Lua, como mexilhões e camarões, que talvez sejam até melhores escolhas do que os peixes, pois precisam de menos espaço e oferecem mais calorias por massa. Essa é apenas uma das cerca de 300 ideias que fazem parte do projeto Lunar Hatch, da ESA.